É muita saliva gasta com o cuspe alheio, mas, já que caiu no gosto popular vamos ao assunto, pela última vez. Li relatos de almas lavadas pela cuspida do afetado Jean Wyllys no reacionário Bolsonaro e juras de pés juntos de que fariam o mesmo. É um direito de cada um, mas há outros aspectos que merecem uma reflexão.
O voto de Bolsonaro citando Brilhante Ustra é uma aberração e só um desequilibrado seriacapaz de defender um torturador que coloca ratos em vaginas de grávidas.
O busílis, no entanto, é outro. O deputado Jean Wyllys, premeditadamente, disse que ia cuspir - e cuspiu - em Bolsonaro. Ainda que tenha entusiasmado muitos, devo lembrar que ele estava ali investido da função de deputado e que existe um decoro a ser cumprido.
Bolsonaro, da mesma forma, está ali, legitimamente eleito, por mais que se odeie o fato. Acontece que a democracia não é isto. Eu não posso legitimar a agressão de Jean porque a vítima “merece". Afinal, o "merecimento" é o meu julgamento, e, aí, eu autorizo o adversário a achar também legítimas suas (re)ações. Pois o lado de lá pode achar também odiosa e merecedora de repulsa e agressão a posição de quem está do lado de cá. Sob a ótica dele, é justo e adequado.
Usando este tipo de argumentação, a democracia não se sustenta. Ao contrário, o que a faz real, plena, é exatamente a capacidade de lidar com os piores discursos dentro dos limites da lei. Não podemos combater o adversário marcando os inimigos abatidos na coronha do revólver; ou fazendo justiça com a própria saliva. Por mais detestável ou “merecedor" que alguém pareça, dentro do Parlamento ou fora dele.
Ou será que quando o deputado Jean defender o aborto, ou o "kit gay" nas escolas poderá ser cuspido e agredido por um fanático religioso ou um pai que discorde? Quando mulheres nuas simularam sexo com um crucifixo, na Parada Gay no Rio de Janeiro e misturaram com excrementos, estava autorizado serem agredidas por católicos?
As pautas e os discursos tolerados não podem ser apenas aqueles com os quais concordamos.
Eu detesto Bolsonaro, e acho abjeto e digno de horror que alguém defenda um torturador - o Estado nunca pode ser usado contra o cidadão, seja por meio de tortura ou violando o sigilo bancário de um caseiro, como fez Palloci. Mas não admito que outro deputado cuspa nele. Eu não cuspirei em nenhum dos dois. É asqueroso.
Dizem que o maior perigo que há é quando começamos a enxergar fascismo apenas no que o outro faz. Não custa tomarmos cuidado, pois podemos começar validando os que cospem com saliva, esquecendo que podemos estar autorizando os que cospem com ratos.