Estudo publicado no Journal Adicctive Disease mostra que 65,9% dos usuários de droga voltam a usar um mês após a alta e 86,4% após três meses. Há relatos de até 90%. A verdade é que não sabemos, nem temos, até o momento, nenhum tratamento eficiente para dependência, porque algo que permite 85-90% de recaída não é um tratamento, mas apenas uma tentativa pra não confessar a incapacidade. Evidente que os 10% em que funciona valida a tentativa, porque pior é a omissão do Estado diante de uma condição que leva a morte direta ou indiretamente pelas doenças associadas. A medicina tem instrumentos clínicos e de imagem (Pet-Scan, etc), capazes de mostrar alterações no lobo frontal, que mostram ser uma condição mais grave e que sugere que o indivíduo já perdeu completamente a condição de livre- arbítrio, não lhe restando nenhuma opção. A discussão, infelizmente, assumiu um caráter ideológico, estando dividida entre os querem uma política de redução de danos e os favoráveis ao internamento, como se elas não pudessem sem complementares.
É certo que é preciso acompanhamento para evitar a violência desnecessária, para que não se use força sem precisão, como se fossem pessoas menos merecedoras do apoio do Estado, mas é preciso construir uma alternativa que não seja apenas omitir-se diante do drama, ou ficar assistindo o tráfico criar escravos e ter um território e vidas sobre seu domínio. Alguns falam de respeitar a dignidade, mas que dignidade pode haver mais em uma mulher que faz sexo 20 vezes por dia a R$5 reais, para comprar crack e manter seus neurônios estourados, sem qualquer capacidade de fugir da escravidão bioquímica do consumo-recompensa?
É necessário que todas as etapas- avaliação, abordagem, internamento, intervenção, assistência médica, assistência pós-internamento, envolvimento familiar- estejam planejadas e bem pactuadas com a Justiça, para que não seja apenas um ato de força e violação de direitos, por ação não regulada, para limpar a Cracolândia paulista. A depender do resultado isto pode se tornar modelo para muitas cidades que sofrem com o mesmo, díficil, problema.
Evidente que nós só teremos sucessos maiores quando os governos perceberem que o custo da droga é maior do que todo lucro que circula pelo sistema financeiro - acabando o faz de conta- e for investido dinheiro em pesquisas bioquímicas que possam gerar substâncias capazes de mudar a impregnação dos receptores neuronais. Claro que ter um remédio que trata a patologia leva a consequências - drogas contra o HIV estão levando a mais sexo sem proteção -, mas é um risco a ser administrado.
Enquanto isto não vem, teremos a sensação de enxugar gelo, mas situação mais grave é a indiferença com esta população.