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  • Feira de Santana, segunda, 29 de junho de 2026

Wellington Freire

Quando a guerra começa antes de ser declarada

Wellington Freire - 29 de Junho de 2026 | 15h 43
Quando a guerra começa antes de ser declarada
Foto: Hedayat Shah/AP

Durante séculos, havia um ritual para a guerra. Antes que os exércitos marchassem, os governos anunciavam ao mundo que a paz havia terminado. A declaração de guerra não era um mero formalismo diplomático. Ela marcava uma ruptura jurídica, política e até moral. Dizia aos cidadãos, aos aliados e aos inimigos que um novo estado de coisas havia começado. A guerra tinha um início reconhecível.

Hoje, esse momento quase desapareceu. A notícia que li, hoje pela manhã, sobre ataques aéreos do Paquistão contra alvos no Afeganistão ilustra uma transformação silenciosa, mas profunda, da própria natureza dos conflitos contemporâneos. Islamabad afirma ter atingido combatentes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP); Cabul denuncia a morte de dezenas de civis. Há bombardeios, incursões terrestres, mortos, feridos, deslocados e sucessivas retaliações. Ainda assim, nenhum dos dois países declarou guerra ao outro.

A pergunta torna-se inevitável: se há operações militares regulares, destruição de infraestrutura, incursões transfronteiriças e centenas de vítimas, o que falta para chamarmos isso de guerra? A resposta é desconfortável. Talvez, não falte absolutamente nada.

Nossa compreensão da guerra permanece, em larga medida, prisioneira de uma herança europeia dos séculos XVIII e XIX, quando os Estados procuravam enquadrar a violência dentro de normas relativamente precisas. Declarava-se guerra, mobilizavam-se os exércitos nacionais, estabeleciam-se objetivos políticos e, ao final, assinava-se um tratado de paz. A guerra possuía um enquadramento jurídico relativamente claro, ainda que sua realidade fosse brutal.

O século XXI dissolveu essa moldura. Os conflitos já não começam em um dia específico. Eles se acumulam lentamente. Primeiro surgem sanções, depois ataques cibernéticos, operações de inteligência, assassinatos seletivos, bombardeios "cirúrgicos", ações de forças especiais e incursões limitadas. Cada episódio é apresentado como uma exceção, uma resposta proporcional, uma medida preventiva ou uma operação antiterrorista. Nenhum deles, isoladamente, justificaria a palavra "guerra". Mas todos, somados, produzem exatamente aquilo que outrora chamávamos de guerra. Na prática, os soldados pouco se importam com a terminologia empregada pelos diplomatas. Quem vive sob bombardeios não distingue entre uma "operação de segurança" e uma guerra. Para quem enterra os mortos, a semântica oferece escasso consolo.

Essa transformação não é acidental. Após 1945, a criação das Nações Unidas tornou a guerra um instrumento juridicamente problemático. A Carta da ONU proibiu, em princípio, o uso da força contra outro Estado, salvo em hipóteses muito específicas, como a legítima defesa ou a autorização do Conselho de Segurança. Declarar guerra passou a significar admitir publicamente uma conduta que o próprio direito internacional passou a restringir.

Os Estados adaptaram-se rapidamente. Em vez de guerras, passaram a conduzir "operações especiais", "ações de contraterrorismo", "intervenções limitadas", "missões de estabilização", "ataques preventivos". A linguagem mudou muito mais depressa do que a violência.

A História oferece uma curiosa ironia. Jamais existiram tantos mecanismos jurídicos destinados a preservar a paz, e, ao mesmo tempo, jamais foi tão comum a existência de conflitos armados que evitam assumir oficialmente esse nome.

Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova categoria histórica: a guerra permanente sem declaração. Não se trata apenas do caso envolvendo Paquistão e Afeganistão. A mesma lógica aparece nas sucessivas operações de Israel contra grupos armados em países vizinhos, nas incursões turcas contra posições do PKK no norte do Iraque e da Síria, nos ataques norte-americanos contra organizações jihadistas em diferentes continentes e em inúmeras ações transfronteiriças justificadas como autodefesa.

Talvez um historiador do futuro estranhe nossa insistência em perguntar quando determinada guerra começou. Para ele, essa pergunta poderá soar tão anacrônica quanto perguntar em que dia exatamente começou a Revolução Industrial. Alguns processos históricos não possuem um instante inaugural claramente identificável; apenas percebemos, retrospectivamente, que atravessamos um limiar.

É possível que estejamos vivendo precisamente um desses momentos. A guerra continua presente, continua produzindo cadáveres, deslocando populações e redefinindo fronteiras. Apenas perdeu a cerimônia de anunciar sua chegada.

E talvez essa seja sua transformação mais inquietante: hoje, muitas vezes, só descobrimos que uma guerra começou quando já estamos contando os mortos.



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