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Wellington Freire

A Guerra Fria acabou; a preparação para a guerra não

Wellington Freire - 30 de Junho de 2026 | 12h 59
A Guerra Fria acabou; a preparação para a guerra não
Foto: Reprodução/Euronews

Em 1991, quando a União Soviética desapareceu do mapa, difundiu-se no Ocidente uma convicção que hoje parece quase ingênua: a de que as grandes guerras entre Estados haviam se tornado um fenômeno do passado. A democracia liberal triunfara, a economia global integrava antigos adversários e a interdependência comercial parecia tornar irracional qualquer confronto de grandes proporções. A paz deixava de ser um intervalo entre guerras para se transformar, acreditava-se, na condição normal da História.

Essa ilusão recebeu até um nome: o "dividendo da paz". Se o inimigo desaparecera, fazia sentido reduzir efetivos militares, fechar bases, desativar arsenais e transferir recursos para saúde, educação e infraestrutura. Durante décadas, grande parte da Europa seguiu esse caminho. Exércitos foram encolhidos, programas de armamentos cancelados e a própria ideia de uma guerra continental passou a ser vista como uma relíquia do século XX.

A História, porém, costuma tratar com severidade aqueles que decretam o seu fim. O anúncio do maior investimento britânico em defesa desde a Guerra Fria não representa apenas uma decisão orçamentária. É um sintoma de algo muito mais profundo: o retorno da política de poder como princípio organizador das relações internacionais.

Durante boa parte das últimas três décadas, acreditou-se que a segurança europeia estava garantida por uma arquitetura internacional estável, sustentada pela expansão da Otan, pela integração econômica e, sobretudo, pela garantia estratégica oferecida pelos Estados Unidos. A guerra permanecia possível, mas parecia confinada às periferias do sistema internacional – os Bálcãs, ao Oriente Médio, à África. O coração da Europa julgava-se definitivamente protegido da violência em larga escala.

A invasão russa da Ucrânia, em 2022, destruiu essa certeza. Não apenas porque uma guerra convencional voltou ao continente, mas porque revelou algo ainda mais perturbador: a competição entre grandes potências jamais havia desaparecido. Apenas atravessara um período de menor intensidade. A lógica do equilíbrio de poder, das zonas de influência, da corrida tecnológica e da dissuasão militar permaneceu viva, aguardando circunstâncias favoráveis para retornar ao primeiro plano. Nesse sentido, talvez o maior erro estratégico do Ocidente tenha sido confundir ausência de guerra com desaparecimento da possibilidade da guerra.

A História Militar ensina exatamente o contrário. Os longos períodos de paz raramente eliminam as rivalidades; apenas modificam suas formas de manifestação. A paz de hoje pode esconder as tensões que produzirão os conflitos de amanhã. Foi assim na chamada Belle Époque, às vésperas de 1914. Foi assim nos anos que antecederam 1939. E talvez estejamos assistindo a um fenômeno semelhante no século XXI.

Não surpreende, portanto, que o Reino Unido volte a investir pesadamente em defesa, que a Alemanha abandone décadas de contenção militar, que a Polônia acelere um dos maiores programas de rearmamento da Europa e que praticamente todos os membros da OTAN revisem suas prioridades estratégicas. Não se trata apenas de adquirir mais tanques, aviões ou navios. Trata-se de reconhecer que a segurança voltou a ocupar o centro das decisões nacionais.

Há uma ironia histórica nesse movimento. Durante décadas, muitos acreditaram que o desenvolvimento econômico substituiria definitivamente a competição geopolítica. A prosperidade seria o antídoto contra a guerra. Hoje, entretanto, são justamente economias altamente desenvolvidas que voltam a direcionar centenas de bilhões para arsenais, inteligência artificial, drones, defesa cibernética e indústria militar.

Isso não significa que uma nova guerra mundial seja inevitável. A História não trabalha com fatalismos. Mas significa que os Estados voltaram a agir como sempre agiram quando percebem a deterioração do ambiente estratégico: preparando-se para um conflito que esperam nunca travar.

A Guerra Fria terminou. Mas a necessidade de preparar-se para a guerra jamais desapareceu. Apenas ficou temporariamente adormecida, enquanto muitos confundiam uma pausa da História com o seu encerramento definitivo. Hoje, os arsenais voltam a crescer porque os governos compreenderam uma verdade tão antiga quanto a própria civilização: a paz não elimina a política de poder; apenas torna menos visíveis as forças que continuam a movê-la.



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