A doença, com seu roteiro aleatório e potencial de letalidade , nos traz uma assombrosa noção de fragilidade e desamparo. A chance de perdermos os abraços em que amamos nos esconder, ou vá lá - de comer andu com um bom bife-, de não termos dito todas as palavras, vítimas dos adiamentos e escolhas erradas, é como perder as velas em um barco bêbado.
De imediato, então, vem o desejo de termos mais um tempo para concluirmos algumas coisas, polirmos arestas, esquecidos que ao fim de cada coisa finda, inaugura-se outra nova e inconclusa obra. Somos prisioneiros da permanência indefinida, do livro não terminado, do vinho não provado, do amor não conjurado, do gozo do doce de tomate que invade e ocupa a memória, do beijo que ainda falta, das árvores não plantadas, ou, no mínimo, do sorvete que precisamos repetir.
Assim, olhamos ao redor como quem soluça quando um filho abre a porta de casa são e salvo; como quem tem a chance de colocar os pés descalços para andar na terra, sem posses e lutas, mas perene; como quem descobre que se escorava em cordilheiras de isopor esquecido que a vida é uma ameaça latente.
Prometemos, então, uma cópia definitiva e não mais os rascunhos e ensaios que fazemos de nós mesmos.
A doença fere, não o corpo, mas a imortalidade.