Há uma imagem persistente que atravessa a história das cidades: o muro. As grandes urbes da Antiguidade, Babilônia, Nínive, Jerusalém, Troia, não eram apenas centros de poder, comércio ou culto. Eram, antes de tudo, espaços cercados, delimitados, protegidos. O muro não era um detalhe arquitetônico: era a própria condição de possibilidade da cidade. Dentro, o mundo humano, previsível, normatizado, habitável. Fora, o que escapa, o que ameaça, o que não se deixa domesticar.
Na tradição épica, essa verdade aparece transfigurada. Na Ilíada, Zeus é chamado de “destruidor de muralhas”. Não é apenas o deus da guerra ou do trovão: é aquele que dissolve fronteiras, que desfaz a separação fundamental entre ordem e desordem. Derrubar uma muralha não é apenas vencer um inimigo; é expor o humano ao indeterminado, reabrir a cidade ao abismo que ela tenta esquecer.
Pois, para os antigos, o exterior nunca era neutro. Nos mitos cosmogônicos do Oriente Próximo, o mundo nasce de um gesto violento de contenção. Em tradições como o Enuma Elish, a criação não elimina o caos, apenas o empurra para fora, o mantém à distância, como uma ameaça latente. A cidade murada, nesse sentido, não é apenas uma defesa militar. É um ato ontológico: um gesto de separação entre o ser e aquilo que poderia desfazê-lo.
Talvez seja por isso que a paisagem urbana contemporânea nos inquieta de modo tão profundo. Em cidades como Feira de Santana, multiplicam-se os condomínios fechados, cercados por muros altos, cercas elétricas, sistemas de vigilância. Pequenas cidades dentro da cidade, organizadas em torno de um princípio silencioso: separar, filtrar, excluir. A explicação imediata parece suficiente, a violência difusa, a insegurança cotidiana, o medo sem rosto. Mas essa explicação, embora verdadeira, não é suficiente.
O que está em curso é mais profundo: uma reconfiguração simbólica do espaço urbano. Cada muro erguido reinscreve, no presente, uma lógica arcaica. De um lado, o interior protegido, regulado, inteligível. De outro, um exterior progressivamente percebido como instável, imprevisível, ameaçador. Não muito diferente daquele antigo imaginário em que, além das fronteiras, começava o domínio do caos.
Mas há uma diferença decisiva e talvez trágica. Para os antigos, o caos estava fora porque o mundo ainda era, em grande medida, desconhecido. Hoje, o “fora” não é o deserto, nem o território inexplorado. É a própria cidade. É o espaço comum. É o outro.
E, mais inquietante ainda, esse caos não é apenas real: ele é produzido. Não apenas pelas condições materiais da violência, mas pelo modo como passamos a imaginar o mundo. O medo, aqui, não é só resposta é também construção. E o muro, longe de ser apenas proteção, torna-se um instrumento de amplificação simbólica.
Quanto mais nos cercamos, mais o exterior se torna opaco. Quanto mais o isolamos, mais ele se torna ameaçador. E quanto mais ameaçador ele parece, mais necessários se tornam os muros. Forma-se, assim, um circuito fechado, quase perfeito, em que a tentativa de proteção alimenta exatamente aquilo de que pretende nos proteger.
É nesse ponto que a imagem se radicaliza e talvez revele seu núcleo mais sombrio. Porque o muro, ao separar, não apenas organiza o espaço: ele reorganiza a percepção do real. Ele cria um mundo em que o fora deixa de ser apenas diferente e passa a ser ontologicamente suspeito. Um mundo em que o outro já não é apenas outro, mas potencial portador do caos.
No limite, o que se ergue não é apenas uma barreira física, mas uma metafísica da separação.E então o gesto, aparentemente banal, de fechar-se em um condomínio revela sua dimensão mais profunda: não é apenas um ato de autopreservação, mas uma tentativa silenciosa de restaurar uma ordem primordial, de recriar uma fronteira entre o cosmos e o abismo. Como se, ao erguer muros, pudéssemos refazer o antigo gesto cosmogônico — conter, mais uma vez, aquilo que ameaça dissolver o mundo.
Mas há algo de irônico e talvez de trágico nesse movimento. Porque, ao contrário dos antigos, já não sabemos onde termina o caos. Ele não está apenas do lado de fora. Ele infiltra-se nas percepções, nas narrativas, nas formas de convivência. Ele se instala na própria estrutura do medo.
E, assim, o muro começa a falhar em sua função mais profunda. Não porque não proteja, ele protege, sim, corpos e bens, mas porque já não consegue cumprir aquilo que prometia simbolicamente: separar, de modo claro, a ordem da desordem. O que resta, então, é uma arquitetura da inquietação.Vivemos cercados e, ainda assim, expostos. Protegidos e, ao mesmo tempo, sitiados por aquilo que ajudamos a produzir. Como se cada muro erguido fosse, no fundo, o reconhecimento silencioso de que já não confiamos na própria ideia de mundo comum.Talvez este seja o ponto mais extremo, quase insuportável. dessa lógica: quando os muros deixam de ser resposta ao caos e passam a ser sua forma mais sofisticada de existência. Não mais fora, mas inscrito no próprio desenho das cidades.Não mais como ameaça distante, mas como princípio organizador da vida.E então já não são as muralhas que protegem a cidade. É o medo que passa a habitá-la.