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Wellington Freire

Fallujah e Mossul: onde nasceu a guerra do século XXI

01 de Junho de 2026 | 12h 58
Fallujah e Mossul: onde nasceu a guerra do século XXI
Créditos: US Army

Quando pensamos na Guerra ao Terror, é comum que nossa memória evoque os atentados de 11 de setembro, a invasão do Afeganistão ou a queda de Bagdá em 2003. Entretanto, talvez o verdadeiro legado militar daquele período não esteja nos grandes acontecimentos políticos, mas em duas cidades iraquianas cujos nomes se tornaram sinônimos de devastação: Fallujah e Mossul.

Separadas por mais de uma década, ambas as batalhas parecem pertencer à mesma família histórica. E, vistas em retrospecto, revelam algo ainda mais importante: elas anteciparam muitas das características que definem os conflitos do século XXI.

Durante grande parte da história moderna, os estrategistas imaginaram a guerra como um confronto entre exércitos regulares disputando territórios em campos relativamente abertos. As guerras mundiais do século XX foram marcadas por frentes de batalha identificáveis, linhas defensivas e movimentos de grandes formações militares. Em Fallujah e Mossul, contudo, a geografia do combate mudou radicalmente.

A cidade transformou-se em campo de batalha. Ruas estreitas, edifícios residenciais, escolas, hospitais, mesquitas e mercados passaram a constituir o terreno operacional. Cada apartamento podia ocultar um franco-atirador. Cada esquina podia esconder uma emboscada. Cada túnel podia servir de rota para combatentes insurgentes.

Em Fallujah, em 2004, os fuzileiros navais americanos enfrentaram uma insurgência entrincheirada em uma das mais ferozes batalhas urbanas desde a Segunda Guerra Mundial. Em Mossul, entre 2016 e 2017, a coalizão liderada pelos Estados Unidos combateu o Estado Islâmico em uma campanha que se estendeu por meses e produziu níveis impressionantes de destruição.

Mas existe uma diferença fundamental entre as duas batalhas. Em Fallujah, o drone ainda era uma ferramenta periférica. Em Mossul, ele já começava a se tornar protagonista. Combatentes do Estado Islâmico passaram a empregar drones comerciais adaptados para lançar granadas e explosivos improvisados sobre tropas iraquianas. O valor militar dessas aeronaves era relativamente modesto quando comparado ao de sistemas militares sofisticados. Seu significado histórico, porém, era enorme. Pela primeira vez, uma organização insurgente utilizava drones em larga escala de maneira sistemática e criativa. Não era apenas uma questão tecnológica. Era uma mudança de paradigma. O monopólio estatal sobre a capacidade aérea começava a ruir.

Hoje, essa transformação é visível nos céus da Ucrânia, onde drones baratos destroem blindados que custam milhões de dólares. Mas suas raízes podem ser encontradas nos bairros devastados de Mossul. Outro aspecto que aproxima Fallujah e Mossul é a extrema assimetria do combate. De um lado estavam algumas das forças armadas mais poderosas do planeta. Do outro, organizações insurgentes sem aviação, sem marinha e frequentemente sem armamento pesado. Ainda assim, essas forças irregulares conseguiram impor custos elevados aos seus adversários.

A explicação não está apenas nas armas. Está na adaptação. Os insurgentes compreenderam que não precisavam derrotar militarmente seus inimigos. Bastava sobreviver, prolongar o conflito e explorar as vulnerabilidades psicológicas, políticas e midiáticas das democracias ocidentais. Essa lógica permanece viva. Muitos dos conflitos contemporâneos são travados não para conquistar capitais inimigas, mas para desgastar adversários mais fortes.

Talvez seja por isso que Fallujah e Mossul continuem tão relevantes. Elas não representam apenas capítulos da Guerra ao Terror. Funcionam como janelas para o presente. Nelas encontramos a urbanização da guerra, a proliferação de drones, a dissolução das fronteiras entre combatentes e civis, o uso intensivo da informação como arma e a persistência da assimetria como princípio estratégico. O século XXI ainda está escrevendo sua história militar. Mas há razões para acreditar que, quando os historiadores do futuro procurarem os primeiros sinais das guerras que hoje conhecemos, voltarão seus olhos para duas cidades iraquianas.

E descobrirão que muito do nosso presente já estava sendo anunciado entre as ruínas de Fallujah e Mossul.



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