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  • Feira de Santana, quarta, 01 de julho de 2026

Wellington Freire

As guerras são vencidas duas vezes: primeiro no campo de batalha, depois na memória

01 de Julho de 2026 | 12h 48
As guerras são vencidas duas vezes: primeiro no campo de batalha, depois na memória
Creditos: Smithsonian Institute

Há uma ilusão persistente de que as guerras terminam quando cessam os tiros. Não terminam. O silêncio das armas apenas inaugura outra disputa, muitas vezes mais longa, mais profunda e mais decisiva: a batalha pela memória. É nela que se define quem será lembrado como herói, quem carregará para sempre a marca do criminoso, quais episódios serão exaltados e quais serão cuidadosamente esquecidos. Uma guerra só se completa quando uma narrativa consegue transformar um acontecimento em memória coletiva. A História está repleta de exemplos. O campo de batalha produz mortos; a memória produz sentidos.

Recentemente, uma reportagem chamou a atenção para uma gravura produzida poucas semanas após o chamado Massacre de Boston, em 1770. A imagem mostrava soldados britânicos disparando friamente contra colonos americanos indefesos, em uma composição cuidadosamente planejada para despertar indignação. Mais tarde, investigações demonstrariam que os acontecimentos haviam sido muito mais complexos do que aquela representação sugeria. Mas isso já não importava. A gravura havia cumprido sua missão: moldar a forma como gerações inteiras compreenderiam aquele episódio.

Essa talvez seja uma das maiores lições da história militar: os fatos não chegam até nós em estado bruto. Eles atravessam discursos, imagens, monumentos, livros escolares, filmes, discursos políticos e comemorações nacionais. O passado não é apenas lembrado; ele é continuamente reconstruído. Toda sociedade escolhe aquilo que deseja recordar. E, inevitavelmente, também escolhe aquilo que prefere esquecer.

Por isso, nenhuma guerra é apenas um confronto entre exércitos. Ela é também uma disputa entre versões. Enquanto soldados ocupam cidades, cronistas ocupam consciências. Enquanto generais planejam campanhas, artistas, jornalistas e escritores começam a definir qual será o significado daqueles combates para o futuro.

Talvez seja por isso que os vencedores sempre tenham se preocupado tanto com monumentos, memoriais e celebrações. Não basta conquistar territórios. É preciso conquistar a interpretação da conquista.

Na Antiguidade, Homero fez isso ao transformar a Guerra de Troia em epopeia. Roma fez o mesmo quando Virgílio converteu derrotas, sofrimentos e conquistas em fundamento simbólico de um império. Ao longo dos séculos, impérios, revoluções e nações compreenderam que a permanência de uma vitória depende menos da força das armas do que da força das narrativas.

Vivemos, entretanto, uma época em que essa segunda guerra se tornou ainda mais veloz. Se antes uma gravura levava semanas para circular, hoje uma fotografia, um vídeo de poucos segundos ou uma postagem nas redes sociais atravessam continentes em minutos. A batalha pela memória começa enquanto a batalha militar ainda está em andamento.

Nunca produzimos tantas imagens. Nunca disputamos tanto o significado delas. É por isso que guerras contemporâneas são travadas simultaneamente em trincheiras, satélites, redações, estúdios de televisão e plataformas digitais. A vitória militar continua importante, mas já não basta. Quem perde o controle da narrativa frequentemente descobre que pode vencer no terreno e, ainda assim, ser derrotado na história.

No fim, as armas decidem quem permanece de pé. A memória decide quem permanecerá de pé diante das gerações futuras. E essa costuma ser a vitória mais duradoura.

* Nota: Para aprofundar o tema do Massacre de Boston - episódio fundamental para compreender o imaginário da independência norte-americana - sugiro: ELLIS, Joseph.  A Causa. A revolução Americana e suas Divergências. LVM Editora, 2025



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