Há alguns dias, relendo Dom Quixote, detive-me numa passagem aparentemente simples. Depois de ser espancado em uma de suas primeiras aventuras, o cavaleiro da Mancha é encontrado por um lavrador vizinho. O homem tenta ajudá-lo, mas Dom Quixote já não fala como Alonso Quijano. Sua fala é composta por fragmentos de romances de cavalaria. Ele responde ao camponês utilizando as mesmas palavras de personagens que conhecera nos livros.
O vizinho tenta trazê-lo de volta à realidade:
– Eu sou Pedro Alonso, seu vizinho. E Vossa Mercê não é
Rodrigo de Narváez nem Valdovinos. É o senhor Quijana.
A resposta de Dom Quixote é uma das mais extraordinárias de
toda a literatura:
— Quem eu sou, sei eu. E sei que posso ser não só os que já
disse, senão todos os doze pares de França e até todos os nove da fama.
A frase parece loucura. Mas talvez contenha algo mais.
Ao lê-la, ocorreu-me uma pergunta incômoda: e se Dom Quixote
estivesse realizando, de forma desastrosa, a mesma operação mental que
caracteriza o escritor?
Afinal, o que faz um romancista? Ele lê histórias, absorve
personagens, incorpora vozes alheias e, depois, transforma tudo isso em
narrativa. Nenhum escritor cria do nada. Toda literatura nasce de outras
literaturas. Todo autor é, em alguma medida, um herdeiro e um reorganizador de
vozes. Dom Quixote faz exatamente isso.
Ele absorveu tantos romances de cavalaria que passou a
enxergar o mundo através deles. Sua linguagem tornou-se uma colagem de
discursos herdados.
Sua identidade passou a ser composta por personagens literários. Ele já não
fala apenas sobre cavaleiros; fala como eles.
O problema é que existe uma diferença fundamental entre o
escritor e o cavaleiro da Mancha. O escritor transforma imaginação em texto.
Dom Quixote transforma imaginação em realidade. O romancista cria gigantes no
papel. Dom Quixote pega moinhos de vento e os converte em gigantes reais. O
poeta sabe que está operando no campo do símbolo. O cavaleiro manchego tenta
transportar o símbolo para o mundo concreto.
Talvez seja por isso que a fronteira entre genialidade
criativa e delírio sempre tenha sido tão fascinante. Ambas as experiências
partem da mesma faculdade humana: a imaginação. O que muda é a existência,
ou ausência, de uma mediação estética.
Fernando Pessoa multiplicou-se em heterônimos. Criou
personalidades inteiras, com biografias, estilos e visões de mundo próprias.
Ninguém o chamou de louco por isso. Arthur Rimbaud escreveu que “eu é um
outro”. Também não foi internado por tal afirmação. Ambos converteram a
fragmentação do eu em literatura.
Dom Quixote faz o movimento contrário. Em vez de escrever a
ficção, decide habitá-la. É por isso que a sua famosa loucura parece, em certos
momentos, tão próxima da criação artística. Quando ele afirma “posso ser todos
eles”, está reivindicando algo que pertence ao território da arte: a capacidade
de assumir múltiplas identidades. O escritor pode ser simultaneamente rei e
mendigo, herói e traidor, criança e ancião. Sua consciência torna-se uma morada
para muitas vidas. Dom Quixote deseja exatamente isso. Mas não dentro de um
livro, dentro do mundo.
Talvez Cervantes tenha percebido algo que continua atual
quatro séculos depois. Nossa identidade não é uma estrutura rígida. Somos
feitos de narrativas, memórias, leituras, exemplos e vozes que acumulamos ao
longo da existência. Em alguma medida, todos carregamos personagens dentro de
nós.
A diferença é que a maioria sabe que eles são personagens.
Dom Quixote esquece essa distinção. Por isso sua figura continua tão poderosa.
Ele não é apenas um louco ridicularizado por Cervantes. É também uma reflexão
profunda sobre o poder das histórias. Afinal, os livros não apenas descrevem o
mundo. Eles moldam a forma como o percebemos.
Talvez a tragédia de Alonso Quijano tenha sido esta: possuía
a imaginação de um escritor, mas escolheu utilizá-la como protagonista. Em vez
de escrever um romance de cavalaria, decidiu viver dentro dele.
E assim se tornou uma personagem muito maior do que qualquer cavaleiro que havia lido.
*Nota: a citação que fiz foi extraída de: Cervantes, Miguel de. ‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’. Tradução de Conde Visconde de Castilho. São Paulo: Martin Claret, 2016. p. 91.