Tenho horror a viagens, viajantes e seus relatos. Meus deslocamentos geográficos derivam de necessidades laborais. Estive recentemente na antiga capital de uma possessão colonial ultramarina, Salvador. Sentado numa mesa situada na área externa de um estabelecimento de venda de guloseimas, ouvi trechos dos diálogos de dois frequentadores. Eram dois mequetrefes empertigados e perfumados. Um deles disse, enquanto sorvia lentamente um líquido escuro de uma xícara esmaltada:
- Sinto falta daqueles tempos em que tudo aqui eram dunas brancas.
Ao ouvir aquilo, sacudi-me, como se ao meu lado tivesse silvado uma cascavel. Levantei-me. Olhei em redor. Não encontrei horizonte, vi apenas prédios altos.
Perguntei a mim mesmo: onde está a zona rural desta cidade? Para onde foram os coqueirais, os brejos, as pequenas propriedades? Em que momento Salvador cresceu tanto que conseguiu apagar a própria periferia rural? Como pode uma cidade devorar o campo sem sequer perceber que o devorou?
Voltei para Feira de Santana trazendo comigo essas perguntas. Talvez porque também aqui estejamos vivendo esse mesmo processo, apenas algumas décadas antes de seu desfecho. Durante muito tempo imaginei que as cidades simplesmente crescessem. Hoje suspeito que elas façam outra coisa. As cidades deslocam-se. Abandonam um lugar para ocupar outro. Não avançam como uma árvore que estende seus galhos. Avançam como um exército em marcha. O curioso é que todo exército deixa um campo devastado atrás de si.
Em Feira de Santana, a nova fronteira urbana parece mover-se continuamente em direção ao norte e ao leste. Condomínios multiplicam-se. Novas avenidas surgem. O mercado anuncia bairros que, poucos anos atrás, pertenciam ao mundo rural. A cidade parece respirar apenas para essa direção. Mas, atrás desse movimento, fica algo inquietante. Ficam bairros que lentamente perdem habitantes. Casas fechadas. Comércios esvaziados. Ruas onde a presença humana vai sendo substituída por portões enferrujados e placas de vende-se.
É como se a cidade produzisse desertos para poder continuar avançando. A fronteira cresce. Mas o interior se esvazia. O novo não substitui o antigo. Apenas o abandona. É justamente nessa linha móvel onde hoje se encontra a Matinha dos Pretos.
Há uma ironia quase cruel nisso. Durante mais de um século, aquele território permaneceu relativamente protegido porque estava longe da cidade. Hoje ele passa a correr perigo exatamente porque a cidade decidiu aproximar-se dele. A Matinha nasceu quando homens e mulheres negros transformaram a fuga em permanência. O que começou como abrigo converteu-se em território, memória e comunidade. A terra deixou de ser apenas chão; tornou-se uma forma de recordar.
Agora outra ocupação se aproxima. Muito mais silenciosa. Ela não chega com soldados. Chega com arquitetos. Não traz espingardas.Traz folders coloridos. Não expulsa,valoriza.E talvez essa seja a forma mais sofisticada de conquista já inventada pela civilização. Porque ninguém precisa arrancar um povo de sua terra quando consegue convencer esse povo de que a terra vale mais como mercadoria do que como herança. Há nisso uma tragédia discreta. A mesma cidade que abandona bairros inteiros continua procurando novos lugares para ocupar. Como se estivesse permanentemente insatisfeita consigo mesma. Como um animal incapaz de habitar o próprio corpo.
Talvez seja esse o destino de quase todas as grandes cidades: caminhar continuamente para a frente deixando, atrás de si, uma sucessão de vazios. Se isso acontecer, um dia a fronteira urbana alcançará definitivamente a Matinha.
E então talvez alguém, sentado na varanda de um condomínio recém-inaugurado, diga com a mesma melancolia daquele senhor de Salvador:
- Sinto falta do tempo em que tudo isso aqui era Matinha.
Mas já não haverá ninguém capaz de lhe contar o que realmente existiu ali. Porque algumas perdas não acontecem quando as árvores são derrubadas. Acontecem quando desaparece o último homem que ainda sabia seus nomes.