A recorrência da descida ao submundo, em diferentes tradições
culturais, revela não apenas uma estrutura narrativa, mas uma verdadeira
gramática do sentido. Descer é, em muitos sistemas simbólicos, regressar à
origem. No mundo mesoamericano, essa lógica atinge uma formulação
particularmente densa: o submundo não é o lugar da morte definitiva, mas a
matriz da vida.
Em sítios como Teotihuacan, a construção de túneis rituais
sob o Templo de Quetzalcoatl sugere a encenação arquitetônica de uma catábase
regenerativa. A descida, nesse contexto, não é punição, mas acesso ao princípio
gerador do cosmos. Do mesmo modo, na tradição maia, o Xibalba figura como um
espaço de provação e transformação, onde a morte é condição de renascimento.
Esse modelo contrasta fortemente com o mundo greco-romano. Na
Eneida, a catábase de Eneias, embora fundamental para a legitimação de sua
missão, não implica regeneração ontológica. Ao encontrar Anquises, o herói
recebe a visão do futuro de Roma, mas não renasce: ele retorna investido de
conhecimento, não de nova existência. Já no universo do Antigo Testamento, a
descida é praticamente interditada. O submundo não é fonte, mas sombra; não
gera, não transforma, não legitima. A vida vem do alto, e não do interior da
terra.
Tem-se, assim, quatro regimes distintos: o submundo como
matriz (Mesoamérica), como arquivo (Virgílio), como punição (tradição grega) e
como silêncio (tradição bíblica). Essa tipologia permite compreender a
especificidade de uma questão moderna: o que acontece quando essas estruturas
deixam de operar?
É nesse ponto que a obra de Juraci Dórea se torna
particularmente reveladora. Suas figuras, isoladas em paisagens rarefeitas, não
parecem habitar um mundo funcional. Suspensas, imóveis, privadas de narrativa, elas
encenam não a travessia, mas sua interrupção. Se, nas cosmologias antigas, a
descida implicava transformação, em Dórea ela parece congelada no instante em
que nada ainda, ou nada mais, pode emergir.
Essa suspensão ganha maior densidade quando situada no
contexto do sertão contemporâneo. Longe de desaparecer, o sertão sofre um
processo de reconfiguração: a modernização não o elimina, mas o transforma em
espaço funcional, integrado a fluxos técnicos e econômicos que esvaziam sua
autonomia simbólica. O vaqueiro que agora conduz rebanhos sobre uma motocicleta
não representa uma ruptura absoluta, mas uma dissonância estrutural: o gesto
permanece, mas o mundo que lhe conferia sentido se dissolve.
Nesse cenário, a leitura do sertão como um “útero cósmico
invertido” adquire força interpretativa. Se em Teotihuacan a descida conduz à
origem e à regeneração, em Dórea o espaço parece reter sem gerar. Trata-se de
uma cornucópia falida: não o vazio puro, mas um vazio carregado da memória de
sua antiga fertilidade. A imagem aproxima-se, nesse sentido, da paisagem
fragmentada de The Waste Land, de T.
S. Eliot, onde os mitos persistem apenas como ruínas incapazes de restaurar o
mundo.
A força da obra de Dórea reside precisamente aí: ela não
representa o sertão empírico, mas o estado ontológico de um mundo após a
falência de seus mecanismos de regeneração simbólica. Suas figuras não são
habitantes de um submundo ativo, como em Xibalba, nem iniciados em busca de
revelação, como Eneias. Elas são resíduos de uma travessia interrompida, formas
que permanecem quando o ciclo já não se cumpre.
Se, nas tradições antigas, descer era regressar à fonte, na
modernidade figurada por Dórea já não há fonte acessível. O submundo não
desapareceu: ele emergiu à superfície, esvaziado de sua potência. E é nesse
espaço, nem plenamente vivo, nem definitivamente morto, que suas figuras
persistem, como testemunhas silenciosas de um mundo que continua a existir
depois da perda de seu princípio gerador.