Poemas de Fabrício Oliveira
Destino
Abrem a porta
e encontram apenas a escuridão.
Há rostos que o sol não ilumina.
RASGA-MORTALHA
Ainda há pouco, uma flor nasceu no lajedo.
Meu pai me tomou pelas mãos, fui com ele.
Alucinação.
O canto da rasga-mortalha apaga o passado.
Sinto um frio se enrolar nos ossos.
Os dentes do irmão mais novo
(que dorme no colo) rangem
um gemido abafado. As mãozinhas ingênuas
(dormindo postadas) tateiam o peito murcho.
O leite que sai arrasta consigo
a sombra azeda da casa, da tarde e da alma.
A alma: um prego enferrujado sobre a mesa.
Vagando cego pelo continente,
o vento inventa o caminho de casa
e leva nos braços o corpo do filho morto.
FÁBULA DO DESTINO
Um novelo de luz
entrelaça as mãos de Oxóssi
e desperta mil atabaques.
(Há mãos risonhas e beijos antigos
acariciados pelo ritmo
do coração dos pássaros).
Há mãos risonhas e beijos antigos
emoldurando o silêncio das árvores
às margens do Rio Paraguaçu
que aprende, lentamente,
o sotaque dos meus passos.
Minha voz alarga as margens do tempo.
Enquanto minha mãe chora
torcendo nossas roupas,
seu coração se abre em catedrais
para acolher minha ausência.
REFLUXO
Acordo cansado como se tivesse morrido ontem
e ouço facas gestando num beco escuro.
Abro a janela.
Espreguiço, bocejo.
Eis a cena: o vento se perde nas vielas de meu mundo
onde o mar, de cócoras,
regurgita a memória dos afogados.