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César Oliveira

Minha glorificação e o dia da mulher

21 de Março de 2016 | 15h 12
Minha glorificação e o dia da mulher

Longe de mim querer permanecer rezando ladainhas solitárias. Apenas, acuado, choro minhas pitangas como redenção. Não posso deixar de observar, no entanto, a mudança dos discursos em homenagem à mulher. Afinal elas compõem meu imaginário masculino. Sem que eu precise me envergonhar por isto ou me sentir culpado, como querem fazer com todo heterossexual que não abdicou deste direito hormonal, ainda que não seja um bruto e conjugue desde sempre lirismo e admiração pelos caminhos da mulher.

De consagração do viver, amadas, destino e razão, feiticeiras da composição masculina, os discursos, nesta data, mudaram para poderosas, guerreiras, lutadoras, empoderadas, competidoras, proprietárias corporais, trabalhadoras - como se já não o fossem, desde sempre - e atemporalmente (aliás, a palavra empoderamento,  em qualquer sentido, me desperta os instintos mais primitivos). Enfim, é um marcante e justo discurso, sem dúvida, mas quase nenhuma manifestação de sentimento.

Não raro li homenagens, até de adolescentes, que não passavam de ataques aos homens com acusações generalizadas de sexismo – e não estou falando de violência ou força -, assédio e similares. Mas me espantei mesmo foi com uma frase que li em algum lugar que dizia que ao invés de rosas ela preferia receber respeito, como se fossem excludentes. Como se o espaço ocupado pelo que é direito de todo humano não pudesse compartilhar o lugar com o ameno, o afetivo, o carinhoso, o delicado. Como se a alma fosse apenas campo de doutrina e não precisasse de aulas vagas.

Evidente que nestes tempos de internet, leituras rápidas e péssima interpretação de texto, há o sério risco de qualquer um ser rotulado pelo que não é, e o que escrevemos ser entendido como uma recusa ou incompreensão da extraordinária luta e trajetória que as mulheres têm cumprido no mundo.

Não é, portanto, nada disso, deixo aviso prévio, que o mundo anda assim eivado de não me toques. É que eu, derradeiro sentimental, espécie condenada à  extinção na atual máquina de moer almas, alegorias e figurações, senti falta deste olhar, também, sobre elas.

Noutros tempos, de tolerância e liberdade eu ousaria dizer, metaforicamente, que fui uma mulher a quem negaram flores, mas, hoje, não digo isso sem seguro de vida.

Então, registrado o salvo conduto em três vias, disponibilizado o Aurélio para interpretações, eu queria apenas dizer às que ousarem ouvir, ainda que escondidas, que toda vez que me senti glorificado foi quando estive diante de uma mulher que de tranças, vestido, ou verso, me disse que eu era seu domínio, me fazendo perder o rumo, sem perder o respeito.

E mandei flores...

Parabéns!



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