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  • Feira de Santana, quarta, 24 de junho de 2026

César Oliveira

Tocaia

César Oliveira - 24 de Junho de 2026 | 10h 24
Tocaia

Saudade é que nem tocaia: pega a gente sem aviso ou trégua.  É abismo sem fundo que fica nos chamando pelo nome. Ou como  borboleta que esfarela o sereno com as asas.

Seja como for cada um tem sua moagem dos miúdos e modo pra chamar pelo nome. Eu tenho do feito e até, bem sei,  do imaginado- essa com mais extensão do que a outra, que meu verdadeiro é só o que imagino ter. 

Amanheci, sem razão nem porque, apinhado  de saudades. Tenho por natureza e defeito esse acumular caudaloso de memória e faltas. Sou desafeto do esquecer  e amiúde me pego esmiuçando o inventário do que me sustenta sem perecer.

Saudade é assim: víscera dissecada, sem diagnóstico ou causa para o doer.

Ou, talvez tenha sido, porque fui na roça onde cresci e vi que as rosas que minha mãe cultivou- rosas acostumadas a resistirem com ela-, continuam lá. É  o modo que ela inventou de ficar comigo, incerta (e com razão) de que já sei andar com minhas próprias pernas. Ou o capim no pasto que o pai plantou, renascido depois que a cigarrinha  o comeu; piso nele devagar, como se  caminhasse em um céu ao avesso, o verde cobrindo as vergonhas da terra.

Talvez porque  enfeitei da cancela à porta de casa com  bandeirolas, amarrei palhas de licuri nas pilastras e armei a fogueira na entrada, pensando em meus filhos longe, aí nessas terras que inventaram de pertencer.  Orei baixinho para que nunca permitam que ela deixe de arder em seus corações, mesmo que a lenha seca crepite se desfazendo — e ainda que, ao final, tudo seja cinza. Lembro quando pediam ajuda para ver todos os fogos de artifício que tocávamos atiçando seu baile de cores no céu. Vocês cresceram e eu não.

Pode ser porque os amigos tenham sua própria geografia e eu seja  avesso a lonjuras.

Quem sabe é porque minha filha- essa invenção de alegria- tenha chorado ao arrumar as amostras de remédio na gaveta do consultório que acaba de montar, depois de uma longa e atribulada preparação e eu nem estava lá, refém de minhas distâncias.

Ou porque meu filho- essa invenção do correto- tenha uma agenda de shows com sua banda e eu nem possa ouvir sua guitarra contando os segredos e vontades de sua alma.

Pode ser que não seja nada disso. Seja só eu mesmo, no silêncio, procurando qualquer pedaço de mim que já se perdeu por aí ou que ainda hesita em vir.



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