Quantidade coletada é insuficiente para as necessidades hospitalares
Os malefícios provocados pela dengue, chikungunya e principalmente a zika têm sido amplamente difundidos pela mídia. Mas há ainda um efeito colateral que muita gente desconhece: a falta de sangue para doação. Isto porque o Ministério da Saúde preconiza que em caso de epidemia, não se pode fazer campanha de doação de sangue.
Conforme Rogério Cordeiro, médico responsável pela Unidade de Coleta e Transfusão (UCT) da Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Estado da Bahia (Hemoba) de Feira de Santana, a redução no número de doadores foi em torno de 35% na unidade. Isto porque, quando começou a epidemia de chikungunya, em 2014, a coordenação do Hemoba, em Salvador, determinou que a unidade de Feira está impedida, por tempo indeterminado, de realizar campanhas.
No entanto as doações podem continuar acontecendo. “A logística da campanha é diferente daqui da unidade, onde há mais tempo para se fazer uma triagem um pouco mais rigorosa, inclusive para a gente não deixar nenhuma dúvida, nenhuma suspeita de que a pessoa que está vindo doar esteja contaminada por zika, chikungunya ou dengue”.
Os destinos principais do sangue coletado na UCT de Feira são o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) e o Hospital Estadual da Criança (HEC). A necessidade em média é de 600 transfusões por mês e normalmente fica faltando um terço disto.
São cerca de 400 doações de sangue mensalmente. “Ficávamos com um déficit de 200 e fazíamos as campanhas externas para suprir”, destaca o médico. As campanhas ocorriam através de parcerias, em empresas, igrejas e na Uefs. O Hemoba também se deslocava para angariar doadores em cidades próximas, como Serrinha e Conceição do Coité, o que não é mais possível por causa da epidemia também nessas localidades.
O médico conta que apela para as outras unidades, inclusive o Hemocentro de Salvador, para não deixar faltar sangue. Conforme ele, a Hemorrede é solidária. Outra tática utilizada para tentar suprir esse déficit nas doações é fazer campanhas em cidades onde comprovadamente não haja situação epidêmica.
Também estão impedidas de fazer campanha as UCT’s de outras cidades onde há epidemia das doenças transmitidas pelo mosquito, como Vitória da Conquista, Alagoinhas e Ilhéus.
O grande perigo é que as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti podem demorar até sete dias para apresentar sintomas ou simplesmente não apresentar. Ou seja, o doador pode estar muito bem intencionado e não saber que está contaminado. “A gente ainda não sabe qual seria a chance de um vírus desse sobreviver a todo o processamento do sangue que nós fazemos depois que a pessoa doa, para poder ter a bolsa disponível para colocar nos pacientes que estejam precisando”, explica Cordeiro.
Os exames para diagnosticar essas doenças, especialmente o zika vírus, ainda são caros para serem feitos em larga escala, em todos os doadores.
Luna Guimarães Pereira, de quatro anos, internada no HEC com suspeita de aplasia medular, precisou de doação de sangue e plaquetas (células sanguíneas), que estavam em falta no Hemoba. Sua família fez então um apelo na internet com a foto da menina, que logo se espalhou. Resultado: Pensando em ajudar também outras crianças do hospital, conseguiram trazer num ônibus 35 voluntários de Conceição do Jacuípe, cidade onde mora Luna, e Amélia Rodrigues. Após fazerem a triagem, 21 dessas pessoas estavam aptas a doar sangue. “Se não fosse isso eu não seria um doador e não é preciso que aconteça isso com ninguém para ser”, confessa Davi Pereira da Silva, pai de Luna. Ele garante que aprendeu a lição e que, a partir de agora, doará sempre. “Inclusive o grupo que veio vai marcar uma reunião para continuarem doando”, ele conta.
“Salvar vidas”, essa é a importância do ato de doar sangue, para o DJ Kleber Vitória Filho, que é doador há 10 anos. “É uma sensação de prazer, sabendo que eu vou ajudar alguém”. Ele, que tinha acabado de fazer a boa ação, afirmou: “Estou me sentindo muito bem, sabendo que eu vou sair daqui e esse sangue com certeza vai ser doado para uma pessoa que está necessitando”. Ele repete o gesto quatro vezes por ano desde que atingiu a maioridade. É o máximo permitido ao homem, enquanto a mulher pode fazer até três doações no período.
Ex-doentes podem voltar a doar
A inaptidão para doar sangue para quem teve alguma das viroses transmitidas pelo Aedes aegypti é temporária. O Hemoba aceita doadores que tiveram zika 60 dias após cessados os sintomas. Quem teve chikungunya ou dengue poderá doar depois de seis meses.
O banco de sangue não funcionará nesta terça (09), e volta a funcionar na quarta-feira. O Hemoba está localizado ao lado da emergência do hospital Clériston Andrade.
Requisitos básicos para doação de sangue:
» Estar em boas condições de saúde;
» Ter entre 16 e 69 anos, desde que a primeira doação tenha sido feita até 60 anos (menores de 18 anos devem ter autorização do responsável legal);
» Pesar no mínimo 50 quilos;
» Estar descansado (ter dormido pelo menos seis horas nas últimas 24 horas);
» Estar alimentado (evitar alimentação gordurosa nas quatro horas que antecedem a doação);
» Apresentar documento oficial com foto.
Maiores informações podem ser obtidas através do telefone (75) 3221-6888 ou do e-mail [email protected].