Quando pensamos na Guerra ao Terror, é comum que nossa memória evoque os atentados de 11 de setembro, a invasão do Afeganistão ou a queda de Bagdá em 2003. Entretanto, talvez o verdadeiro legado militar daquele período não esteja nos grandes acontecimentos políticos, mas em duas cidades iraquianas cujos nomes se tornaram sinônimos de devastação: Fallujah e Mossul.
Separadas por mais de uma década, ambas as batalhas parecem pertencer à mesma família histórica. E, vistas em retrospecto, revelam algo ainda mais importante: elas anteciparam muitas das características que definem os conflitos do século XXI.
Durante grande parte da história moderna, os estrategistas imaginaram a guerra como um confronto entre exércitos regulares disputando territórios em campos relativamente abertos. As guerras mundiais do século XX foram marcadas por frentes de batalha identificáveis, linhas defensivas e movimentos de grandes formações militares. Em Fallujah e Mossul, contudo, a geografia do combate mudou radicalmente.
A cidade transformou-se em campo de batalha. Ruas estreitas, edifícios residenciais, escolas, hospitais, mesquitas e mercados passaram a constituir o terreno operacional. Cada apartamento podia ocultar um franco-atirador. Cada esquina podia esconder uma emboscada. Cada túnel podia servir de rota para combatentes insurgentes.
Em Fallujah, em 2004, os fuzileiros navais americanos enfrentaram uma insurgência entrincheirada em uma das mais ferozes batalhas urbanas desde a Segunda Guerra Mundial. Em Mossul, entre 2016 e 2017, a coalizão liderada pelos Estados Unidos combateu o Estado Islâmico em uma campanha que se estendeu por meses e produziu níveis impressionantes de destruição.
Mas existe uma diferença fundamental entre as duas batalhas. Em Fallujah, o drone ainda era uma ferramenta periférica. Em Mossul, ele já começava a se tornar protagonista. Combatentes do Estado Islâmico passaram a empregar drones comerciais adaptados para lançar granadas e explosivos improvisados sobre tropas iraquianas. O valor militar dessas aeronaves era relativamente modesto quando comparado ao de sistemas militares sofisticados. Seu significado histórico, porém, era enorme. Pela primeira vez, uma organização insurgente utilizava drones em larga escala de maneira sistemática e criativa. Não era apenas uma questão tecnológica. Era uma mudança de paradigma. O monopólio estatal sobre a capacidade aérea começava a ruir.
Hoje, essa transformação é visível nos céus da Ucrânia, onde drones baratos destroem blindados que custam milhões de dólares. Mas suas raízes podem ser encontradas nos bairros devastados de Mossul. Outro aspecto que aproxima Fallujah e Mossul é a extrema assimetria do combate. De um lado estavam algumas das forças armadas mais poderosas do planeta. Do outro, organizações insurgentes sem aviação, sem marinha e frequentemente sem armamento pesado. Ainda assim, essas forças irregulares conseguiram impor custos elevados aos seus adversários.
A explicação não está apenas nas armas. Está na adaptação. Os insurgentes compreenderam que não precisavam derrotar militarmente seus inimigos. Bastava sobreviver, prolongar o conflito e explorar as vulnerabilidades psicológicas, políticas e midiáticas das democracias ocidentais. Essa lógica permanece viva. Muitos dos conflitos contemporâneos são travados não para conquistar capitais inimigas, mas para desgastar adversários mais fortes.
Talvez seja por isso que Fallujah e Mossul continuem tão relevantes. Elas não representam apenas capítulos da Guerra ao Terror. Funcionam como janelas para o presente. Nelas encontramos a urbanização da guerra, a proliferação de drones, a dissolução das fronteiras entre combatentes e civis, o uso intensivo da informação como arma e a persistência da assimetria como princípio estratégico. O século XXI ainda está escrevendo sua história militar. Mas há razões para acreditar que, quando os historiadores do futuro procurarem os primeiros sinais das guerras que hoje conhecemos, voltarão seus olhos para duas cidades iraquianas.
E descobrirão que muito do nosso presente já estava sendo anunciado entre as ruínas de Fallujah e Mossul.
Vivemos numa época curiosa. Nunca produzimos tantos registros
e, paradoxalmente, nunca esquecemos tão depressa. Fotografamos tudo, arquivamos
tudo, compartilhamos tudo. Ainda assim, algo essencial parece escapar. Como se
a abundância de imagens tivesse produzido uma nova forma de ausência. Nesse
contexto, a pintura de Nanja Brasileiro surge como um gesto de resistência. Não
contra a modernidade, mas contra o esquecimento.
Ao observar suas telas, tenho a impressão de estar diante de
objetos que guardam algo. Não apenas formas ou cores, mas vestígios. Memórias.
Presenças. As figuras que habitam sua obra parecem carregar uma biografia
silenciosa, uma história que não se deixa traduzir integralmente em palavras.
O símbolo que melhor sintetiza esse universo é o vaso. O vaso
aparece explicitamente em algumas obras; em outras, manifesta-se de maneira
indireta, sugerido por formas ovais, recipientes imaginários, estruturas de
acolhimento ou campos visuais que parecem destinados a conter algo precioso.
Trata-se de uma imagem antiga. Talvez uma das mais antigas da experiência
humana. Antes de ser objeto artístico, o vaso foi instrumento de sobrevivência.
Guardou água, sementes, alimentos, remédios, cinzas e relíquias. Guardou a
vida.
Não surpreende que tenha se tornado um poderoso símbolo
cultural. Em muitas tradições, o recipiente representa a memória coletiva. É o
lugar onde uma comunidade deposita aquilo que não deseja perder. Ao recuperar
essa imagem em sua pintura, Nanja Brasileiro parece formular uma pergunta
discretamente filosófica: o que ainda merece ser preservado?
Essa questão atravessa toda a sua produção. Os rostos que
surgem em suas telas não são retratos no sentido convencional. Não procuram
reproduzir uma fisionomia específica nem registrar uma identidade individual.
São rostos que lembram máscaras rituais, fragmentos de cerâmicas ancestrais ou
personagens emergidos de uma memória coletiva. Possuem algo de familiar e, ao
mesmo tempo, de enigmático.
Talvez porque pertençam menos ao domínio da representação e
mais ao da evocação. Ao contemplá-los, recordo uma observação de Paul Ricoeur:
a memória nunca é uma reprodução fiel do passado; é sempre uma reconstrução. Os
rostos de Nanja parecem nascer exatamente nesse espaço intermediário onde
lembrança e imaginação se encontram. Eles não mostram quem fomos. Mostram
aquilo que permanece de nós depois que o tempo fez seu trabalho de erosão.
Há também uma presença constante do feminino. Mas seria um equívoco
reduzir essa presença a uma temática de gênero. O feminino, em sua obra,
aparece sobretudo como princípio criador. Está nas flores que brotam, nos
recipientes que acolhem, nas formas curvas que organizam a composição. Está na
lógica da fecundidade que atravessa as telas.
As flores merecem atenção especial. Não são elementos
decorativos. Funcionam como sinais de continuidade. Enquanto os rostos evocam a
memória, as flores sugerem renovação. Elas estabelecem uma ponte entre aquilo
que foi preservado e aquilo que ainda está por nascer.
Memória e futuro. Raiz e florescimento. Talvez seja por isso
que suas composições transmitam uma sensação tão peculiar de serenidade. Não há
nelas a angústia característica de grande parte da arte contemporânea,
frequentemente marcada pela fragmentação, pela ruptura e pelo colapso dos
sentidos. Isso não significa ingenuidade estética. Significa outra escolha.
Nanja Brasileiro parece interessar-se menos pela destruição
das formas do que pela investigação dos vínculos que ainda nos sustentam.Seu
trabalho não ignora a fragmentação do mundo moderno; apenas se recusa a
transformá-la em destino. Essa postura torna-se ainda mais evidente na
utilização da cor. Azuis profundos, vermelhos intensos, amarelos luminosos e
verdes delicados não obedecem a critérios naturalistas. As cores não descrevem
o mundo. Criam atmosferas emocionais. São estados de espírito convertidos em
matéria visual.
Existe algo de musical em suas telas. Como acontece na
música, a compreensão não depende exclusivamente do significado racional. Antes
de entender, sentimos. Antes de interpretar, somos afetados. É nesse ponto que
a pintura de Nanja Brasileiro alcança sua dimensão mais interessante. Ela nos
recorda que a arte não existe apenas para representar a realidade. Existe
também para conservar aquilo que a realidade ameaça apagar.
Seus vasos guardam mais do que flores. Guardam memórias e
Guardam ancestralidades. Guardam afetos. Guardam identidades em permanente
transformação. Num tempo em que tudo parece destinado à velocidade do consumo e
ao desaparecimento imediato, sua pintura realiza um gesto raro: cria lugares de
permanência. Talvez seja essa a sensação que acompanha o observador ao final de
cada tela. A impressão de ter encontrado um pequeno abrigo contra o
esquecimento.
E, em tempos como os nossos, não há gesto artístico mais necessário.
Durante muito tempo, acreditei que a guerra da Ucrânia havia
inaugurado uma nova era militar. Como milhões de pessoas ao redor do mundo,
acostumei-me às imagens quase surreais de pequenos drones sobrevoando trincheiras, perseguindo blindados russos,
lançando granadas sobre soldados escondidos em crateras enlameadas. Parecia
algo inteiramente novo. Uma revolução nascida em 2022.
Mas então voltei a estudar a Batalha de Mossul, aquela
batalha travada na segunda maior cidade do Iraque, em 2016. E foi então que
percebi que a história começara antes. Muito antes. Para mim foi uma descoberta
perturbadora. Em meio às ruínas da guerra contra o Estado Islâmico, havia algo
que eu não enxergara devidamente, na época: os insurgentes já utilizavam drones adaptados para bombardear tropas
americanas e iraquianas. Não se tratava de protótipos sofisticados
produzidos por grandes potências. Eram drones
civis, baratos, improvisados, muitas vezes adquiridos comercialmente e
convertidos, artesanalmente, em instrumentos de ataque.
Pequenos objetos voadores carregando granadas. Hoje isso
parece banal. Em 2016, era quase ficção científica. Talvez o maior erro do
Ocidente tenha sido interpretar aquilo como mera gambiarra terrorista. Como uma
excentricidade tecnológica produzida pelo caos do Oriente Médio. Mas Mossul
continha, silenciosamente, o esboço da guerra do futuro. Os jihadistas
compreendiam algo que muitos estrategistas ainda não haviam percebido: a
aviação havia sido miniaturizada.
Durante mais de um século, o domínio aéreo pertenceu aos
Estados. Era
necessário possuir pistas, hangares, pilotos, combustível, indústria pesada,
cadeias logísticas complexas e orçamentos bilionários. O poder aéreo era uma
prerrogativa das grandes potências.
Então surgiram drones
comerciais vendidos em lojas comuns. E, de repente, grupos insurgentes passaram
a possuir algo que antes era monopólio estatal: capacidade aérea ofensiva. Esse
talvez tenha sido o verdadeiro nascimento da era dos drones modernos.
Não porque o ISIS tenha criado a tecnologia. Evidentemente
não criou. Os drones militares já
existiam há décadas. Os próprios Estados Unidos haviam utilizado UAVs
extensivamente no Afeganistão e no Iraque. MQ-1 Predator e MQ-9 Reaper já
realizavam assassinatos seletivos muito antes de Mossul.
Mas havia uma diferença crucial. Os drones americanos eram expressão do monopólio tecnológico imperial.
Os drones do ISIS representavam a
democratização da guerra aérea. Foi isso que mudou tudo. A partir daquele
momento, qualquer grupo relativamente organizado poderia adquirir “força aérea”
por algumas centenas de dólares.
A guerra da Ucrânia apenas radicalizou essa transformação. O que vemos, hoje, entre russos e
ucranianos é a industrialização daquilo que apareceu de forma embrionária em
Mossul. Drones FPV baratos destruindo
tanques multimilionários. Pequenos aparelhos guiando artilharia com precisão
quase instantânea. Infantaria permanentemente observada do céu. Linhas
defensivas transparentes. O campo de batalha transformado numa paisagem sem
esconderijos.
O drone alterou a
própria experiência psicológica da guerra. Durante séculos, soldados podiam, ao
menos, acreditar na possibilidade do ocultamento. Florestas, colinas, fumaça ou
trincheiras ofereciam alguma sensação de proteção. Agora, existe uma vigilância
aérea quase contínua. O céu tornou-se habitado por olhos mecânicos baratos e
descartáveis.
A consequência estratégica disso talvez ainda não tenha sido
totalmente compreendida. O drone está
fazendo com a guerra algo semelhante ao que o AK-47 fez no século XX: reduzindo
drasticamente o custo do poder letal. O Kalashnikov democratizou a violência
terrestre. O drone democratizou a
violência aérea.
E isso muda não apenas guerras entre Estados, mas todo o
conceito de insurgência. Talvez seja justamente por isso que Mossul mereça ser
revisitada hoje. Não apenas como capítulo da Guerra ao Terror, mas como
laboratório involuntário do século XXI militar.
Enquanto o mundo observava as bandeiras negras do califado e
os combates urbanos, algo mais profundo estava acontecendo silenciosamente
sobre os céus da cidade: a transformação da aviação numa tecnologia
acessível às massas armadas. A Ucrânia tornou isso visível ao planeta. Mas
as sombras dessa nova era já pairavam sobre Mossul há quase uma década.
Há guerras que avançam por conquistas territoriais. Outras
avançam por erosão psicológica. A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou, há muito
tempo, nessa segunda fase. O drone
russo que atingiu um edifício residencial em Galati, na Romênia, não abriu
apenas um buraco num bloco de apartamentos às margens do Danúbio. Abriu uma
fissura conceitual no coração estratégico da Europa: até onde vai a guerra
antes que a Otan seja obrigada a admitir que já está dentro dela?
O detalhe mais perturbador do episódio talvez não seja a
explosão. Nem mesmo os civis feridos. É o intervalo de tempo. Quatro minutos.
Foi esse o tempo disponível entre a detecção do drone e o impacto. Quatro minutos para radares identificarem a
ameaça, para operadores militares decidirem protocolos, para autoridades
ponderarem regras de engajamento e, finalmente, para nada acontecer.
A frase do general romeno Gheorghe Maxim sintetiza a tragédia
estratégica contemporânea: “A Ucrânia está em guerra, mas a Romênia está em paz”.
A declaração parece lógica. Mas, talvez, já não corresponda à realidade. Porque
o que se vê, hoje, no leste europeu é uma condição híbrida inédita: países
formalmente em paz convivendo, diariamente, com fenômenos típicos de guerra.
Drones atravessam fronteiras, sinais
eletrônicos bloqueiam sistemas civis, cabos submarinos sofrem sabotagens
misteriosas, satélites são perturbados, aeroportos interrompem operações,
navios mercantes mudam rotas e populações vivem sob alertas constantes, sem que
exista uma declaração formal de conflito.
A guerra moderna dissolveu as fronteiras jurídicas que antes
separavam paz e combate. A Otan compreende isso. Por isso a reação foi tão
rápida. Mark Rutte falou em “comportamento imprudente”. Ursula von der Leyen
afirmou que Moscou “ultrapassou mais um limite”. Mas a escolha das palavras
revela um cuidado quase cirúrgico. Nenhum líder europeu deseja utilizar termos
que obriguem a aliança atlântica a responder militarmente, de maneira direta.
Eis o paradoxo: a Otan precisa demonstrar força sem agir de forma que
transforme incidentes fronteiriços em escalada nuclear.
Essa tensão explica o caráter estranho da defesa aérea no
leste europeu. Os caças existem. Os radares existem. Os drones são detectados. Mas as regras políticas tornam a reação
lenta, limitada ou, simplesmente, impossível. O resultado é uma espécie de “dissuasão
impotente”: enorme capacidade militar combinada com mínima liberdade
operacional.
Moscou percebe isso. A Rússia compreendeu que o grande campo
de batalha contemporâneo não é apenas o território ucraniano, mas a zona
cinzenta psicológica da Europa. Cada drone
que cruza uma fronteira da Otan testa não apenas sistemas antiaéreos, mas,
sobretudo, a coesão política da aliança. A pergunta implícita é sempre a mesma:
quantos incidentes são necessários até que o Artigo 5º deixe de ser uma
abstração diplomática e se transforme numa obrigação militar real?
Por enquanto, a resposta ocidental parece ser: ainda não chegamos
lá. Mas o episódio de Galati introduz um elemento novo. Até aqui, fragmentos de
drones já haviam caído em países da Otan.
Agora, houve feridos civis dentro de um edifício residencial. A guerra deixou
de ser ruído distante para se materializar dentro de apartamentos europeus.
Existe, ainda, uma dimensão geográfica frequentemente
ignorada. O delta do Danúbio tornou-se um dos pontos mais delicados do continente.
Os portos ucranianos de Reni e Izmail converteram-se em alvos constantes,
porque representam rotas essenciais de exportação após o bloqueio parcial do
Mar Negro. Isto cria um problema quase insolúvel: drones russos operam, literalmente, colados ao espaço aéreo da
Romênia.
Na prática, a Otan enfrenta uma situação absurda: possui
superioridade tecnológica esmagadora, mas opera dentro de restrições políticas
que lhe impedem de agir com liberdade total. A Rússia, por outro lado, explora
exatamente essas hesitações.
O resultado é uma guerra de nervos. Talvez, seja esse o
verdadeiro significado estratégico do incidente em Galati. Não se trata apenas
de um drone fora de rota. Trata-se da
transformação gradual da Europa Oriental numa vasta zona de atrito permanente,
um espaço onde paz e guerra coexistem simultaneamente. E, talvez, o dado mais
inquietante seja, justamente, este: o continente começa a se acostumar.
Existe algo profundamente característico do século XXI na
imagem de diplomatas negociando enquanto aviões cruzam o céu carregando bombas.
Durante boa parte da história moderna, guerra e diplomacia eram momentos
distintos. Primeiro vinham os combates; depois, as conferências. A paz surgia
como consequência do esgotamento militar. Hoje, porém, a lógica parece outra:
negocia-se durante o bombardeio. A guerra deixou de interromper a diplomacia.
Tornou-se parte dela.
É exatamente isso que emerge da nova crise entre Estados
Unidos e Irã. Donald Trump afirma desejar um acordo. Seus enviados conversam.
Os canais diplomáticos permanecem abertos. Mas, simultaneamente, destróieres
americanos operam no Golfo Pérsico, drones são abatidos, instalações militares
iranianas são atacadas e o Estreito de Ormuz continua sob tensão permanente. A
mensagem implícita é brutal: negocia-se sob pressão aérea.
Talvez este seja o verdadeiro paradigma geopolítico
contemporâneo: a paz coercitiva.Não se trata mais da velha diplomacia europeia
do século XIX, baseada em congressos e tratados duradouros. Tampouco é a guerra
total do século XX, quando Estados inteiros eram mobilizados até a rendição
absoluta do inimigo. O que vemos agora é um modelo híbrido, no qual ataques
limitados convivem com negociações abertas. A guerra transforma-se numa
linguagem diplomática.
Trump não inventou esse mecanismo. Apenas o radicalizou.
Richard Nixon já operava assim durante a Guerra do Vietnã. Enquanto falava em
negociações de paz em Paris, ampliava os bombardeios sobre Camboja e Laos. A
violência militar era usada como instrumento psicológico de pressão. Décadas
depois, Bill Clinton empregaria lógica semelhante em Kosovo: a OTAN bombardeava
a Sérvia enquanto exigia concessões políticas imediatas. George W. Bush levaria
o método ao extremo no Iraque, quando a doutrina do “choque e pavor” procurou
transformar destruição em mecanismo de reorganização política.
Mas existe algo de singular na estratégia trumpista. Ela
mistura espetáculo, imprevisibilidade e coerção permanente. Trump negocia como
quem mantém um revólver sobre a mesa. Seus discursos oscilam entre anúncios
otimistas de paz e ameaças explícitas de novos ataques. O adversário nunca sabe
exatamente onde termina a diplomacia e onde começa a guerra.
Essa ambiguidade não é acidental. Ela constitui a própria
estratégia. No fundo, os Estados Unidos parecem compreender que o poder
contemporâneo não depende apenas da capacidade de destruir, mas da capacidade
de produzir incerteza contínua. A coerção moderna é psicológica antes de ser
militar. Não é necessário invadir Teerã. Basta tornar instável a vida estratégica
do Irã: seus portos, suas rotas marítimas, sua economia, sua percepção de
segurança.
O curioso é que o Irã também aprendeu essa lógica. Seus
drones, suas ameaças ao Estreito de Ormuz e suas operações indiretas funcionam
como formas de diplomacia armada. O regime iraniano sabe que talvez não possa
vencer os Estados Unidos numa guerra convencional. Mas também sabe que pode
elevar drasticamente os custos da presença americana no Golfo.
Assim, ambos negociam enquanto demonstram capacidade de
destruição mútua. Clausewitz talvez reconhecesse parte desse cenário, mas
provavelmente se espantaria com sua inversão contemporânea. Ele escreveu que a
guerra era a continuação da política por outros meios. Hoje, às vezes parece
que a política tornou-se apenas a continuação da guerra por meios menos
visíveis.
E talvez resida aí a grande tragédia estratégica do nosso tempo: a paz já não surge quando cessam os bombardeios. A paz moderna tornou-se apenas outra forma de pressão.