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Wellington Freire

Supremacia ou submissão: o retorno da guerra pelo alto

Wellington Freire - 21 de Fevereiro de 2026 | 09h 55
Supremacia ou submissão: o retorno da guerra pelo alto
Imagem: Força Aérea Brasileira - Sgt. Muller Marin

Há diagnósticos que valem mais pelo que silenciam do que pelo que dizem. Ao reconhecer que o Brasil não dispõe de defesa antiaérea capaz de produzir dissuasão credível diante de uma potência tecnológica - conforme divulgado ontem pelo jornal folha de São Paulo -,   as Forças Armadas tocaram no nervo exposto da estratégia contemporânea: quem controla o ar controla o teatro de operações  e, cada vez mais, controla também o ritmo político da crise.

A guerra moderna deixou de ser, há décadas, uma disputa primariamente territorial. Desde a Guerra do Golfo, consolidou-se um paradigma: a supremacia aérea precede, molda e muitas vezes substitui o combate terrestre. Em 1991, a campanha contra o Iraque demonstrou que sistemas integrados de ataque aéreo, mísseis de precisão e domínio eletrônico podem paralisar um Estado antes mesmo que suas forças terrestres entrem em choque decisivo. O campo de batalha tornou-se tridimensional e invisível.

Essa transformação não foi episódica. Ela se aprofundou nas intervenções do início do século XXI e reapareceu com contornos dramáticos na Guerra Russo-Ucraniana. Mesmo num conflito de alta intensidade e larga escala terrestre, o controle do espaço aéreo, ou sua negação eficaz, tem sido determinante. Drones, mísseis de longo alcance, guerra eletrônica e satélites redefiniram o conceito de frente. Hoje, cidades e infraestruturas estratégicas são vulneráveis não apenas ao avanço de colunas blindadas, mas a enxames autônomos e vetores lançados a centenas de quilômetros de distância.

No plano teórico, nada disso surpreenderia o autor de Da Guerra. Clausewitz advertia que a guerra é um fenômeno em permanente mutação, condicionado pela técnica e pela política. O que mudou foi o meio; o princípio permanece: a superioridade decisiva no ponto crucial. No século XXI, esse ponto crucial deslocou-se para o domínio do ar, do espectro eletromagnético e do espaço orbital.

O Brasil, entretanto, continua a pensar defesa com forte ênfase territorial. Nossa tradição estratégica, compreensível à luz da história, privilegia a vigilância de fronteiras terrestres, a presença dissuasória em áreas sensíveis e a integridade do território continental. Esse modelo foi funcional em um ambiente regional relativamente estável, no qual a hipótese de conflito interestatal convencional era remota. Mas ele revela seus limites quando o fator aéreo e tecnológico passa a ser o elemento estruturante do poder militar.

Não se trata de imaginar cenários fantasiosos de invasão. Trata-se de reconhecer que, sem uma rede robusta de defesa antiaérea e antimíssil, qualquer país de dimensões continentais permanece estruturalmente vulnerável a coerções rápidas, ataques de precisão ou demonstrações de força que alterem o cálculo político interno. A dissuasão moderna não exige apenas tropas; exige sensores, radares de longo alcance, integração de dados, interoperabilidade e capacidade de negação do espaço aéreo.

Além disso, a supremacia dos céus já não é apenas aérea. Ela é cibernética e orbital. Sistemas de comando e controle dependem de satélites; comunicações militares e civis compartilham infraestruturas; redes elétricas e aeroportos são alvos potenciais em qualquer escalada. A defesa aérea clássica, canhões, baterias e caças interceptadores, é apenas um fragmento de um ecossistema mais amplo que inclui guerra eletrônica, proteção cibernética e inteligência artificial aplicada ao monitoramento contínuo.

Nesse contexto, o Brasil enfrenta um dilema silencioso. Continuar a investir majoritariamente em presença física territorial pode produzir sensação de controle, mas não necessariamente gera dissuasão credível. A história recente demonstra que a capacidade de projetar poder pelo ar redefine a assimetria entre potências. Um Estado que não pode negar seu próprio espaço aéreo depende, em última instância, da ausência de intenção hostil por parte de outros.

A vulnerabilidade aérea não é apenas uma lacuna técnica; é uma questão de soberania estratégica. Se o século XIX foi o século das marinhas e o XX o das forças mecanizadas, o XXI é o da integração aeroespacial e informacional. Ignorar essa mutação equivale a preparar-se para a guerra passada, para lutar uma guerra anterior.

O debate que se impõe, portanto, não é sobre militarização ou belicismo. É sobre atualização estratégica. Um país continental, com responsabilidades regionais e ambições globais moderadas, precisa ao menos de uma dissuasão mínima capaz de elevar o custo de qualquer aventura externa. Caso contrário, continuará prisioneiro de uma concepção territorial da defesa em um mundo onde o poder já se exerce de cima  e de além da atmosfera.

Em guerra, ensina Clausewitz, a defesa é a forma mais forte de combate. Mas só é forte quando acompanha a transformação dos meios. No nosso tempo, defender-se começa pelo céu.



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