Há uma fotografia recorrente em quase todas as guerras contemporâneas. Não mostra tanques avançando nem soldados assaltando trincheiras. Mostra apartamentos sem fachadas, escolas reduzidas a escombros, ruas transformadas em corredores de concreto quebrado. A imagem tornou-se tão comum que já quase não a percebemos. No entanto, ela revela uma das transformações mais profundas da arte da guerra: cada vez mais, vence-se não apenas destruindo exércitos, mas destruindo os lugares onde as pessoas vivem.
A ideia não é nova. Na verdade, é tão antiga quanto a própria guerra. Quando os romanos destruíram Cartago em 146 a.C., não se limitaram a derrotar um adversário militar. Procuraram apagar as condições materiais que tornavam possível a existência daquela potência rival. A cidade foi arrasada, suas muralhas derrubadas, sua infraestrutura destruída. A mensagem era clara: algumas vitórias só parecem completas quando deixam para trás um vazio. Durante séculos, porém, a destruição de cidades foi frequentemente consequência da guerra. Hoje, em muitos casos, ela se tornou um de seus objetivos.
Na campanha do general William Tecumseh Sherman através da Geórgia, durante a Guerra Civil Americana, consolidou-se uma nova lógica. Sherman compreendeu que não bastava derrotar os exércitos confederados. Era necessário destruir ferrovias, depósitos, colheitas e centros logísticos. O alvo já não era apenas o soldado inimigo, mas a estrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando. Sua famosa Marcha para o Mar inaugurou uma forma moderna de guerra contra a infraestrutura.
O século XX ampliou essa tendência até limites antes impensáveis. Dresden, Hamburgo, Coventry, Tóquio. A guerra industrial transformou cidades inteiras em alvos legítimos. A distinção clássica entre combatente e não combatente começou a dissolver-se sob as bombas. O raciocínio era brutal, mas simples: destruir a capacidade produtiva, administrativa e psicológica do inimigo seria um caminho mais rápido para a vitória.
Após 1945, muitos acreditaram que o horror da Segunda Guerra Mundial teria estabelecido limites mais rígidos. O desenvolvimento do direito internacional humanitário parecia apontar nessa direção. Entretanto, a história seguiu outro caminho.
Grozny, na Chechênia, foi praticamente pulverizada pelas forças russas. Aleppo, na Síria, tornou-se símbolo da devastação urbana do século XXI. Mariupol sofreu destino semelhante durante a guerra na Ucrânia. Gaza e partes do sul do Líbano apresentam hoje paisagens que recordam as ruínas das cidades europeias de 1945.
Em todos esses casos, observa-se um padrão recorrente. A destruição da infraestrutura não aparece apenas como dano colateral. Ela passa a integrar a lógica operacional. Casas deixam de ser apenas casas. Estradas deixam de ser apenas estradas. Hospitais, sistemas elétricos, redes de abastecimento e centros de comunicação passam a ser vistos como elementos de uma arquitetura militar ampliada. O objetivo não é apenas matar. É tornar impossível a vida normal.
Existe uma dimensão profundamente estratégica nisso. Populações deslocadas geram pressão política. Cidades destruídas dificultam o abastecimento de forças adversárias. A ruína física produz desgaste psicológico. A infraestrutura converte-se em um centro de gravidade militar tão importante quanto divisões blindadas ou baterias de artilharia.
Mas há também uma dimensão moral que não pode ser ignorada. Quando uma casa é destruída, perde-se mais do que um edifício. Perde-se um espaço de memória. Fotografias desaparecem sob os escombros. Livros queimam. Objetos herdados de gerações anteriores são reduzidos a pó. Cada parede derrubada representa uma pequena derrota da permanência humana diante da violência.
Talvez seja por isso que as ruínas provoquem fascínio e desconforto ao mesmo tempo. Elas nos lembram que a guerra não destrói apenas exércitos. Destrói biografias. Ao contemplarmos as imagens que chegam diariamente de Gaza, Mariupol ou do sul do Líbano, somos levados a uma conclusão inquietante. Apesar de todos os avanços tecnológicos, apesar dos discursos sobre armas inteligentes e ataques de precisão, continuamos muito próximos da velha lógica de Cartago.
Mudaram os mísseis. Mudaram os uniformes. Mudaram os discursos. Mas permanece a antiga convicção de que, para vencer uma guerra, às vezes é preciso destruir o lugar onde alguém chama de lar.