Nada tão apropriado sobre a delação do notório bandido, da JBS, como a frase de Cícero: “A verdade se corrompe tanto com a mentira como com o silêncio”.
Evidente que o apocalipse desta delação não teria acontecido sem a participação de Janot- e tudo me parece apenas versões- que aceitou dar imunidade aos criminosos. Acossado por cinco investigações é claro que a JBS adotaria a delação premiada mais cedo ou mais tarde, fustigada que estava pela lei. A lava-Jato de Curitiba já mostrou por outros caminhos, com a Odebrecht, que é possível. Marcelo Odebrecht - lembrem que deu uma entrevista dizendo que quando as filhas brigavam, ele perguntava quem provocou a briga, e arrematou: "eu talvez brigasse mais com quem dedurou do que com aquele que fez o fato" - disse que não deletaria e acabou fazendo-o, junto com o pai.
Enquanto a Lava-Jato de Curitiba tem por regra nunca conceder a imunidade total, como relatou o procurador Claudio Fernandes, em entrevista, Janot, talvez por vaidade- o pecado preferido do diabo-; messianismo; ou sabe-se lá porque razão, em injustificado ataque de inexperiência, incompatível com quem esta há quase quatro anos no cargo, aceitou dar imunidade total, não confiscar bens, garantir o direito do La Fontaine da Friboi permanecer na direção da empresa- armando golpe para lucrar com a venda das ações, com a informação de sua delação-, tolerar a promiscuidade estabelecida com um procurador que saiu do grupo para orientar a delação e gravação de Joesley, vazar seletivamente informações que quase derrubaram o Presidente e sequer recolher o gravador e solicitar uma perícia, antes de fazer uma denúncia contra a maior autoridade da República. Voou para perto do sol esquecendo que as asas eram de barro.
Aí, acossado pela sucessora que lhe é oposição, Janot resolveu disparar um arsenal de flechas contra tudo e contra todos- quadrilha do PT e do PMDB- ao final do mandato, dando impressão de certo açodamento que se destina mais a corrigir a biografia e a fazer política interna, na PGR, do que exercer com o esmero necessário o cargo que ocupa. Não que os denunciados não o mereçam- seriais frequentadores do noticiário da corrupção nacional-, mas porque não se entende a febril atividade em apenas um mês e fica-se com a impressão de ligeireza.
Aí, quando a chanchada já parecia escandalosa demais eis que aparece um áudio de Joesley e seu quebra-faca, Saud, conversando, bêbados, gravados acidentalmente (bem, é o que reza a lenda) e entregue acidentalmente entre papéis (é o que reza outra lenda). No áudio, em dialeto “nósvai” eles relatam ter feito delação seletiva, orientado pelo ex-procurador Marcelo Miller e de quebra fazem insinuações sobre Ministros do STF, relatos de sexo e casos, e prosaicas técnicas de como fazer drama para contar uma verdade a própria mulher.
Agora, Janot, sem saída, resolve corrigir o rumo pedindo a prisão do ex-procurador Miller, Josley e Saud. Credite-se a Janot ter feito um grande trabalho ao apoiar a Lava-Jato, ter realizado denúncias importantes, embora o desastrado final de seu mandato contenha fatos que merecem uma explicação além da que estamos tendo, pois, se não fosse a pressão coletiva o crime teria compensado.
É sempre bom lembrar Churchil, para manter a esperança: “A verdade é inconvertível, a malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim; lá está ela”.