Apesar de ser considerada crime eleitoral, a prática de
distribuir peças de publicidade eleitoral nas proximidades dos locais de
votação continua ocorrendo, a cada pleito, em todas as cidades brasileiras. O resultado
pós-votação é sempre o mesmo: ruas inundadas de “santinhos”. Em Feira de
Santana, os milhares de panfletos acumulados no chão, resultado da votação do
último domingo (2), vêm provocando acidentes.
Segundo o Acorda Cidade, a imensa quantidade de lixo que se
formou nas ruas, a partir da propaganda dos candidatos, vem incidindo no
aumento das ocorrências de quedas atendidas no Hospital Geral Clériston Andrade
(HGCA). Até mesmo casos de fraturas graves, provocadas por materiais de
campanha, vêm sendo registrados.
Ao site, o auxiliar administrativo Carlos Eduardo Melo de
Carvalho, de 39 anos, contou que se acidentou por causa dos santinhos
acumulados em frente ao Colégio Reitor Edgar Santos, no bairro Jomafa, onde ele
vota. “Ao chegar ao local de votação, percebi a grande quantidade de santinhos
espalhados pelo chão, de forma que cobriu completamente o meio-fio da entrada
da escola. Pisei em falso e tive uma torção muito forte no pé”, relatou.
Apesar da dor, ele disse que não desistiu de exercer o seu
direito ao voto. “Entrei no colégio com o pé machucado e sentindo muita dor.
Fui até a minha seção e exerci a minha cidadania, votei e fui para casa. As
dores pioraram. Cheguei a colocar uma compressa de gelo e tomei um remédio para
dor. Fui para o hospital, onde foi feito um raio-x, que constatou uma luxação e
uma pequena distensão no tendão”, disse, ao Acorda Cidade.
Carlos Eduardo precisou ter o pé imobilizado, ficando impedido
de trabalhar durante uma semana. “Ainda não estou conseguindo andar direito,
com dores e o pé inchado. Fica o aviso para que as pessoas tomem mais cuidado.
Vai ter o segundo turno e acredito que a quantidade de santinhos não será a
mesma, pois serão menos candidatos, mas, com certeza, ainda vai ter santinhos
pelo chão”, alertou.
Na opinião dele, a distribuição de santinhos nos colégios
eleitorais deveria ser proibida. “A minha opinião é que isso devia ser proibido.
Além de ser um crime eleitoral, a cidade fica suja, acontecem acidentes, como
aconteceu comigo, porque, quando cheguei ao hospital, tinha mais duas pessoas
que sofreram acidentes parecidos com o meu e estavam com os pés machucados, por
causa dos santinhos. As pessoas devem tomar muito cuidado, para que não
aconteça nenhum acidente”, aconselhou.
Ainda de acordo com o Acorda Cidade, ouvindo o relato de
Eduardo durante o programa de rádio que a emissora veicula diariamente, um
ouvinte ligou, informando que a cunhada havia quebrado o fêmur da mesma
maneira. A vítima escorregou em santinhos espalhados pelo chão. Outras pessoas
também ligaram para a rádio, a fim de informar que também se acidentaram nas
mesmas circunstâncias. Uma eleitora disse que caiu em frente ao Colégio Assis
Chateaubriand, machucando o ombro. “Ainda sinto muitas dores”, lamentou.
Em entrevista ao programa, o médico ortopedista Alexandre
Vieira Alves, coordenador da ala de Ortopedia do HGCA, informou que o aumento
no número de internamentos por quedas foi de, aproximadamente, 30%. A maioria
dos casos foi de pacientes idosos. “No final de semana, tivemos um aumento no
número de pacientes vítimas de queda. Inclusive, vários idosos internados com
fratura de fêmur, de várias idades, mas muitos que estão na emergência, hoje,
foram vítimas de queda”, disse.
O médico chamou a atenção para a necessidade de se minimizar
os riscos desse tipo de acidente. “Com o paciente idoso tem que haver um trabalho
de prevenção. Então, tudo que gera risco de queda tem que ser evitado. Já temos
um número grande de pacientes vítimas de queda, diariamente, mas eu percebi um
aumento de cerca de 30% na quantidade de idosos”, reiterou.
Para o especialista, aumento dos acidentes pode ter sido,
sim, ocasionado pelos santinhos acumulados nas ruas. “Eu acredito que a grande
quantidade de santinhos espalhados pela cidade durante as eleições podem ter
sido a causa desse aumento. Os santinhos, de qualquer forma, são lixo. E vi
muitos na rua, vários no asfalto e nas calçadas. Então, é mais um fator que
pode predispor aos acidentes. Os idosos sem um equilíbrio bom passam e
escorregam nesses papéis, misturados com alguma sujeira, lama, e isso pode propiciar
uma queda”, observou.
Ele salientou, ainda, que fraturas em idosos elevam o índice
de morbidade e mortalidade. “A fratura mais comum no idoso é a de rádio distal,
que a gente tem visto muito na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), de muitos
idosos que caem ou tropeçam. E a fratura do fêmur, que é o carro-chefe, é causada,
principalmente, por quedas. O risco de se ter esse material na rua é fazer com
que as pessoas escorreguem, além de ser lixo, que pode interferir na saúde
pública. Hoje, na era digital é inconcebível que ainda tenhamos essa quantidade
de lixo nas ruas”, ponderou.
Nos idosos as fraturas são mais graves e levam a
internamentos mais prolongados, gerando custo para o estado. Conforme Alexandre
Vieiras Alves, esse público é mais suscetível a quedas, assim como as crianças.
“Em casa os idosos têm que fazer de tudo para terem uma
segurança a mais, para evitar escorregões, então evitar qualquer tipo de lixo,
papel no chão, sempre tem que ter alguém olhando esses idosos, porque eles não
têm um equilíbrio satisfatório, então é preciso uma rede de apoio para esses
idosos para que eles não venham a cair, e os santinhos estarão ocasionando um
fator extra. Eu acredito que deva existir uma política de prevenção de
acidentes maior no município”, orientou.
Conforme o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), o candidato que
ordenar ou permitir o derramamento de materiais de campanha nas ruas estará
praticando propaganda irregular, sob pena de multa, além da apuração do crime,
conforme previsto na legislação eleitoral (Lei nº 9.504/1997).