O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais sete acusados de participação em uma tentativa de golpe de Estado, afirmou, ao abrir o julgamento do caso, nesta terça-feira (2), que todos os réus serão julgados de forma imparcial, como quaisquer cidadãos. O magistrado também enfatizou que o Supremo Tribunal Federal (STF) não vai ceder a qualquer tipo de pressão, seja interna ou externa.
Antes de iniciar a leitura do relatório, primeiro passo do julgamento, Moraes disse, em seu
discurso de abertura, que os imputados foram submetidos ao devido processo
legal, com ampla defesa e oportunidade de contraditório.
Conforme o ministro, havendo provas
de que os mesmos são culpados, serão condenados. No entanto, destacou que, se
houver “qualquer dúvida razoável” sobre a autoria dos crimes, serão absolvidos.
“Assim se faz Justiça”, observou.
Alexandre de Moraes assegurou, ainda, que o papel do Supremo
Tribunal Federal é “julgar com imparcialidade e aplicar a Justiça a cada um dos
casos concretos, independentemente de ameaças ou coação, ignorando pressões
internas ou externas”.
Sem citar diretamente o nome do deputado licenciado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que vem atuando, de
forma aberta, em prol de sanções do governo dos Estados Unidos contra ministros
do STF e outras autoridades brasileiras, em razão do julgamento de seu pai, Moraes mencionou “condutas dolosas e conscientes”,
que, de forma “covarde e traiçoeira”, tentam submeter o Poder Judiciário
brasileiro “ao crivo de Estado estrangeiro”.
O magistrado assegurou que “essa tentativa de obstrução não
afetará a imparcialidade e a independência dos juízes” do STF. E fez uma defesa
da soberania nacional, destacando que a mesma será defendida pelos ministros da
Suprema Corte, de forma “inflexível”.
Conforme o ministro, a história do Supremo Tribunal Federal “demonstra
que jamais faltou ou jamais faltará coragem aos seus membros para repudiar as
agressões dos inimigos da soberania nacional, da democracia, do Estado de
Direito ou da independência do Poder Judiciário”.
Desde o mês de julho, com a proximidade do desfecho da ação
penal contra o núcleo principal da trama golpista, o presidente Donald Trump vem impondo tarifas abusivas, da ordem
de 50%, sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos.
Citando diretamente o caso Bolsonaro, com quem Trump possui
afinidades ideológicas, a Casa Branca revogou vistos de ministros do STF e de
seus familiares, bem como enquadrou Moraes na Lei Magntisky, que prevê sanções econômicas contra violadores
de direitos humanos.
Segundo aliados de Bolsonaro, a expectativa é que uma
eventual condenação do ex-presidente irá provocar a imposição de novas sanções
de Trump contra autoridades brasileiras. Bolsonaristas vêm condicionando um
recuo da Casa Branca à aprovação de uma anistia ampla aos réus da tentativa de
golpe.
Polarização – Alexandre
de Moraes falou sobre a polarização política do país e os conflitos que isso
ocasiona, mas lembrou que a desejada pacificação somente virá com a observância
das leis e da Constituição, nunca pela covardia e impunidade. “A pacificação do país, que é o
desejo de todos nós, depende do respeito à Constituição, da aplicação das leis
e do fortalecimento das instituições nacionais, não havendo a possibilidade de
se confundir a necessária pacificação com a covardia do apaziguamento”,
advertiu.
O relator também destacou que a impunidade, além de não
trazer a pacificação, cria traumas e corrói a democracia. "A história nos
ensina que a impunidade, a omissão e a covardia não são opções para a
pacificação, pois o caminho aparentemente mais fácil – e só aparentemente –,
que é o da impunidade, deixa cicatrizes traumáticas na sociedade e corrói a
democracia, como lamentavelmente o passado recente no Brasil demonstra",
disse.
O julgamento de Bolsonaro e de mais sete de seus aliados, por
uma tentativa de golpe de Estado e mais quatro crimes, começou nesta terça-feira, com a leitura de um resumo do caso pelo
ministro Alexandre de Morares.
Todos foram acusados pela Procuradoria-Geral da República
(PGR) de cometer os seguintes crimes: liderar ou integrar organização criminosa
armada; atentar violentamente contra o Estado Democrático de Direito; golpe de
Estado; dano qualificado por violência e grave ameaça; e deterioração de
patrimônio tombado. Somadas, as penas podem ultrapassar 40 anos de prisão.
A análise do caso ocorre na sala de audiências da Primeira
Turma do STF, em Brasília, e está sendo transmitida ao vivo, pela TV e Rádio
Justiça e pelo canal oficial do STF no YouTube.
*Com informações da
Agência Brasil.