Colega
de trabalho e amigo de longa data, o repórter fotográfico Luiz Tito me pediu
para fazer um texto sobre o Rio de Janeiro. Algo positivo, que fugisse do
tradicional noticiário de violência, de crimes, de corrupção. Ano passado fiz
algumas viagens à Cidade Maravilhosa e – tarefa difícil! – fiquei matutando
sobre o que escrever. Os encantos mil estão lá, à vista do visitante,
desafiando-o a lançar um olhar diferente daqueles que já se lançam há tantas
décadas.
Acostumado
a palmilhar centros de cidade – hábito antigo, legado pelos incontáveis
passeios ao comércio da Feira de Santana – pensei em escrever sobre o centro do
Rio Janeiro. Lapa, Santa Teresa, Praça XV, Praça Mauá, Cinelândia, mesmo o
agitado Saara, tudo veio feito onda, mas sem entusiasmar. Escrever sobre
monumentos, patrimônio arquitetônico, fatos históricos é tarefa espinhosa, exige
tempo e estudo. Então, desisti.
A
breve intimidade estabelecida com o Rio de Janeiro, porém, permitiu uma
constatação: nenhuma cidade no Brasil oferece tantas opções de lazer
gratuitamente. Neste cardápio não estão só as praias deslumbrantes ou a
contemplação das montanhas magníficas que circundam a cidade, imortalizadas em
cartões postais.
Depois
de muita hesitação, espasmos de entusiasmo e recuos cautelosos, menciono aqui
três atrações, pouco conhecidas de quem chega de fora. Um deles é o Parque
Penhasco Dois Irmãos, acessível pelo Leblon. Vou poupar quem lê dos detalhes
sobre a subida íngreme – mas por via pavimentada – e as paisagens deslumbrantes
que se sucedem nos mirantes. Pássaros coloridos, macacos e a exuberância da
Mata Atlântica acompanham o visitante.
Trilha
de fato, no coração do Rio de Janeiro, é a do Morro da Catacumba, cujo acesso é
pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá existiu a Favela da Catacumba, removida
décadas atrás. Quem sobe não deixa de perceber o contraste entre o trânsito
infernal da Avenida Epitácio Pessoa e a paz em meio à mata, centenas de metros acima.
Ao fim da caminhada, a recompensa: um mirante de tirar o fôlego que resta, com
vista ampla de Ipanema e da Zona Sul.
Por
fim, a Pista Cláudio Coutinho, que margeia o Morro da Urca e o mar defronte à
Praia Vermelha, em Botafogo. A proximidade do mar dá a sensação de que se está navegando,
numa embarcação, sobretudo quando as ondas se agitam. A estreita faixa de areia,
cercada pelas montanhas limosas, é visível no retorno da trilha, de 1,25
quilômetro. Lá, quem se dispõe, acessa também a trilha do Morro da Urca.
Além
destas, há inúmeras outras opções de passeio no Rio de Janeiro, gratuitas, vivenciadas
ao ar livre. Nenhuma cidade brasileira – repita-se – oferece tantos atrativos a
quem se dispõe ao contato com a natureza, com a fruição ao ar livre. É claro
que o turismo convencional adota outra perspectiva, movida pelo consumo. Neste,
há maior impacto ambiental, diferente de caminhadas e passeios.
Pesquisa
e planejamento são essenciais para se viver estas experiências inesquecíveis. Entusiasmado
por sua cidade natal, o carioca Luiz Tito está certo: o Rio de Janeiro vai
muito além dos clichês sobre violência e corrupção, visíveis no noticiário.
As fotos que ilustram o texto são da Pista Cláudio Coutinho, na Praia Vermelha, em Botafogo.
A
inauguração do novo terminal rodoviário de Salvador, em Águas Claras, atiçou as
discussões sobre uma nova rodoviária também na Feira de Santana. O assunto surgiu
mais como uma reação à obra em Salvador que, propriamente, como um debate estruturado,
com números e argumentos claros em defesa da proposta. Esvaiu-se, portanto, no
vertiginoso suceder de assuntos das mídias eletrônicas.
A
discussão sobre o transporte intermunicipal na Feira de Santana segue como essencial,
mas sob outro viés. Por aqui, não se precisa de uma nova rodoviária, mas
de estruturação e organização das múltiplas “rodoviárias” já existentes,
espalhadas pelo centro da cidade.
Trata-se
dos pontos de embarque e desembarque por meio de vans, micro-ônibus e veículos
de passeio que, todos os dias, transportam milhares de pessoas. Boa parte opera
via cooperativas ou na informalidade. Os destinos são os mais diversos, desde municípios
próximos – como Anguera e Antônio Cardoso – até cidades mais distantes, como
Capim Grosso e Itaberaba.
Há,
ainda, o incessante vaivém da gente dos distritos da Feira de Santana, que,
somados a povoados e pequenas comunidades, contam-se às dezenas. Assim, as
múltiplas “rodoviárias” que embarcam e desembarcam estão em praças, como as do
Tropeiro, Froes da Mota e Matriz e, também, em ruas, como a Papa João 23, Visconde
do Rio Branco e Barão de Cotegipe.
As
múltiplas “rodoviárias” feirenses são bem precárias: não dispõem de cobertura,
nem de assentos – menos ainda de sanitários – e, muitas vezes, nem da
sinalização mais básica. Fica-se de pé, sob sol ou sob chuva. Quem enfrenta
estas viagens intermunicipais conta com até menos conforto que os passageiros do
transporte urbano.
Não,
não defendo a construção de pomposos terminais rodoviários pelo centro da
cidade, com toda a infraestrutura para os viajantes. É óbvio que não se trata
disso. Mas se trata de oferecer um conforto mínimo para quem, afinal, desloca-se
para a Feira de Santana e, aqui, gasta seu dinheiro contribuindo para o desenvolvimento
do município.
Em
Salvador, o transporte para o interior não se dilui pelas diversas regiões da
cidade, como se vê aqui na Feira de Santana. Mas a capital ganhou um merecido –
e moderno – terminal rodoviário. Como se disse, o problema da Feira de Santana
não é de um terminal novo, mas dos múltiplos terminais miúdos que
recebem gente todos os dias.
Sendo
assim, o governo estadual deveria mexer-se, propor um projeto, obviamente em
parceria com a prefeitura, e contribuir para estruturar as múltiplas “rodoviárias”
feirenses. Custaria bem menos que o terminal de Salvador e ajudaria a melhorar
a vida de muita gente.
“E
os recursos?” Indagará alguém. Poderiam vir – por exemplo – das polpudas
emendas parlamentares...
O
tsunami mercantil chinês acelerou-se na segunda metade da década de 2000. À medida
que os produtos chineses se diversificavam e agregavam qualidade, os mercados
mundo afora foram se abrindo. Note-se, porém, que o avanço se deveu não apenas
à qualidade crescente, mas sobretudo aos preços. O engenhoso “Capitalismo de
Estado” chinês produzia com custos baixos e câmbio subvalorizado, o que tornava
seus produtos atrativos.
No
Brasil havia um ingrediente adicional, já mencionado no texto anterior: o
câmbio permanentemente sobrevalorizado e a extorsiva taxa de juros reais, o que
foi letal para boa parte da indústria brasileira. Some-se a isso a ausência de
um projeto – implementado via políticas públicas – para a indústria nacional.
A
conjuntura favoreceu a entrada abundante de produtos chineses no Brasil. Na
Feira de Santana, a condição de entroncamento rodoviário estratégico e
principal polo comercial do interior da Bahia, obviamente atraiu a atenção dos
empresários chineses. O tsunami mercantil, então, ganhou forma, reconfigurando
o centro da cidade, favorecendo o acesso a bens de consumo pela população mais
pobre e tornando os orientais protagonistas do comércio local.
As
transformações suscitadas pelo processo são evidentes. Quem vai ao Feiraguay
percebe que, para além do entreposto, o comércio se irradiou pelas ruas e praças
próximas, dinamizando toda a região. Note-se que não são apenas os produtos
chineses que estão ali, mas muitos empresários estão presentes com suas lojas e
– até mesmo – trabalhadores chineses e coreanos.
O
tsunami mercantil, porém, não se limitou às cercanias da praça Presidente
Médici. Avançou também em direção à histórica rua Conselheiro Franco,
tornando-a uma espécie de embrião da 25 de Março, a rua de comércio popular no
centro de São Paulo, famosa pela presença de comerciantes chineses. Ou à rua da
Alfândega, no centro do Rio de Janeiro ou, ainda, à avenida Sete de Setembro,
em Salvador.
Talvez
seja precipitado comparar a Conselheiro Franco à 25 de Março, no que se refere
à presença mercantil chinesa, mas a famosa artéria feirense também está se
reconfigurando. As lojas tradicionais saíram de cena, arrebatadas pelo tsunami
mercantil chinês.
Não
falta quem alimente sentimentos xenofóbicos no que se refere à presença chinesa
no Brasil. Na relação entre os dois países, porém, há fatos incontornáveis. Um
deles é a sólida parceria comercial. O outro é que, indiscutivelmente, a
entrada dos produtos chineses baratos favoreceu a entrada de milhões de
brasileiros no circuito do consumo de diversos produtos.
Assim,
é necessário constatar que, no jogo mercantil que se dá em via dupla, o Brasil
também vem ganhando muito.
Talvez
os mais jovens não saibam, mas o Feiraguay não começou no atual Feiraguay, cujo
nome oficial é praça Presidente Médici. Começou bem no início dos anos 1990, na
praça do Lambe-Lambe e na Sales Barbosa. Até então, a indústria chinesa
engatinhava e os produtos daquele país chegavam ao Brasil como contrabando,
transportados a partir do Paraguai em longas viagens clandestinas.
Naquela
época, minúsculas barracas exibiam relógios metálicos de parede e rádios de
pilha, produtos da então incipiente indústria chinesa. O desemprego era
alarmante e a pobreza endêmica: quem ia ficando de fora do mercado de trabalho,
que passava por uma profunda crise e por um acelerado processo de
reestruturação, aventurava-se pelas ruas, vendendo contrabando.
O
processo não era, exatamente, novidade na mercantil Feira de Santana: as
feiras-livres e o comércio de rua inspiravam os empreendedores que debutavam. O
que trazia uma mudança profunda era o produto: frutas, verduras, ervas
medicinas e pequenos utensílios de fabricos artesanais foram substituídos pelos
produtos eletrônicos chineses, uma novidade então.
Naquele
tempo – no famigerado governo Fernando Collor – a economia atravessava uma
profunda recessão e a indústria brasileira cambaleava após a abertura comercial
açodada. Cenário perfeito para a introdução de produtos chineses
contrabandeados, vendidos a brasileiros que enfrentavam uma feroz escassez de recursos.
Quem
debutava no novo – e precário – nicho comercial penou muito. O “rapa” perseguia
os camelôs de maneira implacável, apreendendo mercadorias; sucediam-se
manifestações pelas ruas da cidade; discursos inflamados retumbavam na imprensa,
mas não se chegava a qualquer solução. Quem empreendia insistia, até por falta
de alternativa.
A
solução, em grande medida, foi providenciada pelos próprios camelôs. Depois de
sucessivas expulsões, fixaram-se na abandonada praça Presidente Médici. Aquilo
ali ficava distante das artérias mais valorizadas, como Sales Barbosa e Senhor
dos Passos e incomodava pouco os lojistas tradicionais. Isso ainda em meados
dos anos 1990.
Mais
à frente, acordos comerciais viabilizaram a importação legal de produtos
chineses, cuja qualidade cresceu vertiginosamente, a indústria brasileira
arruinou-se com décadas de câmbio sobrevalorizado e o Feiraguay só cresceu,
tornando a região outrora esquecida um dinâmico centro de comércio.
Neste
século XXI, o entreposto contribuiu para a projeção da Feira de Santana Brasil
afora, rendendo inclusive muito folclore. Mas, com folclore ou não, o Feiraguay
e seu ecossistema geram milhares de postos diretos e indiretos de trabalho e
movimentam a economia feirense, ajudando a sustentar a Feira de Santana como
polo comercial de extensa região.
Mas mais detalhes sobre isto ficam para o próximo texto...
Carregadores,
cabos, fones de ouvido, capas, películas, suportes, caixas de som, fones
bluetooth, cartões de memória, HDs externos, mouses, teclados, caixas de som
USB. Tudo está ao alcance da mão, disponível nos balcões envidraçados que, simetricamente,
ajustam-se aos boxes minúsculos e iluminados com profusão.
Também
é possível encontrar confecções: camisas e camisetas, calças, saias, vestidos,
blusas, meias, bonés e as disputadas camisetas de times de futebol. Centenas de
boxes apertam-se em dezenas de corredores estreitos que dão a quem os percorre
a sensação de mergulhar num labirinto. Nele há conversas, gritos, pregões e
música estridente, um vertiginoso ir-e-vir que desorienta.
A
variedade de rostos e tons de pele emprestam ao ambiente um ar assemelhado ao
destes enclaves que reúnem gente de diversas partes. Movem-se pelos corredores
e detrás dos balcões, numa frenética ânsia mercantil. Pretos, brancos, pardos,
amarelos, altos, baixos, magros, gordos, jovens, adultos e idosos misturam-se,
comprando, vendendo, circulando.
O
mercadejar extrapola boxes e corredores, irradia-se para além do quarteirão que
abriga aquele frenesi. Nas vias limítrofes vicejam lojas, dezenas de lojas que
oferecem uma amplitude de mercadorias ainda maior: os mesmos eletrônicos, utilidades
domésticas, brinquedos e artigos infantis, produtos de limpeza e organização,
além de itens de beleza.
Densos
de prateleiras e produtos, estes estabelecimentos anunciam-se com chamativos painéis
multicoloridos. A baixa padronização visual, o fluxo incessante, a sufocante
exposição de mercadorias, o infindável vaivém de clientes, tudo contribui para
uma sensação de confusão, de caos até. Ali, todavia, impõe-se a lei do produto
barato, a ordem do crédito e das parcelas, a lógica varejista que concilia
também com o atacado.
Mas,
se o caos é aparente no mercadejar, ele é literal no trânsito. Apinhados, os
estacionamentos do entorno ofertam centenas de vagas que, raramente, estão
desocupadas. O ir-e-vir de veículos, então, é assustador. Atravancados, os
fluxos se retardam, produzindo gritos, imprecações, buzinas escandalosas. No
meio de tudo, pedestres aventuram-se em calçadas estreitas, entre os carros, nas
portas das lojas.
É
difícil circular sob o calor do verão, árvores são miragens naquela selva de
concreto, aço e vidro. A selva urbana, porém, permanece em expansão, placas e
estruturas de concreto prometem novas construções, sinalizando crescimento, avanço
em direção às artérias próximas.
Quem leu até aqui – presumo – já percebeu que trata-se de uma descrição pálida do Feiraguay, um dos mais eminentes símbolos da Feira de Santana nas últimas décadas. Mas vou parando por aqui: o Feiraguay exige muita palavra e algumas considerações, que ficam para o próximo texto.