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  • Feira de Santana, tera, 13 de janeiro de 2026

Welligton Freire

Irã: Fim da Revolução e o Começo do Caos

13 de Janeiro de 2026 | 15h 36
Irã:  Fim da Revolução e o Começo do Caos
Protestos no Irã- Foto BBC

Uma cena surpreendente emergiu da mais recente onda de protestos no Irã: a publicação, nas redes sociais, de vídeos do príncipe herdeiro da antiga dinastia real. Reza Pahlevi, filho do último Xá – título do monarca que governou o país antes da Revolução Islâmica de 1979 –, surgiu em uma série de gravações posicionando-se como um líder da revolução no exílio. Seu apelo é direto: convoca a população a persistir na insurreição até a derrubada completa do regime teocrático. O paralelo histórico é irônico e cheio de significado. Há menos de meio século, era um líder religioso carismático, o Aiatolá Khomeini, quem, do exílio na França, dirigia uma campanha implacável contra o Xá Reza Pahlevi, culminando na fuga do monarca e na instauração da República Islâmica. Agora, testemunhamos um processo de erosão dessa mesma revolução, enquanto um Pahlevi, do exílio, tenta reivindicar o papel de símbolo máximo da alternativa ao regime. A história, parece, não se repete, mas ecoa de forma perturbadora, abrindo espaço para a remota, porém publicamente evocada, possibilidade de restauração de dinastias depostas.

A história recente do Oriente Médio demonstra que a queda de regimes autoritários fortemente centralizados, sobretudo aqueles sustentados por estruturas militares ideologizadas, tende a produzir mais instabilidade do que democratização. No Iraque, a deposição de Saddam Hussein em 2003, conduzida pela intervenção anglo-americana e pela dissolução deliberada do Exército e do Partido Baath, resultou na desarticulação completa do aparato estatal, criando um vácuo de poder explorado por milícias sectárias, pela Al-Qaeda no Iraque e, posteriormente, pelo Estado Islâmico. A ausência de um plano de estabilização pós-conflito e a lógica da de-Baathificação transformaram uma derrota militar rápida em um conflito assimétrico prolongado, cujos efeitos ainda se fazem sentir duas décadas depois.

Na Líbia, a derrubada de Muammar Kadafi em 2011, no contexto das chamadas Primaveras Árabes e sob cobertura aérea da OTAN, seguiu trajetória semelhante. A eliminação do líder não foi acompanhada da preservação de instituições coercitivas nacionais, o que levou à fragmentação do monopólio da força, com o surgimento de governos paralelos, milícias tribais e grupos jihadistas. O país converteu-se em um espaço de guerra por procuração, envolvendo potências regionais e globais, evidenciando os limites da doutrina de “intervenção humanitária” quando dissociada de um projeto político-institucional de longo prazo. A Síria oferece um modelo distinto, porém igualmente revelador. A partir de 2011, o regime de Bashar al-Assad optou pela militarização total da crise, sustentando-se por meio da lealdade das Forças Armadas, do apoio de milícias aliadas e da intervenção direta da Rússia e do Irã. O resultado foi a preservação formal do Estado, mas ao custo de uma soberania fraturada, com áreas controladas por atores externos e não estatais. Trata-se de um exemplo clássico de conflito híbrido e congelado, no qual a sobrevivência do regime não corresponde à restauração da ordem nacional.

O Irã reúne elementos dos três casos, mas em escala mais complexa. Diferentemente do Iraque de 2003, o país não enfrenta uma intervenção externa direta; contudo, como na Líbia, observa-se uma erosão interna da legitimidade do regime. Ao mesmo tempo, à semelhança da Síria, Teerã mantém um aparato militar altamente politizado, em especial a Guarda Revolucionária Islâmica, treinado em doutrinas de guerra assimétrica, repressão interna e projeção regional. Essa capacidade reduz a probabilidade de colapso imediato, mas aumenta o risco de um processo prolongado de desgaste, com ciclos de repressão, insurgência difusa e radicalização. Dessa forma, a hipótese mais plausível não é a de uma transição ordenada nem a de uma restauração monárquica clássica, mas a de uma crise prolongada de autoridade, capaz de comprometer a coesão do Estado iraniano e desestabilizar os equilíbrios regionais. Tal cenário reforça a tese de que o Irã pode tornar-se mais um epicentro da crise da Nova Ordem Internacional, na qual regimes colapsam ou sobrevivem de forma disfuncional, enquanto o sistema internacional revela-se incapaz de administrar transições, conter guerras internas ou evitar a disseminação do caos para além das fronteiras nacionais.

Portanto, o discurso do príncipe Pahlevi é menos uma solução e mais um indicador da magnitude da crise de sucessão política que se abre no Irã. A revolução islâmica, como projeto geracional e ideológico, mostra sinais de exaustão. No entanto, as instituições coercitivas que ela criou são robustas e têm interesses vitais a defender. A hipótese de uma transição pacífica para uma monarquia constitucional ou uma república democrática parece remota face à história militar recente da região. O diagnóstico aponta para um longo inverno de turbulência. A alternativa mais realista não está entre a república islâmica e a monarquia, mas entre diferentes graus de desordem controlada e colapso violento. O regime pode se manter, cada vez mais autoritário e menos ideológico, em um estado de conflito latente com sua própria população. Ou pode rachar, desencadeando uma luta pelo poder dentro do establishment que abriria as portas para uma desintegração tipo líbia, porém em uma escala geopolítica infinitamente mais perigosa. A comunidade internacional, fracturada e sem consenso, mostra-se incapaz de gerir tais transições, como a história recente prova. O mundo pode, mais uma vez, ser pego de surpresa por um terremoto geopolítico no Irã, limitando-se a reagir aos destroços, em vez de moldar um resultado estável. O regresso do Xá, como ideia, é um espelho das aspirações de ruptura de muitos iranianos. Mas o espectro que verdadeiramente ronda o Irã e a região é o do vazio de poder e da guerra multifacetada, heranças malditas das transições traumáticas no Oriente Médio do século XXI.

A crise iraniana não se anuncia como revolução redentora nem como simples continuidade autoritária, mas como um interregno perigoso, no qual o velho perdeu sua legitimidade e o novo é incapaz de nascer. Nesses momentos, a história ensina, não triunfam projetos, mas forças. O retorno simbólico de um Pahlevi não é sinal de restauração, mas de esgotamento: quando o passado é convocado como futuro, é porque o presente entrou em colapso. O verdadeiro espectro que ronda o Irã não é o da monarquia nem o da república islâmica, mas o da dissolução do poder político como princípio ordenador. E quando o poder se fragmenta em sociedades armadas, a violência deixa de ser exceção e se converte em método. O Oriente Médio do século XXI já conhece bem esse roteiro, e o sistema internacional, mais uma vez, parece condenado a assistir à tragédia sem coro, sem catarse e sem saída.



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