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Wellington Freire

Entre o útero e o vazio: catábase, modernidade e a suspensão do mundo em Juraci Dórea

Wellington Freire - 17 de Maio de 2026 | 09h 15
Entre o útero e o vazio: catábase, modernidade e a suspensão do mundo em Juraci Dórea
Foto: Reprodução/Tela de Juraci Dórea

A recorrência da descida ao submundo, em diferentes tradições culturais, revela não apenas uma estrutura narrativa, mas uma verdadeira gramática do sentido. Descer é, em muitos sistemas simbólicos, regressar à origem. No mundo mesoamericano, essa lógica atinge uma formulação particularmente densa: o submundo não é o lugar da morte definitiva, mas a matriz da vida.

Em sítios como Teotihuacan, a construção de túneis rituais sob o Templo de Quetzalcoatl sugere a encenação arquitetônica de uma catábase regenerativa. A descida, nesse contexto, não é punição, mas acesso ao princípio gerador do cosmos. Do mesmo modo, na tradição maia, o Xibalba figura como um espaço de provação e transformação, onde a morte é condição de renascimento.

Esse modelo contrasta fortemente com o mundo greco-romano. Na Eneida, a catábase de Eneias, embora fundamental para a legitimação de sua missão, não implica regeneração ontológica. Ao encontrar Anquises, o herói recebe a visão do futuro de Roma, mas não renasce: ele retorna investido de conhecimento, não de nova existência. Já no universo do Antigo Testamento, a descida é praticamente interditada. O submundo não é fonte, mas sombra; não gera, não transforma, não legitima. A vida vem do alto, e não do interior da terra.

Tem-se, assim, quatro regimes distintos: o submundo como matriz (Mesoamérica), como arquivo (Virgílio), como punição (tradição grega) e como silêncio (tradição bíblica). Essa tipologia permite compreender a especificidade de uma questão moderna: o que acontece quando essas estruturas deixam de operar?

É nesse ponto que a obra de Juraci Dórea se torna particularmente reveladora. Suas figuras, isoladas em paisagens rarefeitas, não parecem habitar um mundo funcional. Suspensas, imóveis, privadas de narrativa, elas encenam não a travessia, mas sua interrupção. Se, nas cosmologias antigas, a descida implicava transformação, em Dórea ela parece congelada no instante em que nada ainda, ou nada mais, pode emergir.

Essa suspensão ganha maior densidade quando situada no contexto do sertão contemporâneo. Longe de desaparecer, o sertão sofre um processo de reconfiguração: a modernização não o elimina, mas o transforma em espaço funcional, integrado a fluxos técnicos e econômicos que esvaziam sua autonomia simbólica. O vaqueiro que agora conduz rebanhos sobre uma motocicleta não representa uma ruptura absoluta, mas uma dissonância estrutural: o gesto permanece, mas o mundo que lhe conferia sentido se dissolve.

Nesse cenário, a leitura do sertão como um “útero cósmico invertido” adquire força interpretativa. Se em Teotihuacan a descida conduz à origem e à regeneração, em Dórea o espaço parece reter sem gerar. Trata-se de uma cornucópia falida: não o vazio puro, mas um vazio carregado da memória de sua antiga fertilidade. A imagem aproxima-se, nesse sentido, da paisagem fragmentada de The Waste Land, de T. S. Eliot, onde os mitos persistem apenas como ruínas incapazes de restaurar o mundo.

A força da obra de Dórea reside precisamente aí: ela não representa o sertão empírico, mas o estado ontológico de um mundo após a falência de seus mecanismos de regeneração simbólica. Suas figuras não são habitantes de um submundo ativo, como em Xibalba, nem iniciados em busca de revelação, como Eneias. Elas são resíduos de uma travessia interrompida, formas que permanecem quando o ciclo já não se cumpre.

Se, nas tradições antigas, descer era regressar à fonte, na modernidade figurada por Dórea já não há fonte acessível. O submundo não desapareceu: ele emergiu à superfície, esvaziado de sua potência. E é nesse espaço, nem plenamente vivo, nem definitivamente morto, que suas figuras persistem, como testemunhas silenciosas de um mundo que continua a existir depois da perda de seu princípio gerador.



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