Afirmar que a política de combate às drogas fracassou é como afirmar que a luta dos médicos contra a morte também foi um fiasco. A opção, então, seria deixar de combater o tráfico, legalizar todos os entorpecentes, distribuir na merenda escolar, ou deixar as doenças cumprirem seu papel. Confesso que, toda vez que ouço isto, meus instintos mais primitivos tem um surto.
A verdade é que este discurso interessa aos usuários, muitos dos quais ocupam redações;traficantes que desejam espaço livre, como, absurdamente, existe nas Universidades do país onde a Polícia- acredite se quiser-, não entra; políticos e membros do Judiciário comprados pelo crime; playboyzinhos que querem livrar a cara dizendo que não tem culpa por cada morte, cada vida perdida no tráfico, pois a culpa é do Estado que ousa combater o crime e não dele, que é usuário;alguns, que acreditam verdadeiramente na mudança; e moderninhos bacanas que repetem o chavão sem definir qual era a meta do combate às drogas. A extinção total? Impedir sua universalização? Manter sob controle? Porque são alvos diferentes e sucesso para cada um deles é diferente.
Supondo, então, que este modelo é um fracasso, a Polícia deveria ser reduzida, inclusive poupando recursos, mas acontece que toda vez que reduzimos o efetivo policial- lembrem das greves-o que acontece é o caos e a violência desenfreada. Aliás, 48% dos presos no Brasil o são por crime contra o patrimônio e 28% por tráfico. Neste caso, poderiamos dizer então que a política de combate ao crime contra o patrimônio é um fracasso duas vezes maior que o combate ao tráfico.
Alguns argumentam que a repressão torna o produto escasso e aumenta o preço e os lucros levando a maior interesse do tráfico, de onde se pode concluir que para baraterar seria melhor não reprimir e ficarmos em paz com nossa legião de dependentes; outro argumento é que o combate as drogas não reduziu o número de usuários. Ora, baseado em que se pode afirmar isso? Em nada. Ninguém pode garantir que se não houvesse repressão este número não seria maior. Aliás, onde foi liberado aumentou sim. O mais lógico é isto, pois, há parcela da sociedade que se inibe de violar a lei.
Ah, me bata um abacate. A Polícia, em que pese a miséria dos salários, as condições limitadas, consegue manter o tráfico sob certo controle, mas preferimos renegar todo seu esforço porque estamos em fase de relativismo moral e o criminoso é apenas uma vítima da sociedade e Polícia é que deve ser execrada. Não é não. A política de combate às drogas não é um fracasso. È , apenas, insuficiente. Esperar a extinção do tráfico e da vontade humana de consumir entorpecente é pedir a Eva que negue a primeira maçã, portanto ele sempre vai existir e sempre necessitará ser combatido. A redução de recursos policiais e penais interessa exatamente aos dois braços culpados pela situação: os criminosos e os consumidores.
O que fracassamos foi em ter um sistema prisional efetivo; em combater a corrupção policial, do Judiciário, dos políticos; em atacar, eficazmente, as finanças do crime; vigiar as fronteiras; e, em dar a dimensão necessária às forças de combate ao crime. Ressalto que, mesmo se atingirmos esta perfeição, ainda assim haverá venda e consumo. Como haverá doenças. E isto não é fracasso. Alguns dizem que o tráfico penaliza os pobres e por isso não devia ser combatido desta forma. Ora, cobremos politicas sociais decentes e não apoiemos governos corruptos de qualquer ideologia, em resposta a isto. O que não é possível é expor toda a Sociedade a este liberou geral.
Outro aspecto, ainda, é que ao dizer que a política foi um fracasso, o discurso é usado para dizer que o combate a todas as drogas é inútil, embora, sempre que alguém debate sobre drogas, limita-se a defender a maconha, porque, ainda que contrariando a ciência, os usuários dizem que não faz mal.
Evidente que precisamos admitir que o pequeno consumidor de determinadas drogas deve ter uma abordagem diferenciada da lei, um discurso que deve ser considerado, mas não podemos permitir que este discurso de fracasso no combate às drogas, às vezes mais impregnados na cabeça de alguns do que os resíduos do que costumam consumir, seja usado e manipulado por interesses secundários.