A mais recente pesquisa do Ibope mostrou o crescimento de Ronaldo quando se pensava que ele tinha atingido o teto de aprovação, fato que surpreendeu a muitos. Em verdade, não é de se estranhar visto que Ronaldo tem um verdadeiro exército nas ruas captando votos para sua chapa e a máquina da prefeitura a seu favor. Certo que o perfil de rejeição mostrado na pesquisa chega a ser risível na sua distribuição e não merece credibilidade a um olhar mais atento, mas a distância que separa Ronaldo dos adversários é sim, factível. Certo que a pesquisa estimula o clima de já ganhou e faz com que os eleitores que não gostam de perder a eleição optem por se manter votando em Ronaldo.
A verdade é que Jonathas sofre por não ser mais novidade, Ângelo está em um voo solo sem grandes apoios, Leonardo ainda não tem cacife e Zé Neto tem de aguentar o peso da destruição ética do PT, da denúncia contra Lula, apesar de até contar sim, com significativas obras do Estado para apresentar. Jairo, que apresenta a maior chance de receber os votos dos descontentes com Ronaldo, mas que não desejam votar na oposição mais radical, apresentou crescimento na pesquisa, embora ainda sem ameaçar a liderança de Ronaldo.
Não se pode atribuir, no entanto, o sucesso do prefeito às limitações adversárias. Ronaldo faz um governo de continuada regularidade funcional, tornou a prefeitura um pagador confiável na praça, não atrasa salários, não deixa florescer caciques ameaçadores à sua sombra ( todos conformados em não correr riscos e esperar o pós-Ronaldo) e sempre pontua uma obra de maior destaque em cada governo ( a trincheira , atualmente). Entretanto, para que se entenda seu domínio e popularidade é preciso vê-lo em ação como na entrega da Ordem do Mérito Municipal a uma eclética reunião de cidadãos feirenses. Ronaldo, a cada um que é chamado, faz questão de comentar pessoalmente a biografia do homenageado, torná-lo íntimo, próximo, mostrar que conhece sua história, contar um caso relacionado, fazer um brincadeira. Comanda como um show-man. E com ar de simplicidade, de pessoa acessível a qualquer um.
Enfrentar Ronaldo exigiria uma dedicação política à altura: continuada, habilidosa, traçada a longo prazo e uma oposição realmente sistemática e não esta sem sal e especialmente sem pimenta que tem na Câmara. A pesquisa reflete a combinação destes fatos e deixa Ronaldo supostamente nadando de braçada e pressiona a oposição a trabalhar mais unida e encontrar um outro discurso.
O Brasil segue impregnado pela guerra culinária entre coxinhas e mortadelas. Um debate de afogados sustentado por interesses individuais e que não acrescenta um mísero tijolo no muro que separa qualidade de vida e vida sofrível. A grande tragédia não é a legalidade do impeachment, existente, de fato; a limitada legitimidade do atual presidente; o aparelhamento estatal ou a ocupação cultural por uma ideologia fúnebre e vencida.
A grande hecatombe que temos é a econômica, pois dela deriva todos os demais movimentos. No Brasil estamos em recessão, com PIB negativo por três anos, 12 milhões de desempregados. Imaginando que a cada um esteja ligado quatro pessoas temos 48 milhões de brasileiros sofrendo as dolorosas consequências desta crise. Crise esta que é responsabilidade direta do governo afastado com seu populismo insustentável, sua contabilidade destrutiva para sustentar o estelionato eleitoral que lhe conferiu a última vitória, e a submissão a uma ideologia econômica fracassada.
É preciso que entendamos que as grandes nações e impérios foram construídas com comportamento de gângster, incluindo os saques e espoliação direta de outras nações. Acontece que a democracia liberal avançou, a comunicação universalizou as fronteiras do direito- pelo menos como saber-, a colonização de territórios se tornou incorreta. Adicionalmente a vida foi se prologando, com aumento exponencial da população e o custo de sua manutenção crescendo geometricamente. Esta combinação de fatores tornou os recursos claramente mais escassos.
Ao lado disto, a complexidade das aglomerações urbanas vai se tornando avassaladora exigindo que estes escassos recursos sejam administrados de forma exímia, otimizada, para evitar o mínimo desperdício, gerando assim a possibilidade de garantia de um estado mínimo de manutenção das condições de vida. O tempo do desperdício, do improviso, dos recursos obtidos de forma predadora encolheu, e, há, ainda, milhões de pessoas e continentes a espera de serem incluídos nesta distribuição sob o risco de uma violência incontrolável, que, aliás, já torna até mesmo o mundo rico refém, vigilante, encarcerado.
Ao passo, entretanto, que esta administração pública passa a exigir gerentes cada vez mais qualificados, precisos, com domínio técnico maior, continuamos a escolher nossos administradores por características empíricas- carisma, simpatia, habilidade comunicativa, identificação pessoal- e não por características necessárias- formação técnica especifica, experiência administrativa, expertise, formação humanística- como se a administração pública atual pudesse se dar ao luxo do desperdício, da perda de tempo, de servir como laboratório de aprendizado. E o cidadão pagador de imposto como cobaia.
A democracia está anos luz de todas as formas totalitárias de poder- ainda que seja apenas o menos pior dos regimes-, mas não podemos mais tolerar administradores incapazes, falidos sedutores, que querem o poder para saquear os recursos públicos. Não podemos gastar milhões com cargos eletivos ocupados por eleitos que mal sabem ler, por vezes. Com a escassez de recursos a máquina pública exige eficiência absoluta.
Certo que não temos método para selecionar caráter, mas sou a favor de haver critérios de elegibilidade. Não estou fazendo apologia à república dos letrados, sei que a democracia tem em seu princípio a liberdade de cada homem poder ocupar o espaço público e que há um preço a pagar, mas não podemos ter uma administração de complexidade hercúlea e como único critério seletivo a capacidade de assinar o nome. É preciso mudar. Temos demandas do Século XXI e um modelo de escolha de administradores das savanas.
"A profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua encarar o povo e pedir voto. O concursado, não. Ele se forma numa universidade, faz um concurso e está com o emprego garantido."
Ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva
PS: cabe informar que voto não é salvo conduto, nem pena de absolvição para nenhum político criminoso, de nenhum partido.
Lula acaba de ser denunciado pelo MP como o " comandante máximo da corrupção". Além dele, outros seis, inclusive sua esposa Marisa Letícia. O ex-presidente acaba de ganhar um adversário que achou que não existia:a lei. O populista ex-presidente e o mais hábil comunicador que já tivemos na política recente levou sua tropa a um estado de soberba na qual achou que a impunidade tudo permitiria. E assim construiu um projeto de poder baseado na corrupção, que incluiu a compra da base parlamentar com recursos públicos.
A verdade é que os políticos nunca foram tão bem remunerados e nunca encontraram um ambiente tão fértil para liberação de seus piores instintos. Protegidos pela popularidade de Lula fizeram o diabo. Agora, acabam vendo seu líder ser denunciado pela primeira vez. E, certamente, ainda há muitas denúncias a serem feitas o que vai complicar muito a vida do ex-presidente e sua família.
Lula foi chamado de " general do petrolão" pelo promotor Dalton, que mostrou organograma do esquema. Caso a denúncia seja aceita pelo juiz Moro - e dificilmente não será- Lula vira réu em um momento em que já não pode nem mais contar com a proteção da Presidência da República. Depois da queda, o coice.
O "comandante" está sem tropas, o inimigo tem a arma letal da lei, as provas se avolumam. O "general" entrou em seu labirinto. E não tem a menor chance de encontrar a saída.
Normalmente a Justiça não deveria depender de circunstâncias, mas o Brasil é um país que ainda está sendo inventado, como mostra o pavoroso Congresso. Depois do mais longo processo- e da maior quantidade de manipulações do Regimento- finalmente Eduardo Cunha foi cassado e ficou inelegível. Foi cassado pelo conjunto de sua maligna obra, afinal, a Sociedade estava contra ele e os nossos políticos tem um apurado faro para a sobrevivência politica. Cunha, em verdade, foi o único capaz de enfrentar o PT, colocando o processo de impeachment em andamento e certamente não está fora do jogo, como se pode pensar, embora esteja nas mãos do juiz Moro.
As versões mais otimistas anunciam que Cunha está acabado. Como realista custo a crer que um profissional da estirpe dele saia do poder sem garantias. Evidente que seu poder nem de longe é igual, mas aqui e ali se ouve notícias que Cunha nomeou aliados no governo atual. Com seu potencial lesivo é pouco crível que o habilidoso político de bastidor que é Temer deixasse Cunha ao relento. É lógico que o cassado deputado sabia que, em certo momento, salvar seu mandato era impossível, cabendo, portanto, negociar as melhores condições incluindo um conveniente discurso de que foi abandonado pelo governo e que Temer afastou-se dele. Isto, após o presidente, ainda interino, tê-lo recebido em sua casa. Ora, me batam um abacate.
Frio, implacável, inescrupuloso ao extremo, desprovido de senso moral, não estão à toa em sua biografia. Evidente que algo pode sair errado- a mulher ser presa- e Cunha ser obrigado a delatar, mas onde achamos que foi um game over pode ter sido apenas um golpe.