A catarse, compreendida como a libertação emocional por ação
exaustiva, ascende atualmente à categoria de condição essencial para a
sobrevivência psicológica e social. No atual momento — marcado pelo excesso de estímulos,
sobreposição de demandas e polarizações agudas —, a voracidade das
hiperconexões tende a entorpecer as emoções, deslocando-a para reações de baixo padrão qualitativo. O sentir isolado
é insuficiente; é imperativo que os sentimentos encontrem uma via de escoamento
e reorganização.
Longe de ser uma fuga, a catarse opera como o motor de
expiação das pressões cotidianas e dos limites que nos aprisionam. Ela serve
como um espaço de atravessamento entre a dor, o desejo e conforto espiritual.
Ao permitir que a tensão contida seja drenada, ela alivia temores e descomprime
a raiva, produzindo um êxtase renovador. Para Aristóteles a catarse é um
processo de purificação da alma por meio da vivência de intensas emoções diante
de uma manifestação artística.
A catarse é a resposta a energias acumuladas, excesso de exposição, medidas extemporâneas de sucesso e
realização. Ela destrava o corpo, clarifica conflitos e produz alívio — ainda
que efêmero. O ato catártico agrupa indivíduos que compartilham
vulnerabilidades e vivem sob o peso da
existência. A pressão por desempenho no
trabalho, a autoexploração, e a
fragilidade das relações amorosas, sociais e familiares exige ciclos de
descompressão para transformar a frustração em mudança consciente e menos reativa.
Quando ela não ocorre, frequentemente se expressa em atos violentos ou
dependências.
Na estética contemporânea, essa necessidade é evidente.
Estádios foram convertidos em “arenas”; biografias, em narrativas de luta. A
música permutou a raiva por cadência. Aliás, a própria estrutura da música foi
alterada: os grandes sucessos exigem coreografias rituais, introduções rápidas
da melodia e harmonias em tons menores, com letras propositalmente
simplificadas para facilitar o estado de descarga e “cura” coletiva. Já novelas
e filmes passaram a ser construídos com cenas curtas e fugazes.
Os caminhos para alívio são múltiplos: do esporte com rigor
e da dança à excessos terapêuticos; das conversões religiosas ao sexo serial,
que se tornou um falso exemplo de autonomia e liberdade. Em casos limítrofes,
até o uso de substâncias ilícitas. Contudo, a catarse não é uma panaceia. Ela
exige repetição, pois não soluciona as raízes do sofrimento, ainda que amplie o
fôlego necessário para suportá-las.
Em última análise, a catarse converteu-se em necessidade
biológica e mental. Sua onipresença atesta a fragilidade de uma sociedade
aprisionada em modelos existenciais sobre os quais não tem domínio. Ela é,
simultaneamente, um mecanismo de defesa e o diagnóstico de que perdemos a
capacidade de contemplação, permitindo que o externo dite o ritmo de nossa
própria vida interior — um processo pelo qual estamos pagando um preço caro.