A névoa da guerra desapareceu ou apenas mudou de forma?
Há alguns mortos que se recusam a permanecer em seus túmulos. Continuam caminhando entre nós, silenciosos e atentos, observando os vivos repetirem velhos dilemas com novas ferramentas. Um desses mortos atende pelo nome de Carl von Clausewitz.
Imagino o velho general prussiano contemplando as imagens da
guerra contemporânea. Drones cruzam os céus do Oriente Médio. Satélites
monitoram continentes inteiros. Algoritmos processam milhões de dados em
questão de segundos. Inteligências artificiais identificam alvos, rastreiam
movimentações e produzem recomendações operacionais em velocidade impossível
para qualquer estado-maior do século XIX.
À primeira vista, parece que a antiga "névoa da
guerra" finalmente começou a se dissipar. Clausewitz definiu a guerra como
um reino de incertezas. O comandante jamais possui todas as informações
necessárias. Relatórios chegam atrasados. Informações contradizem-se
mutuamente. O inimigo esconde suas intenções. O acaso interfere nos planos mais
meticulosos. A guerra é o domínio da dúvida.
Durante séculos, generais sonharam em escapar dessa condição.
Sonharam com o campo de batalha transparente. Com a informação perfeita. Com a
capacidade de enxergar tudo. Talvez nunca tenhamos estado tão próximos desse
sonho.
Hoje, um operador pode acompanhar em tempo real a
movimentação de tropas localizadas a centenas de quilômetros de distância.
Sensores observam estradas, pontes, depósitos de combustível e centros
logísticos. Sistemas automatizados cruzam imagens, interceptações eletrônicas e
dados de geolocalização. O campo de batalha parece cada vez mais iluminado.
Mas talvez seja exatamente nesse ponto que o fantasma de
Clausewitz esboce um sorriso melancólico. Porque a informação abundante não
elimina necessariamente a incerteza.Em muitos casos, ela apenas a transforma.Os
comandantes do passado sofriam pela falta de dados. Os comandantes
contemporâneos frequentemente sofrem pelo excesso deles. A questão já não é
apenas obter informações. É saber quais delas merecem confiança.
O drone vê. O satélite registra. O algoritmo classifica. Mas
quem garante que a interpretação está correta? A inteligência artificial pode
identificar um caminhão. Pode estimar sua rota. Pode calcular probabilidades.
Contudo, continua existindo uma diferença fundamental entre reconhecer um
objeto e compreender uma intenção. A máquina pode dizer onde o inimigo está.
Nem sempre consegue explicar o que ele pretende fazer. E é precisamente
nesse espaço que nasce uma nova forma de névoa.
Não mais a névoa produzida pela ausência de informações, mas
aquela produzida pela ilusão de conhecimento absoluto. Toda tecnologia cria
suas próprias vulnerabilidades. Exércitos excessivamente dependentes de
sensores podem ser enganados por operações de camuflagem. Sistemas
automatizados podem amplificar erros de classificação. Algoritmos treinados em
guerras passadas podem interpretar mal situações inéditas.
A guerra continua sendo um duelo entre inteligências que
tentam enganar umas às outras. E nenhuma inteligência é mais criativa do que um adversário
lutando pela própria sobrevivência.
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova etapa
da história militar. A névoa não desapareceu. Apenas mudou de composição. Já
não é formada apenas por silêncio, distância e falta de informações. Agora
também é composta por excesso de dados, falsas certezas e confiança excessiva
nos sistemas tecnológicos.
Os generais do século XXI enfrentam um paradoxo curioso.
Possuem mais informações do que qualquer comandante da história e, ainda assim,
continuam obrigados a decidir em condições de incerteza. Clausewitz
compreenderia isso imediatamente.
Porque a essência da guerra jamais esteve nos instrumentos
utilizados para travá-la. Não estava nos mosquetes, nos encouraçados, nos
tanques ou nos drones. A essência sempre residiu no conflito entre vontades
humanas. Enquanto seres humanos continuarem tomando decisões sob pressão,
medo, ambição e esperança, a névoa da guerra permanecerá conosco. Talvez mais
fina. Talvez mais tecnológica. Talvez produzida por linhas de código em vez de
fumaça de canhão. Mas ainda assim uma névoa.
E suspeito que, diante dos enxames de drones e dos algoritmos militares que prometem prever o futuro, o velho Clausewitz apenas ajustaria os óculos, observaria a cena e repetiria a mesma advertência de dois séculos atrás: na guerra, a certeza absoluta continua sendo a mais perigosa das ilusões.
*Nota: CLAUSEWITZ, Karl von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010.