Revólveres
calibres 22 e 32, espingardas, às vezes até pistolas artesanais. Não faltavam armas
enferrujadas. Os mais equipados iam de revólveres calibre 38 e escopetas
calibre 12. Fuzis e metralhadoras era raros. Quando apareciam, era em assaltos
a bancos ou a carros-fortes. Até meados dos anos 1990, era mais ou menos esse o
arsenal da bandidagem na Bahia. Não faltava armamento, mas pouco sofisticado.
Em
centenas de coberturas jornalísticas que fiz, era esse o armamento mencionado
nas matérias, fotografados para ilustrar as reportagens. Rifles e fuzis
sofisticados restringiam-se às metrópoles como São Paulo ou, principalmente, o
Rio de Janeiro. Mesmo em Salvador armamento pesado era mais comum entre
assaltantes de banco. O tráfico de entorpecentes recorria aos revólveres, às
escopetas.
De
lá para cá, o crime foi se armando como nunca se viu. Na virada do século,
surgiram as facções no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador.
Houve quem achasse que esses grupos ficariam restritos aos cárceres, não alcançariam
as ruas. Engano: na segunda metade da década de 2000, começaram a imprimir sua
marca no tráfico, nos assaltos, consolidando a criminalidade como poder paralelo.
Organizados,
os criminosos estruturaram-se em moldes empresariais. O acesso ampliado às
drogas e aos armamentos, importados clandestinamente, combinado ao controle
territorial sobre bolsões de pobreza, tornaram as facções no que elas são hoje
Brasil afora. Temperando tudo, a corrupção, em suas múltiplas dimensões.
Para
entornar de vez o caldo da violência, veio o “liberou geral” do acesso às armas
no desgoverno de Jair Bolsonaro, o “mito”. Com dinheiro no bolso, qualquer um
podia adquirir muitas armas. Os famigerados CAC – Colecionadores, Atiradores
Desportistas e Caçadores – tornaram-se o canal mais corriqueiro de acesso às
armas pelo crime organizado.
Vira
e mexe pipoca a notícia de que um desses CAC repassou o arsenal para uma facção
qualquer. O modus operandi é justamente
esse: o “laranja” é o intermediário na jogada, adquirindo as armas que, em
seguida, são repassadas para os verdadeiros compradores. A fiscalização
deficiente, também no desgoverno do “mito”, somou-se ao descalabro.
Sensatamente,
o governo Lula restringiu o acesso a armamentos no começo do seu governo. Mas a
“bancada da bala” – encorpada no Congresso Nacional – move-se agora para tentar
revogar muitas restrições. Em suma, descontente com toda essa matança, a turma
quer mais.
Talvez seja só uma manobra
para desviar a atenção das enchentes no Rio Grande do Sul, que os colocou na
defensiva. Mas podem, também, estar aproveitando o momento para “passar a
boiada”. Ou as duas coisas. O fato é que a manobra cheira a pólvora. E morte.