A Biblioteca Digital Outran Borges, que está hospedada no
site da Academia Feirense de Letras (AFL), disponibiliza, ao público, vários
artigos sobre Feira de Santana. O acesso aos textos é gratuito.
Como aperitivo aos leitores, publicamos aqui Os tropeiros feirenses, de autoria do
acadêmico Alpiniano Reis Oliveira Filho, escritor que ocupa a Cadeira 18, cujo
patrono é Antônio Augusto da Silva Garcia.
No texto, Alpiniano Filho resgata a memória dos tropeiros,
homens que, com a ajuda de tropas de animais, ajudaram a transportar
mercadorias, encurtar caminhos, movimentar a economia e ligar Feira de Santana
a outras localidades baianas. Leiam o artigo a seguir! E outras obras do acervo
do acervo podem ser baixadas AQUI.
Os tropeiros feirenses
Quem hoje trafega na Avenida Getúlio Vargas, no trecho entre
as ruas Barão de Cotegipe e Castro Alves, dificilmente imagina que, na década
de trinta do século passado, ali existiu o fabrico de bebidas Leão do Norte
que, inclusive, denominou a região por muito tempo. Essa área, que serviu de
apoio de parte de cerca dos duzentos animais utilizados no serviço de
transporte de carga de mercadorias, pertencia ao senhor Waldemiro Falcão
Mascarenhas, conhecido como Seu Dudu, irmão do comerciante João Marinho Falcão,
sendo ele, em Feira de Santana, um dos prestadores de serviços como
proprietário de tropas.
Daquele tempo, muito bem recorda Ioiô Mascarenhas, um dos
filhos de Seu Dudu que, quando criança, acompanhava a labuta do pai em
entendimento com os proprietários de armazéns e lojas da cidade, para acertar o
transporte das mercadorias vendidas para as localidades distantes ou mesmo o
transporte entre a Estação Ferroviária e os estabelecimentos comerciais
de Feira de Santana.
Muitas cidades da região não gozavam do benefício do serviço
de trem. A escassa frota de veículos motorizados na época exigia que, sobre o
lombo de burros, fossem transportados os mais diversos gêneros de alimentos,
ferramentas, tecidos, fumo, querosene e outros, e cada animal era carregado com
até cento e oitenta quilos de mercadorias. Os serviços eram contratados quando
se formava um volume de mercadoria para determinado destino e que justificasse
a tropa formada, em média, de vinte animais; além desses, dez ou doze
“fagueiros” que viajavam sem carga, colocados como reserva para substituição
dos que cansassem durante a viagem.
Sempre formando quatro ou cinco filas, com cinco ou seis
animais, tinha-se o cuidado de colocar os mais novos ao centro da tropa, para
aprenderem com os mais velhos. Para evitar que se desviassem da trilha ou
comessem na beira da estrada alguma erva venenosa, eram amarrados pelo cabresto
por uma corda de três a quatro metros de extensão presa à cangalha do animal da
frente. Muitas vezes, sendo animais de boa linha, era dispensado o uso da
“madrinha da tropa”, que era um animal colocado à frente do cortejo, trazendo
chocalhos presos ao peitoral.
A resistência dos muares observada em serviço, assim como a
renovação do plantel com bons animais, era condição importante para a formação
da tropa, que exigia investimentos por custarem mais caros.
A tropa tinha a coordenação de um Mestre Tropeiro, geralmente
de extrema confiança, responsável por conduzir e entregar a mercadoria no
destino, ficando muitas vezes encarregado de receber parte dos valores pagos
pelas mercadorias ou pelo transporte. Auxiliando na condução, mais três ou
quatro homens ajudavam na tarefa de carga e descarga durante a viagem.
Do final da década de cinquenta, uma cena permanece viva em
minha memória. Findava a tarde de um dia meio de semana quando uma algazarra,
com gritos e assobios vindos da rua, quebrou o rotineiro silêncio e avivou a
curiosidade infantil dos meus sete para oito anos. A uma distância de uns
trinta metros da porta da nossa casa na Rua Marechal Deodoro, pude ver a
passagem de uma tropa. Lembro-me de uma porção de cavalos empoeirados correndo
em ritmo cadenciado ao som característico, vindo da batida das ferraduras
contra o calçamento feito de pedras extraídas do leito do rio, conhecidas como
joelho de burro. No final da rua, ficava o armazém de fumo de propriedade de
seu Bartolomeu Santos, sendo frequente o ir-e-vir dos tropeiros para fazer
entrega, deixando na passagem um forte cheiro de tabaco no ar.
Da minha infância também recordo de um aro de ferro com uns
quinze centímetros de diâmetro, preso ao pé do meio-fio da calçada do fabrico
de bebidas de seu Chico do Morro, vizinho a nossa casa. Meus irmãos mais velhos
afirmam terem existido várias argolas desse tipo destinadas a amarrar os
animais das tropas enquanto era feita a entrega de jurubeba, fruta usada para
fazer vinho.
Contrariamente ao costume dos tropeiros do sul e do sudeste
brasileiro, por conta do clima quente da região de Feira de Santana, nossos
tropeiros aproveitavam o frescor do turno da noite para as suas atividades, em
razão de os animais apresentarem melhor rendimento durante a marcha, por vezes
impraticável sob o sol forte do dia. A jornada, que se iniciava geralmente às
dezessete horas, estendia-se até por volta das quatro da manhã, quando chegava
a um ponto de parada ou mesmo ao local de destino. Muitas cidades da região
tiveram suas origens em pequenas estalagens e pontos de vendas de produtos de
necessidades, como alimentos, cachaça, querosene, fósforos, velas e outros
produtos para atender aos viajantes tropeiros durante as paradas. Nesses
locais, geralmente com boa disponibilidade de água e pastagem, os animais
eram descarregados e lavados. Ficavam soltos durante o dia, e as
cangalhas e suadores, a fim de secar o suor dos animais, eram pendurados
nas galhas das árvores até a hora de retomada dos serviços.
Trabalhando à noite e folgando durante o dia, os tropeiros
levavam notícias da cidade, motivando rodas de prosas regadas por uma boa
cachaça e comida sertaneja. Era o contrário da rotina de muitos trabalhadores e
pais de família, que geralmente saíam pela manhã para seus afazeres na roça e
deixavam suas filhas em casa e estariam assim completando o lazer dos
tropeiros. Embora de rápida duração a permanência deles nos lugarejos, era
comum aparecerem filhos tomando bênção aos pais viajantes.
Feita a entrega, era hora de retornar porque certamente novas
mercadorias aguardavam para serem transportadas. Para vender na cidade, os
tropeiros compravam e traziam da região cargas de carvão, fumo, feijão, frutas,
lenha e varas de candeia que tinham uma utilidade muito grande na construção
das cercas dos quintais e no levante de casas de taipa. Caso surgisse alguma
viagem extra no meio do caminho que não retardasse muito o retorno, eles
aceitavam a tarefa e na chegada prestavam conta ao dono da tropa repassando,
além do anteriormente combinado, parte do valor recebido. Muitas vezes, pela
honestidade do tropeiro em dizer o que fizera, o patrão deixava até de
receber sua parte que ficava então como um ganho extra.
Como em todo negócio sempre existe um grau de
dificuldade, com a tropa não era diferente. O atraso no retorno, muito
reclamado pelo patrão porque já havia assumido compromissos de novas entregas
com os comerciantes, era justificado pelo tropeiro como sendo devido à chuva,
que tornava o “chão pesado” dificultando as passadas dos animais. Também era
comum, com a aproximação de alguma égua ou jumenta no cio, acontecer os animais
se soltarem e correrem adentrando pelo mato atrás das fêmeas. Era uma exigência
para um bom animal de tropa, que ele não fosse castrado, reconhecido assim como
um animal inteiro. Em caso de problema devido a picada de cobra durante a noite
ou de algum cair por cansaço do peso da carga, a substituição levava o tropeiro
a descarregar um animal para carregar outro. O trabalho que exigia, no mínimo,
três pessoas para um carregamento demandava tempo, por ter-se que equilibrar o
peso – por exemplo, de um saco de açúcar de sessenta quilos – para evitar
“virar” a cangalha sobre o lombo do burro.
A cangalha era construída artesanalmente por duas forquilhas
interligadas e feitas em madeira comum na região, como aroeira, vinhático,
jaqueira, pau-ferro, entre outras. Usada sobre o lombo do animal, era presa por
uma tira de corda de sisal ou couro chamada cinta, que se passava sob a barriga.
Para evitar que a carga corresse para trás, também era presa por uma corda de
sisal ou couro chamada peitoral, passada por baixo do pescoço. O movimento da
carga para frente era contido pela rabicheira passada por sob a cauda do
animal.
Nas andanças pelas estradas, era necessário que os cascos das
patas estivessem protegidos por ferraduras, o que nem sempre evitava que fossem
feridos, deixando o animal manco; também contribuíam para escorregamentos na
passagem sobre os lajedos, resultando muitas vezes em quedas. Para evitar ferir
o animal devido ao uso da cangalha, fazia-se uso do colchonete ou “suador”
feito de molhos de junco seco, colhidos nas lagoas da região e costurados com
cordas de sisal ou corda extraída das cascas secas do tronco da bananeira.
Usava-se, também, a taboa e a lã da barriguda como enchimento revestido de
tecido grosso de algodão. No retorno das viagens, os animais chegavam com o
pelo grudado por poeira e suor, eram então tratados, além do banho, a escova do
pelo, a apara dos cascos, feito a facão e marreta, tendo-se o cuidado de não
feri-los, mais o corte da crina e cauda.
Na saída para uma jornada, os tropeiros, além dos
mantimentos, recebiam do patrão um pacote contendo munição para as espingardas,
charutos, vinho de jurubeba, fósforos e um pouco de querosene para o candeeiro
a ser utilizado caso necessitassem vistoriar alguma coisa no escuro da noite.
Também não faltava o “abre-dia”, isto é, uns cinco a seis litros de cachaça,
trazida em um pequeno barril chamado de carote, e que era visto como um pequeno
agrado do patrão por seus bons serviços, e quase sempre humildemente
expressavam: “Vosmecê não esquece da gente”!
Se fossem passar muitos dias viajando, recomendavam ao patrão
para que atendesse suas “muiés” nas necessidades da família, com dinheiro ou
comida para não passarem fome. Uma forma de retribuir o agrado recebido, era
trazer uma novidade para o patrão, como frutas, maxixe, abóbora, milho verde e
aipim; também a informação de um animal bom de trabalho de que se tinha conhecimento
na região, a fim de que fosse comprado para a renovação do plantel.
A árdua tarefa dos tropeiros complicava-se também durante o
inverno que os obrigava a troca da viagem ao longo da noite para durante o dia.
Da chuva e do frio se protegiam com as capas conhecidas como colonial, feitas
de um grosso tecido de lã quase impermeável e, na cabeça, evitando o capuz da
própria capa para não esquentar, preferiam um chapéu de couro tratado com sebo
de boi, que impedia encharcar com a molhação.
De pouca ou nenhuma instrução e limitada possibilidade de
melhorar de vida, os tropeiros muitas vezes se inveteravam na bebida,
tornando-se um problema para o proprietário da tropa, ao ter que encontrar
entre os empregados existentes ou mesmo vindos de fora, outros para
substituí-los. Às vezes até por óbitos, que, na época, eram comuns acidentes de
queda de cavalo por embriaguez ou por coice dos animais.
Reconhecendo a valorosa importância de tantos como Manuel,
João, Lino, Sérgio e outros bravos tropeiros, homens que contribuíram nos
primórdios com a economia de Feira de Santana, o Poder Público Municipal
prestou uma justa homenagem, coma construção de um monumento erigido na praça
em frente ao Centro de Abastecimento, por isso denominada Praça do Tropeiro.
*O feirense Alpiniano Reis de
Oliveira Filho é engenheiro civil, pós-graduado em Gestão Empresarial pela Uefs.
Em 1982, ingressou como Engenheiro na Embasa, onde foi: gerente do Escritório
Regional de Feira de Santana; gerente regional de Serrinha; gerente da Divisão
Operacional de Feira de Santana, por duas vezes; gerente da Unidade
de Negócios de Feira de Santana. Atualmente aposentado, tem dedicado seu tempo
à atividade de dirigente de entidades sociais. Escritor, é membro da Academia
Feirense de Letras (tesoureiro gestão 2019/2020).