Mais de 15 mil pacientes renais em tratamento na Bahia correm
risco de terem seus atendimentos suspensos ou comprometidos, em função do déficit
da remuneração repassada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a unidades que
prestam o serviço. A crise se estende por todo o país.
Na semana passada, a DaVita, maior
rede de clínicas de diálise do Brasil, deu um ultimato aos governos estaduais e
ao Ministério da Saúde. A empresa informou que não renovará contratos com a
rede pública se os prejuízos que afirma ter com a terapia até outubro não forem
cobertos.
Aqui, os hospitais filantrópicos e unidades credenciadas ao SUS
vêm enfrentando sérios problemas, que colocam em risco a continuidade das vidas
dos doentes. De acordo com o Bahia Notícias, a Associação de Defesa dos
Pacientes Crônicos Renais (Renal Bahia) informou que o número de pessoas que
necessitam desta rede de atenção aumentou significativamente, em função da
Covid-19, o que só agrava o problema.
As causas, enfatiza a entidade, se devem tanto ao negligenciamento
dos tratamentos em curso antes da crise sanitária quanto aos efeitos colaterais
provocados pelo SARS-CoV-2, vírus causador da doença. “Tivemos um acréscimo de
46%, devido a sequelas da doença, no número de pacientes renais. Isso está
atingindo um público formado por pessoas novas, de 20, 25, 30, até 40 anos, e
não temos nenhum programa de prevenção para que não se chegue até esse
tratamento”, afirma José Vasconcelos, presidente da entidade, referindo-se à
terapia de diálise.
O gestor salienta, ainda, que o cenário é insustentável. Ele
destaca que as clínicas e unidades de saúde que prestam o serviço vivenciam sucessivos
aumentos no valor dos insumos. Além disso, a possibilidade de reajuste nas
folhas de pagamento dos profissionais de enfermagem também preocupa, já que não
há aumento na tabela do SUS.
A escassez de vagas no estado, segundo Vasconcelos, torna o
déficit cada vez maior. “Não tem vaga. Quem está em Unidade de Pronto
Atendimento (UPA) não tem como fazer a diálise. Muitas pessoas jovens vão
chegar a óbito pela falta de tratamento”, lamenta.
Conforme o presidente da Renal Bahia, os reflexos do impasse têm
sido sentidos fortemente. As ameaças de fechamento, por parte das empresas que
prestam serviço de hemodiálise no país, são cada vez mais recorrentes. O tempo
das sessões também foi reduzido, de 3 para 4 horas, em algumas unidades da
capital baiana e do interior. “Essa demanda está muito forte. Não temos nenhum
hospital de reserva para ser capacitado para esse tipo de atendimento”, frisa.
José Vasconcelos, que também é paciente renal transplantado,
destaca, ainda, que o déficit na rede de diálise tem levado cada vez mais
pacientes a ocupar leitos hospitalares clínicos e de terapia intensiva (UTI),
bem como vagas em UPAs.
De acordo com o Bahia Notícias, a Secretaria da Saúde do
Estado da Bahia (Sesab) não confirmou as informações. O órgão se limitou a
dizer que, no estado, o SUS conta com 42 Serviços de Atenção Especializada em
Nefrologia com Hemodiálise e que, nos últimos dez anos, o quantitativo foi
ampliado em 45%. “Importante ressaltar que cinco dos serviços em funcionamento
não estão, ainda, habilitados pelo Ministério da Saúde, sendo as suas ações
custeadas, exclusivamente, por fonte do tesouro estadual”, lembrou o órgão.
A pasta também salientou que, em comparação a 2012, houve um
aumento de 67% no número de sessões na Bahia. Conforme o órgão estadual, se, há
uma década, o quantitativo era de 775.270 sessões, entre julho de 2021 e junho
de 2022, o quadro foi de 1.160.260 sessões. “Estes números comprovam que, além
dos novos serviços que entraram em funcionamento, os serviços já existentes
ampliaram a sua capacidade instalada”, alegou.
A Sesab, no entanto, não mencionou que as ações de terapia renal
substitutiva-hemodiálise deixaram de ser oferecidas no Hospital Espanhol e no
Hospital São Rafael, importantes unidades privadas de Salvador. Recentemente, lembra
o Bahia Notícias, o Instituto de Nefrologia e Diálise (Ined) solicitou seu
descredenciamento do SUS. O processo tramita junto ao Ministério da Saúde.