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Wellington Freire

O Ártico é o Novo Oriente Médio?

20 de Junho de 2026 | 15h 46
O Ártico é o Novo Oriente Médio?
Créditos: Foto do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA pelo cabo Christian Salazar

Durante boa parte do século XX, bastava olhar para o Golfo Pérsico para compreender a direção da política mundial. Os grandes conflitos, as alianças militares, as disputas energéticas e as crises diplomáticas pareciam convergir para aquela estreita faixa de mar entre a Península Arábica e o Irã. O petróleo transformou uma região periférica em centro gravitacional da geopolítica global.

Mas a História possui o hábito de deslocar seus eixos. Enquanto o olhar do mundo permanece voltado para a Ucrânia, Taiwan ou o Oriente Médio, um movimento silencioso ocorre nas latitudes extremas do planeta. Rússia, OTAN, Estados Unidos e, em menor medida, China, voltam suas atenções para o Ártico. Novas bases são construídas. Tropas são deslocadas. Exercícios militares multiplicam-se. Satélites vigiam regiões que, há poucas décadas, eram vistas apenas como desertos de gelo.

A pergunta, portanto, deixa de parecer extravagante: estaria o século XXI transferindo seu centro estratégico para o extremo norte?

A hipótese merece ser considerada. O Ártico concentra uma combinação rara de fatores geopolíticos. Há reservas expressivas de petróleo e gás natural ainda pouco exploradas. Há jazidas de minerais estratégicos indispensáveis para a indústria tecnológica contemporânea. Há recursos pesqueiros valiosos. E, sobretudo, há algo que sempre moveu os impérios: rotas.

Durante séculos, a geografia impôs limites severos à navegação polar. O gelo funcionava como uma muralha natural. Contudo, o aquecimento global vem alterando essa realidade. À medida que as calotas recuam, corredores marítimos antes inacessíveis tornam-se navegáveis por períodos cada vez maiores do ano.

Quem controlar essas rotas controlará parte significativa do comércio do futuro. A História oferece precedentes eloquentes. Veneza floresceu porque dominou os caminhos do Mediterrâneo oriental. Portugal tornou-se potência ao abrir as rotas oceânicas do Atlântico. O Império Britânico ergueu-se sobre o controle dos estreitos e mares que ligavam continentes. Em todos esses casos, a prosperidade derivou da capacidade de controlar fluxos.

O Ártico pode estar prestes a tornar-se um novo espaço de circulação global.

Não surpreende, portanto, que a Rússia esteja investindo pesadamente na região. Para Moscou, o Ártico não é apenas uma fronteira distante; é uma dimensão fundamental de sua segurança nacional. A maior parte da costa ártica pertence ao território russo. Seus submarinos nucleares operam ali. Seus recursos energéticos dependem daquela área. O Kremlin enxerga o norte como uma extensão natural de seu poder.

A reação da OTAN segue uma lógica igualmente previsível. A entrada da Finlândia e da Suécia na aliança alterou profundamente o equilíbrio estratégico do norte europeu. O que antes era uma região relativamente estável tornou-se uma nova linha de contato entre forças militares rivais.

Há, entretanto, uma ironia histórica nessa transformação. O interesse pelo Ártico nasce, em parte, de um fenômeno que ameaça a própria estabilidade do planeta. O derretimento das geleiras, frequentemente apresentado como uma tragédia ambiental, converte-se simultaneamente em oportunidade econômica e militar. O gelo recua e os exércitos avançam.

Talvez este seja o aspecto mais revelador da questão. A geopolítica raramente tolera vazios. Quando uma nova fronteira se abre, os Estados logo se apressam em ocupá-la. Foi assim nas Américas do século XVI. Foi assim na África do século XIX. Foi assim no espaço durante a Guerra Fria. E pode estar acontecendo novamente no Ártico.

Não sabemos se o extremo norte substituirá o Oriente Médio como principal palco das disputas internacionais. A História dificilmente opera por substituições tão simples. Mas há sinais claros de que uma nova centralidade está emergindo. O mapa estratégico do século XXI está sendo redesenhado diante de nossos olhos.

E, talvez, o futuro da política mundial esteja menos sob o sol escaldante dos desertos árabes e mais sob as luzes silenciosas da aurora boreal.



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