Foi na sexta-feira. Ele chegou ao restaurante
junto com os primeiros clientes. Ficou por ali, pela calçada, esperando
qualquer oferta. Tinha porte médio, pelos claros que começavam a ficar
encardidos. O que o distinguia dos demais cães de rua era uma garbosa
gravatinha azul.
- Esse cachorro tinha dono. Ainda está com uma
gravata – Lamentou o dono do restaurante, sem muita coragem para tangê-lo.
Não era apenas a gravata que o distinguia. Também
tinha modos delicados, de animal que conheceu o aconchego de um lar. Estendia a
pata, era dócil e tranquilo. As asperezas da vida na rua, a exposição aos maus-tratos
ainda não o tinham marcado em definitivo.
Só os pelos longos é que estavam manchados de
poeira e de lama. Infelizmente, conheço pouco do mundo canino e de suas raças.
Ignoro, portanto, qual era a sua raça, mas é dessas que fazem sucesso nos dias
atuais.
Fiquei pensando na dor do animal perdido – talvez
abandonado – exposto à rotina de maus-tratos das ruas, de violência. Pensei,
também, nos donos, que, talvez, estejam desesperados à sua procura. Quem sabe
se não há uma criança chorando sua perda? E ele vagando pela Boticário
Moncorvo, pela Comandante Almiro...
Um sujeito, condoído, depositou na calçada as
sobras do seu almoço. O cãozinho seguiu-o, dócil, a cauda balançado. Comeu e
ficou atento às mesas em volta, aquela oferta fora insuficiente para matar sua
fome.
Matutava sobre o triste destino do cachorro da
gravatinha azul. Mais um animal infeliz perdido pelas ruas da Feira de Santana.
Aquele tivera lar, alimento, carinho e atenções. Mas muitos outros – quantos
serão? – vagam pelas ruas da cidade, em sofridas marchas e contramarchas. Integram
matilhas, tornam-se hostis quando se sentem ameaçados.
Nem sei como terminar o texto. É costume cobrar do poder público, exigir soluções, inclusive, para os problemas que afligem animais domésticos. Mas a realidade desanima. Gente é morta a torto e a direito pela Feira de Santana e há quem comemore com efusão. Como cobrar atenção ou cuidado para um cão perdido pelas ruas feirenses, com sua gravatinha azul?