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  • Feira de Santana, domingo, 22 de fevereiro de 2026

Cultura

Quatro poemas de Fabrício Oliveira

22 de Fevereiro de 2026 | 07h 08
Quatro poemas de Fabrício Oliveira

Poemas de Fabrício Oliveira



Destino


Abrem a porta

e encontram apenas a escuridão.

Há rostos que o sol não ilumina.




RASGA-MORTALHA


Ainda há pouco, uma flor nasceu no lajedo. 

Meu pai me tomou pelas mãos, fui com ele.


Alucinação.


 O canto da rasga-mortalha apaga o passado. 

Sinto um frio se enrolar nos ossos.

 Os dentes do irmão mais novo

 (que dorme no colo) rangem

 um gemido abafado.  As mãozinhas ingênuas

 (dormindo postadas) tateiam o peito murcho. 

O leite que sai arrasta consigo

 a sombra azeda da casa, da tarde e da alma.


A alma: um prego enferrujado sobre a mesa.


Vagando cego pelo continente, 

o vento inventa o caminho de casa

 e leva nos braços o corpo do filho morto.



FÁBULA DO DESTINO


Um novelo de luz

 entrelaça as mãos de Oxóssi

 e desperta mil atabaques.


(Há mãos risonhas e beijos antigos

 acariciados pelo ritmo

 do coração dos pássaros).


Há mãos risonhas e beijos antigos

 emoldurando o silêncio das árvores

 às margens do Rio Paraguaçu

 que aprende, lentamente,

 o sotaque dos meus passos.


Minha voz alarga as margens do tempo.


Enquanto minha mãe chora

 torcendo nossas roupas,

 seu coração se abre em catedrais

 para acolher minha ausência.



REFLUXO


Acordo cansado como se tivesse morrido ontem

 e ouço facas gestando num beco escuro.


Abro a janela. 

Espreguiço, bocejo. 

Eis a cena: o vento se perde nas vielas de meu mundo

 onde o mar, de cócoras,

 regurgita a memória dos afogados.




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