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  • Feira de Santana, quinta, 11 de junho de 2026

Wellington Freire

Os mortos não assinam armistícios

11 de Junho de 2026 | 07h 52
Os mortos não assinam armistícios

Como decisões tomadas em 1947 continuam matando em 2026

Há guerras que terminam quando cessam os disparos. Outras sobrevivem aos seus soldados. Acompanhei nos últimos dias as notícias vindas da Caxemira. Protestos, confrontos, mortos, tropas mobilizadas, discursos inflamados. À primeira vista, trata-se apenas de mais um episódio de tensão entre Índia e Paquistão. Mas a aparência engana. O que vemos hoje não pertence inteiramente ao presente. Os homens que marcham pelas ruas de Muzaffarabad ou patrulham as fronteiras do Himalaia caminham, em certa medida, por estradas abertas por pessoas que já não existem. Os mortos não assinam armistícios.

Costumamos imaginar a História como uma sucessão de épocas claramente separadas. Os vivos ocupam o palco enquanto os mortos se retiram para os bastidores. A realidade é menos ordenada. Os mortos permanecem entre nós. Nem sempre como lembrança. Muitas vezes como estrutura.

A Caxemira é um dos exemplos mais impressionantes dessa persistência. Em 1947, quando o Império Britânico abandonou a Índia, uma linha foi traçada sobre mapas, relatórios e documentos oficiais. A partilha deu origem à Índia e ao Paquistão, mas também produziu uma das mais profundas feridas geopolíticas do século XX. Milhões de pessoas foram deslocadas. Centenas de milhares morreram. E uma questão aparentemente administrativa, a qual Estado pertenceria a Caxemira, transformou-se num problema que atravessaria gerações.

Os protagonistas daquela decisão desapareceram há muito tempo. General Lord Mountbatten pertence aos livros de História Militar. Jawaharlal Nehru tornou-se estátua. Muhammad Ali Jinnah repousa em seu mausoléu. No entanto, as consequências de suas escolhas continuam extraordinariamente vivas.

Os mortos foram embora. Seus problemas ficaram. O historiador francês Marc Bloch observou que a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Talvez o caso da Caxemira demonstre também o contrário: há passados que se recusam a passar.


A fronteira que hoje separa indianos e paquistaneses não é apenas uma linha militar. É uma memória fossilizada. Um vestígio transformado em paisagem política. Soldados vigiam montanhas porque homens mortos tomaram decisões há quase oitenta anos. Crianças crescem aprendendo a desconfiar do outro lado da fronteira porque seus avós herdaram um conflito que nunca encontrou uma conclusão definitiva.

Existe algo de profundamente homérico nisso. Na Ilíada, a guerra prossegue porque os vivos carregam promessas, juramentos e ofensas recebidas dos mortos. Os combatentes não lutam apenas por si mesmos. Lutam em nome de uma herança. A guerra torna-se uma corrente que atravessa gerações. A modernidade imaginou que a racionalidade burocrática substituiria esse mundo antigo. Não substituiu. Mudaram os uniformes, os mapas e as bandeiras. Permaneceu a lógica da herança.

Talvez por isso a Caxemira exerça tamanho fascínio sobre historiadores. Ela nos recorda uma verdade desconfortável: o passado raramente está morto. Em certos lugares, ele sequer é passado. Os confrontos desta semana parecem novos apenas para quem observa a superfície dos acontecimentos. Em profundidade, trata-se da mesma história que se desenrola desde 1947. Os atores mudam. O roteiro permanece.

Enquanto escrevo estas linhas, novos protestos ocorrem, novas patrulhas são mobilizadas e novas declarações são emitidas. Tudo parece contemporâneo. Mas, sob a névoa das montanhas do Himalaia, ainda ecoam vozes antigas.

São as vozes daqueles que dividiram territórios, desenharam fronteiras e imaginaram que seus atos permaneceriam confinados ao seu próprio tempo. Enganaram-se. Os homens morrem. As decisões sobrevivem.

E algumas guerras, como a da Caxemira, continuam sendo travadas muito depois que seus primeiros combatentes desceram ao silêncio dos túmulos. Afinal, os mortos não assinam armistícios. Eles apenas legam aos vivos a tarefa de conviver com as consequências.




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