Vencida a fase inicial de circulação de informações fragmentárias e, em muitos casos, deliberadamente imprecisas sobre a operação conduzida em território venezuelano, alguns elementos tornam-se inequívocos à luz de uma análise estritamente militar. A ação empreendida pelas forças armadas dos Estados Unidos não configurou uma invasão convencional destinada a destruir, de forma sistemática, a capacidade militar do adversário. Tratou-se, antes, de uma incursão de alta precisão (um raid clássico de extração de alvo de alto valor) cujo objetivo tático central era a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa. O emprego de meios aéreos, amplamente explorado nas imagens que circularam nas redes e na mídia internacional, não teve como finalidade a aniquilação da força inimiga, mas a neutralização seletiva de sistemas de defesa, postos de comando e frações capazes de interferir na liberdade de ação da força de assalto. O efeito buscado não foi estratégico no sentido clássico, mas operacional e imediato: desorganizar temporariamente o dispositivo defensivo adversário para viabilizar a captura do alvo designado. Assim, o raid americano na Venezuela tinha por objetivo não a destruição do dispositivo militar adversário, mas a extração de um alvo político de altíssimo valor, mediante uma ação breve, precisa e profundamente dependente da surpresa.
A Operação Absolute Resolve (a captura de Nicolás Maduro) evidencia o papel singular que unidades de forças especiais de elite desempenham quando grandes potências empregam a força militar não para dominar um teatro inteiro, mas para decapitar um centro de poder adversário em um pacote mínimo de tempo e exposição. No centro dessa operação esteve a cargo da Delta Force, cuja missão foi penetrar profundamente no complexo fortificado de Fuerte Tiuna, superar a guarda presidencial venezuelana e conduzir a detenção física de Nicolás Maduro e de sua esposa. Esse tipo de ação, caracterizado por infiltração aérea rápida, precisão tática e engenharia meticulosa de inteligência, distingue-se de operações convencionais pelo emprego de treinamento intensivo, dados de inteligência de altíssima fidelidade e coordenação com apoio aéreo e guerra eletrônica, que permitiram às equipes de Delta reduzir o tempo de exposição no objetivo a poucas dezenas de minutos e sair com sucesso mesmo diante de resistência adversária organizada. O êxito da ação, que incluiu elementos de suppression of enemy air defenses e neutralização de comunicações antes da inserção terrestre, ressalta como raids de extração modernos dependem tanto da superioridade tecnológica e da integração conjunta quanto da capacidade única de forçascomo o Delta Force de traduzir planos audaciosos em resultados táticos concretos, um traço que revelou-se um componente chave da projeção de poder das principais potências.
Considerada em perspectiva histórica, a operação conduzida na Venezuela insere-se em uma linhagem bem definida de ações de comando empregadas por grandes potências como instrumento de projeção de poder seletiva, nas quais a vitória não se mede pela ocupação territorial nem pela destruição maciça do inimigo, mas pela obtenção de um efeito político-estratégico imediato. De Entebbe (resgate de reféns, em 1976), onde a audácia compensou a distância e o isolamento operacional; passando por Neptune Spear ( o assasinato de Osama Bin Laden), em que a paciência estratégica e a supremacia da inteligência permitiram a eliminação de um alvo simbólico global; até Gothic Serpent ( a fracassada ofensiva na Somália em 1993), cujo desfecho revelou os limites e riscos inerentes a esse tipo de missão quando o controle do ambiente tático se perde, observa-se um denominador comum: o raid é sempre uma aposta calculada na surpresa, na velocidade e na superioridade qualitativa das forças empregadas.
A Operação Absolute
Resolve reafirma essa lógica ao demonstrar que, mesmo em
um cenário saturado de sensores, mídia instantânea e reações diplomáticas em
tempo real, unidades de elite como o Delta
Force continuam a oferecer às lideranças políticas uma opção militar
intermediária, mais incisiva que a
dissuasão retórica, menos custosa que a guerra aberta. Assim, o raid de extração permanece não como
anomalia, mas como ferramenta recorrente do arsenal estratégico das potências,
eficaz quando bem planejada, arriscada por definição, e profundamente
reveladora da forma contemporânea de fazer a guerra.
O que se viu na Venezuela, de um ponto de vista militar, foi uma demonstração de capacidade de
poder seletivo.