Há uma ilusão recorrente na análise das relações
internacionais: a de que os países pequenos são meros peões movidos pelas mãos
das grandes potências. Nos mapas, parecem insignificantes. Nos gráficos
econômicos, quase desaparecem. Nos balanços militares, raramente impressionam.
Contudo, a história demonstra que, em determinadas circunstâncias, Estados
relativamente fracos podem influenciar, constranger e até manipular atores
muito mais poderosos do que eles próprios.
É um fenômeno antigo. Tão antigo quanto a própria política. A
recente aproximação entre China e Coreia do Norte oferece um exemplo
contemporâneo dessa realidade. Durante décadas, analistas ocidentais repetiram
que Pyongyang dependia de Pequim para sobreviver. A afirmação continha uma
verdade econômica, mas escondia uma simplificação política. Dependência não é
sinônimo de submissão.
Kim Il-sung compreendeu isso ainda durante a Guerra Fria.
Quando a ruptura sino-soviética dividiu o bloco comunista, o líder
norte-coreano transformou sua posição geográfica em instrumento diplomático.
Situada entre duas potências rivais, a Coreia do Norte passou a extrair
recursos, armas e apoio de ambos os lados sem se converter em satélite integral
de nenhum deles. Moscou e Pequim disputavam influência; Pyongyang recolhia os
dividendos.
Seu neto, Kim Jong-un, parece ter herdado essa tradição.
Hoje, a Coreia do Norte explora simultaneamente as necessidades estratégicas da
China, da Rússia e dos Estados Unidos. Pequim deseja evitar o colapso do regime
e uma eventual reunificação da península sob influência americana. Moscou
necessita de munições, mísseis e soldados para sustentar sua campanha na
Ucrânia. Washington busca impedir a proliferação nuclear e conter crises
regionais. Cada uma dessas preocupações amplia o espaço de manobra
norte-coreano.
O fenômeno possui inúmeros precedentes históricos. Durante a
Guerra Fria, a Iugoslávia de Josip Broz Tito transformou-se em mestre dessa
arte. Rompido com Joseph Stalin em 1948, Tito recusou-se a ingressar na órbita
ocidental, mas também não retornou à submissão soviética. Ao ocupar uma posição
intermediária, recebeu ajuda econômica do Ocidente enquanto preservava sua
autonomia política. Sua fraqueza relativa converteu-se em vantagem estratégica.
Algo semelhante ocorreu com o Egito de Gamal Abdel Nasser.
Durante os anos 1950 e 1960, Nasser alternou aproximações com Washington e
Moscou, utilizando a rivalidade entre as superpotências para financiar projetos
nacionais e fortalecer as forças armadas egípcias. A crise de Suez, em 1956,
mostrou que um Estado regional podia transformar as tensões globais em
instrumento de sobrevivência.
Mesmo Israel, frequentemente visto apenas como aliado dos
Estados Unidos, soube explorar habilmente as disputas da Guerra Fria. Em
diferentes momentos, sua importância estratégica elevou seu valor geopolítico
muito além do que sua dimensão territorial ou demográfica sugeriria.
Mais recentemente, o Catar demonstrou como riqueza,
diplomacia e posicionamento geográfico podem ampliar desproporcionalmente a influência
de um pequeno Estado. Hospeda bases americanas, mantém canais com adversários
dos Estados Unidos e atua como mediador em conflitos que envolvem atores muito
maiores do que ele.
A história militar oferece uma explicação para esse padrão.
Em guerras e alianças, a importância de um ator raramente depende apenas de seu
tamanho. Depende de sua posição. Um estreito marítimo, uma passagem montanhosa,
uma fronteira estratégica ou uma localização crítica podem conferir a um Estado
pequeno um valor que nenhuma estatística consegue captar plenamente.
Foi assim com Bizâncio controlando os estreitos entre Europa
e Ásia. Foi assim com a Bélgica nas guerras europeias. Foi assim com a
Finlândia diante da União Soviética. E continua sendo assim com a Coreia do Norte.
Talvez a grande lição seja que o poder não reside apenas na
força. Reside também na capacidade de tornar-se indispensável. Quando grandes
potências passam a necessitar de um pequeno Estado para atingir seus objetivos,
a relação de dependência deixa de ser unilateral.
É nesse momento que ocorre uma das mais curiosas inversões da
política internacional: o cachorro continua maior, mais forte e mais rico. Mas
é o rabo que começa a determinar a direção do movimento.
Há uma fotografia recorrente em quase todas as guerras contemporâneas. Não mostra tanques avançando nem soldados assaltando trincheiras. Mostra apartamentos sem fachadas, escolas reduzidas a escombros, ruas transformadas em corredores de concreto quebrado. A imagem tornou-se tão comum que já quase não a percebemos. No entanto, ela revela uma das transformações mais profundas da arte da guerra: cada vez mais, vence-se não apenas destruindo exércitos, mas destruindo os lugares onde as pessoas vivem.
A ideia não é nova. Na verdade, é tão antiga quanto a própria guerra. Quando os romanos destruíram Cartago em 146 a.C., não se limitaram a derrotar um adversário militar. Procuraram apagar as condições materiais que tornavam possível a existência daquela potência rival. A cidade foi arrasada, suas muralhas derrubadas, sua infraestrutura destruída. A mensagem era clara: algumas vitórias só parecem completas quando deixam para trás um vazio. Durante séculos, porém, a destruição de cidades foi frequentemente consequência da guerra. Hoje, em muitos casos, ela se tornou um de seus objetivos.
Na campanha do general William Tecumseh Sherman através da Geórgia, durante a Guerra Civil Americana, consolidou-se uma nova lógica. Sherman compreendeu que não bastava derrotar os exércitos confederados. Era necessário destruir ferrovias, depósitos, colheitas e centros logísticos. O alvo já não era apenas o soldado inimigo, mas a estrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando. Sua famosa Marcha para o Mar inaugurou uma forma moderna de guerra contra a infraestrutura.
O século XX ampliou essa tendência até limites antes impensáveis. Dresden, Hamburgo, Coventry, Tóquio. A guerra industrial transformou cidades inteiras em alvos legítimos. A distinção clássica entre combatente e não combatente começou a dissolver-se sob as bombas. O raciocínio era brutal, mas simples: destruir a capacidade produtiva, administrativa e psicológica do inimigo seria um caminho mais rápido para a vitória.
Após 1945, muitos acreditaram que o horror da Segunda Guerra Mundial teria estabelecido limites mais rígidos. O desenvolvimento do direito internacional humanitário parecia apontar nessa direção. Entretanto, a história seguiu outro caminho.
Grozny, na Chechênia, foi praticamente pulverizada pelas forças russas. Aleppo, na Síria, tornou-se símbolo da devastação urbana do século XXI. Mariupol sofreu destino semelhante durante a guerra na Ucrânia. Gaza e partes do sul do Líbano apresentam hoje paisagens que recordam as ruínas das cidades europeias de 1945.
Em todos esses casos, observa-se um padrão recorrente. A destruição da infraestrutura não aparece apenas como dano colateral. Ela passa a integrar a lógica operacional. Casas deixam de ser apenas casas. Estradas deixam de ser apenas estradas. Hospitais, sistemas elétricos, redes de abastecimento e centros de comunicação passam a ser vistos como elementos de uma arquitetura militar ampliada. O objetivo não é apenas matar. É tornar impossível a vida normal.
Existe uma dimensão profundamente estratégica nisso. Populações deslocadas geram pressão política. Cidades destruídas dificultam o abastecimento de forças adversárias. A ruína física produz desgaste psicológico. A infraestrutura converte-se em um centro de gravidade militar tão importante quanto divisões blindadas ou baterias de artilharia.
Mas há também uma dimensão moral que não pode ser ignorada. Quando uma casa é destruída, perde-se mais do que um edifício. Perde-se um espaço de memória. Fotografias desaparecem sob os escombros. Livros queimam. Objetos herdados de gerações anteriores são reduzidos a pó. Cada parede derrubada representa uma pequena derrota da permanência humana diante da violência.
Talvez seja por isso que as ruínas provoquem fascínio e desconforto ao mesmo tempo. Elas nos lembram que a guerra não destrói apenas exércitos. Destrói biografias. Ao contemplarmos as imagens que chegam diariamente de Gaza, Mariupol ou do sul do Líbano, somos levados a uma conclusão inquietante. Apesar de todos os avanços tecnológicos, apesar dos discursos sobre armas inteligentes e ataques de precisão, continuamos muito próximos da velha lógica de Cartago.
Mudaram os mísseis. Mudaram os uniformes. Mudaram os discursos. Mas permanece a antiga convicção de que, para vencer uma guerra, às vezes é preciso destruir o lugar onde alguém chama de lar.
Durante mais de três mil anos, a guerra foi uma atividade
profundamente humana. As armas mudaram. Os impérios surgiram e desapareceram. A
pólvora substituiu a lança; o tanque substituiu a cavalaria; o míssil
substituiu parte da artilharia. Contudo, uma constante permaneceu: no centro do
combate encontrava-se um ser humano tomando decisões.
Talvez estejamos assistindo ao fim dessa longa tradição. As
notícias sobre inteligência artificial costumam enfatizar seus impactos
econômicos, suas aplicações médicas ou sua capacidade de transformar o mercado
de trabalho. Menos atenção recebe uma questão igualmente importante: a
inteligência artificial está alterando a própria natureza da guerra.
Na Ilíada, o mais antigo grande poema militar do
Ocidente, a guerra possui rosto. Aquiles entra em combate e o destino dos
exércitos se modifica. Heitor cai diante das muralhas de Troia e uma cidade
inteira aproxima-se de sua ruína. A força decisiva é a coragem individual. O herói
é, simultaneamente, arma, comandante e símbolo.
Séculos depois, Virgílio apresenta uma realidade diferente.
Na Eneida, Eneias continua sendo um guerreiro, mas já não combate apenas por
glória pessoal. Ele serve a um projeto histórico. O indivíduo começa a ceder
espaço à coletividade política. Roma surge no horizonte como uma máquina de
poder muito maior que qualquer homem.
A história militar posterior pode ser lida, em certa medida,
como a ampliação contínua dessa lógica. Exércitos tornaram-se mais complexos.
Estados desenvolveram burocracias gigantescas. Sistemas de comunicação
permitiram coordenar operações em escalas antes inimagináveis. Ainda assim, no
momento decisivo, havia sempre alguém decidindo.
Alguém avaliava informações. Alguém assumia responsabilidades.
Alguém apertava o gatilho. Hoje, essa premissa começa a ser questionada.
Sistemas baseados em inteligência artificial já são capazes de identificar
padrões em volumes colossais de dados, rastrear movimentações inimigas,
selecionar alvos potenciais e recomendar respostas táticas em velocidades
inalcançáveis para operadores humanos. Em conflitos recentes, algoritmos
passaram a desempenhar funções que, até há poucos anos, pertenciam
exclusivamente ao julgamento humano.
Estamos diante do surgimento de uma nova figura histórica: o
General Algoritmo. Não se trata de um comandante sentado em uma tenda, como
Agamêmnon. Tampouco de um estrategista imperial à moda romana. O General
Algoritmo não possui rosto, biografia ou medalhas. Ele existe na forma de redes
neurais, centros de processamento de dados, satélites, sensores e softwares que
operam continuamente, analisando cenários e produzindo decisões em frações de
segundo.
Essa transformação produz uma consequência filosófica
raramente discutida. O que acontece com o heroísmo quando a guerra deixa de
depender do herói?A literatura ocidental nasceu celebrando guerreiros. Homero
cantou Aquiles. Virgílio cantou Eneias. Durante séculos, poetas, cronistas e
historiadores procuraram identificar indivíduos cujas ações alteraram o curso
dos acontecimentos. A memória da guerra sempre foi, em larga medida, a memória
de pessoas.
Mas uma guerra conduzida por sistemas autônomos desafia essa
tradição. O protagonista deixa de ser o combatente e passa a ser a arquitetura
tecnológica que o cerca. A coragem continua existindo, evidentemente. Soldados
continuarão enfrentando riscos e tomando decisões difíceis. Contudo, sua
centralidade tende a diminuir à medida que algoritmos assumem funções cada vez
mais estratégicas.
Há uma ironia inquietante nesse processo. Durante séculos,
comandantes buscaram reduzir o peso das emoções, do medo e do erro humano nos
campos de batalha. A inteligência artificial representa o ápice desse esforço.
No entanto, ao substituir parte do julgamento humano por sistemas extremamente
complexos, criamos uma nova fonte de incerteza. Nem sempre compreendemos
plenamente como esses sistemas chegam às suas conclusões.
Talvez este seja o grande paradoxo militar do século XXI.
Quanto mais racional tentamos tornar a guerra, mais opaco se torna seu
funcionamento. Diante das muralhas de Troia, era possível apontar para Aquiles
e dizer: ali está a força que move esta batalha. No mundo que se aproxima, a
força decisiva pode estar escondida em linhas de código dispersas por
servidores localizados a milhares de quilômetros do campo de combate.
A guerra não deixará de ser humana. Mas, pela primeira vez
desde Homero, ela talvez deixe de ser inteiramente nossa.
Durante muito tempo, a geografia foi uma forma de proteção. Montanhas, desertos, oceanos e vastidões territoriais funcionavam como escudos naturais. Havia uma distinção relativamente clara entre a frente de combate e a retaguarda. Os exércitos guerreavam em determinados espaços e as cidades distantes do conflito podiam continuar suas rotinas, ainda que sob a sombra da guerra. Essa separação nunca foi absoluta, mas era suficientemente concreta para moldar a estratégia militar e a própria experiência humana dos conflitos.
Hoje, essa distinção está desaparecendo. Na madrugada desta quarta-feira, drones ucranianos atingiram um terminal petrolífero em São Petersburgo, cidade natal de Vladimir Putin e palco de um dos principais fóruns econômicos da Rússia. Quase simultaneamente, no Golfo Pérsico, novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã ampliaram a sensação de que não existem mais espaços verdadeiramente seguros em tempos de guerra. Do Báltico ao Estreito de Ormuz, uma mesma realidade emerge: a erosão da retaguarda como conceito estratégico.
Os historiadores militares costumam recordar que a profundidade territorial foi um dos fatores decisivos para a sobrevivência da Rússia diante de Napoleão, em 1812, e de Hitler, em 1941. O espaço funcionava como arma. A distância desgastava invasores. Moscou podia cair sem que o Estado necessariamente colapsasse. O território oferecia tempo, e o tempo era uma forma de defesa.
Mas o século XXI está alterando essa equação. Um drone lançado a centenas ou milhares de quilômetros pode atingir refinarias, aeroportos, centros logísticos e instalações militares localizadas muito além da linha de frente. A antiga profundidade estratégica torna-se progressivamente menos relevante quando a tecnologia permite que o campo de batalha seja projetado para dentro do território nacional adversário.
O caso de São Petersburgo é emblemático. O objetivo do ataque não parece ter sido apenas material. O terminal de petróleo possui importância econômica, mas o alvo verdadeiro talvez tenha sido algo mais abstrato: a sensação de normalidade. A guerra contemporânea busca destruir não apenas infraestrutura, mas também percepções. Busca demonstrar vulnerabilidade. Busca comunicar.
Clausewitz definiu a guerra como um ato de força destinado a compelir o adversário à nossa vontade. No século XXI, essa compulsão não ocorre apenas pela destruição física. Ela ocorre pela produção deliberada de insegurança. O cidadão que observa fumaça erguer-se sobre uma cidade considerada distante do front recebe uma mensagem estratégica tão importante quanto aquela transmitida pela destruição de um depósito de combustível.
Há aqui uma transformação histórica comparável à introdução da pólvora, da ferrovia ou da aviação. Durante séculos, a retaguarda representou um espaço relativamente preservado do combate direto. Mesmo durante as guerras mundiais, quando os bombardeios estratégicos alcançaram cidades inteiras, existiam limitações tecnológicas que restringiam a frequência e a precisão dos ataques. Hoje, sistemas relativamente baratos podem ser produzidos em larga escala e empregados contra alvos localizados a enormes distâncias.
O resultado é o surgimento de uma geografia militar radicalmente nova. As fronteiras continuam existindo nos mapas, mas o campo de batalha já não respeita os limites tradicionais da distância. A guerra tornou-se difusa, permanente e ubíqua. Ela atravessa mares, contorna montanhas, ignora linhas defensivas e surge repentinamente sobre aeroportos, refinarias e centros urbanos.
Talvez estejamos assistindo ao fim de uma das mais antigas certezas da história militar: a crença de que existe um lugar atrás das linhas. São Petersburgo, assim como Kiev, Tel Aviv, Teerã ou qualquer outra grande cidade contemporânea, revela uma verdade inquietante sobre nosso tempo. A tecnologia não aboliu a geografia. Os estreitos marítimos, os portos e as rotas comerciais continuam decisivos. Mas ela aboliu algo igualmente importante: a segurança proporcionada pela distância. A guerra, que outrora avançava como uma maré visível através dos territórios, agora pode surgir instantaneamente sobre qualquer horizonte.
E quando isso acontece, a própria ideia de retaguarda transforma-se em memória histórica. Não existem mais refúgios garantidos. Não existem mais santuários geográficos. Há apenas diferentes graus de vulnerabilidade. E essa talvez seja uma das características mais perturbadoras da guerra no século XXI.
Há datas que pertencem não apenas aos calendários, mas à consciência das nações. Para a Rússia, 22 de junho é uma delas. Na madrugada daquele dia, em 1941, teve início a Operação Barbarossa, a maior invasão terrestre da história.
Três milhões de soldados alemães atravessaram as fronteiras
da União Soviética. Em poucas semanas, cidades caíram, exércitos foram cercados
e centenas de milhares de homens desapareceram nos vastos espaços do Leste
Europeu. Era o começo daquilo que os russos ainda chamam de Grande Guerra
Patriótica.
O trauma foi tão profundo que moldou a identidade nacional
russa durante gerações. A memória da invasão tornou-se um elemento fundador da
consciência coletiva do país. O invasor estrangeiro, o sacrifício heroico, a
defesa da pátria e a vitória final passaram a ocupar lugar central na narrativa
histórica construída por Moscou.
Mas a história possui um gosto particular pela ironia.
Oitenta e poucos anos depois, a Rússia se encontra do outro lado da fronteira.
Em 1941, as colunas blindadas alemãs avançavam sobre a Ucrânia. Em 2022,
colunas blindadas russas avançaram sobre a Ucrânia.
Em 1941, Kiev se preparava para resistir a um exército
invasor. Em 2022, Kiev voltou a se preparar para resistir a um exército
invasor. Em 1941, a população civil fugia dos bombardeios alemães. Hoje, foge
dos mísseis e drones russos. A
geografia permanece a mesma. Mudaram apenas os uniformes.
É precisamente aí que reside um dos grandes paradoxos do
nosso tempo. O Kremlin continua recorrendo à memória da Segunda Guerra Mundial
para justificar suas ações. O vocabulário da luta contra o fascismo, da defesa
histórica da pátria e da libertação dos povos ocupa posição central na retórica
oficial russa. A guerra atual é, frequentemente, apresentada como uma continuação
moral da luta travada contra Hitler.
Entretanto, existe uma diferença fundamental, que nenhum
discurso consegue apagar. Em 1941, a União Soviética lutava para sobreviver a
uma invasão estrangeira. Em 2022, foi a Federação Russa que atravessou uma fronteira
internacionalmente reconhecida. A memória da vítima e a realidade do agressor
passaram a coexistir dentro da mesma narrativa política.
Talvez, esse seja um fenômeno mais comum do que gostaríamos
de admitir. Povos costumam lembrar com extraordinária precisão as violências
que sofreram. Já as violências que praticam tendem a ser envolvidas por
justificativas, eufemismos e racionalizações.
A memória é seletiva. A história, nem sempre. Ao observar o
aniversário da Operação Barbarossa, não consigo evitar a sensação de que
estamos diante de uma das mais notáveis inversões históricas do último século.
O país que construiu parte de sua identidade nacional sobre a lembrança de uma
invasão devastadora tornou-se protagonista de uma guerra que muitos, fora de suas
fronteiras, enxergam precisamente como uma invasão.
Isso não diminui o sofrimento russo de 1941. Tampouco
relativiza o horror da agressão nazista. Pelo contrário. Apenas nos recorda que
a experiência de ter sido vítima não imuniza nenhuma sociedade contra a
tentação do poder.
A história militar está repleta desses espelhos
desconfortáveis. Impérios derrotados tornam-se conquistadores. Povos ocupados
transformam-se em ocupantes. Revolucionários convertem-se em burocratas.
Libertadores assumem o papel de dominadores.
Talvez, a maior lição de 22 de junho não esteja nos
movimentos das divisões blindadas ou nos mapas das campanhas militares. Talvez
ela resida numa verdade mais simples e mais amarga. A história não garante
virtude a ninguém. Ela apenas oferece, de tempos em tempos, a oportunidade de
escolher entre recordar uma tragédia ou repeti-la. E nem sempre as nações fazem
a escolha correta.