A descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez, que
começou a ser julgada, de forma virtual, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na
madrugada do dia 22 de setembro, voltou a ser tema de debate público. Polêmico,
o assunto divide opiniões tanto entre grupos mais conservadores, que se opõem à
legalização, como é o caso dos evangélicos, quanto entre movimentos de esquerda
e mais progressistas.
De acordo com a Agência Brasil, a ministra Rosa Weber, relatora do processo no STF, votou, na última
sexta-feira (22), a favor de que a prática não seja considerada crime. O ministro
Luís Roberto Barroso, por sua vez, pediu vista, o que levou ao adiamento do
julgamento da questão. Agora, a proposta será levada ao plenário físico da
Suprema Corte, mas a data ainda não foi definida.
Hoje, 28 de setembro, Dia da Luta pela Descriminalização e
Legalização do Aborto na América Latina e Caribe será, uma vez mais, marcado
por manifestações em favor desta bandeira. A Frente de São Paulo contra a
Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, diz a Agência Brasil,
convocou partidos, movimentos e coletivos para ato unificado de defesa da
pauta. A concentração começa às 17h, no vão do Museu de Arte de São Paulo Assis
Chateaubriand (Masp).
O procedimento já foi legalizado em diversos países da
América Latina. O Uruguai, por exemplo, passou a permitir a prática, independentemente
da situação da gestante e da concepção, em 2012, quando o Brasil ainda decidia
se o aborto de anencéfalos era ou não crime. Na ocasião, o STF decidiu que não.
A Argentina, em 2020; o México, em 2021; e a Colômbia, em 2022, também decidiram seguir a recomendação
da Organização Mundial da Saúde (OMS) e descriminalizar o aborto. No
entendimento da entidade, a prática é um direito de todas as mulheres, sem
limite de idade gestacional. A recomendação é que se opte, preferencialmente, pelo
aborto medicamentoso, com misoprostol e mifepristona. Os remédios ainda são proibidos
no Brasil.
Ainda conforme a Agência Brasil, este mês, a pauta ganhou
destaque na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Isto porque a Câmara
Municipal de Santo André promulgou a Lei nº 10.702, proibindo que qualquer
órgão da administração local, direta ou indireta ou autarquia "incentive
ou promova a prática do aborto".
O Artigo 128 do Decreto-lei nº 2.848 ressalva, no entanto, que não
se pune o médico que executa o procedimento para salvar a gestante. Também não
será considerado ato médico criminoso se o aborto for realizado em casos de
estupro. No Brasil, o procedimento é considerado legal em casos de gestação
decorrente de violação, em situações de risco à vida da gestante e de anencefalia
fetal. A Lei nº 10.702 partiu de uma proposta do vereador Márcio Colombo
(PSDB).
Julgamento moral – À Agência Brasil, a ginecologista e obstetra Helena
Paro, afirmou que a postura de profissionais mais conservadores quanto ao
direito ao aborto em qualquer circunstância é um elemento que gera negligência
em consultórios e hospitais, estendendo-se até mesmo às pacientes que estão
respaldadas legalmente.
A médica, que trabalha, há cerca de seis anos, com aborto
legal, diz que a atividade devolveu a ela "o sentido da vida", uma
vez que se sente bem ajudando jovens vítimas de violência sexual.
Em termos de exemplificação, a profissional relatou o caso
real de uma paciente atendida por ela, há pouco. A moça engravidou após ser
vítima de estupro e, diz a médica, se tivesse mantido a gestação indesejada, veria
suas chances de concretizar o sonho de cursar arquitetura reduzidas a quase zero.
"O sofrimento maior é o do estigma e o de morrer na clandestinidade",
disse a ginecologista, que também atua como professora de Medicina e integrante
do Nuavidas, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia
(UFU), em Minas Gerais.
ESTADO
LAICO X Consciências religiosas – Helena Paro salienta que grupos contrários à
descriminalização do aborto pressionam quem é favorável e, no seu caso,
apresentam questionamentos a órgãos públicos. "A gente tem um Estado
laico, mas também uma cruz nas paredes dos salões das sedes dos Poderes", observa,
referindo-se à interferência do cristianismo na tomada de decisões legais e na
proposição das leis.
Para a médica, "o aborto que mata é o clandestino".
Conforme a Agência Brasil, a Pesquisa
Nacional de Aborto 2021 mostrou que cerca de 5 milhões de mulheres podem
ter feito abortos, em todo o país. A proporção é de que uma em cada sete já fez
o procedimento até os 40 anos de idade. Os dados revelam, ainda, que 81% delas
têm religião. Isto sugere que, mesmo com suas crenças, estas mulheres consideram
ser mais urgente resolver a gravidez por não desejarem dar à luz a uma criança
que não querem naquele momento.
O estudo indica, também, que muitas destas mulheres que
optaram por abortar têm religião de linha conservadora e, mesmo assim, decidiram
pelo procedimento, mesmo não compartilhando a decisão com outras pessoas. Os movimentos
que defendem a descriminalização entendem esta atitude como hipocrisia.
Perigos e barreiras – O aborto clandestino, na visão dos
movimentos feminista e mulherista, coloca as mulheres em situação de maior
vulnerabilidade. Por esta razão, defendem que a legalização é uma questão de
saúde pública. Isto porque, conforme a pesquisa nacional, 43% das mulheres
submetidas ao procedimento feito de forma ilegal, fatalmente, precisam ser
hospitalizadas, em seguida.
Sem a proteção legal, o que implica na improvisação e na falta
de assistência médica adequada, os riscos de morte ao realizar um aborto crescem
sobremaneira. Segundo a Agência Brasil, neste cenário, a maioria das mulheres é
negra.
O mais recente levantamento oficial do país revela que, entre
2012 e 2021, 64% das mulheres que evoluíram a óbito após tentarem um “aborto não
especificado”, como são denominados os procedimentos clandestinos, tinham esse
perfil. De 2012 a 2019, mais de 192 mil mulheres foram internadas após abortos
não especificados ou depois de tentativas que deram errado.
Conforme a Agência Brasil, na avaliação da advogada Letícia
Vella, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, se a mentalidade do país
fosse outra, o acesso seria mais fácil até para quem tem, atualmente, direito a
fazer um aborto. "As barreiras são inúmeras", destacou.
Entre os obstáculos, ela citou os poucos serviços que
oferecem consultas para que se chegue à possibilidade de realização do
procedimento; a objeção de consciência por parte dos profissionais; o limite de
idade gestacional; a autorização judicial, quando não é necessária; e a desconfiança
lançada sobre a palavra das mulheres.
Além disso, a jurista citou tentativas de verificação da
compatibilidade da idade gestacional com a época do estupro e a desconsideração
de doenças crônicas.