As obras do projeto Centro invadem a Marechal Deodoro-o fervilhante centro de comércio popular- mas até agora é como se nada estivesse acontecendo. Se a convivência com a pandemia tornou-se natural- não deixa de ser como a violência-, o comércio de ambulantes aproveitou para retomar a rua que é sua. O movimento de caminhões fazendo carga e descarga continua frenético, e homens fortes passam a minha frente com caixas de mercadorias enquanto outros levam sacos transparentes nos ombros, com partes do boi, abatido, para os açougues.
Vendedores de frutas, de caldo de cana, de verduras, e pequenas barracas se amontoam no espaço restrito, caótico, orgânico e vivo, da feira. É a cidade como ela é. Uma retroescavadeira cava entre duas linhas marcadas de giz e movimenta um grande volume de terra. Como ainda estamos nessa transição de dias chuvosos para a secura que anuncia a despedida da temporada fria, não há poeira. Ao lado das máquinas os vendedores com suas galeotas mantém firmes suas posições, como se tivessem traçado uma linha de combate e ali fosse sua trincheira.
Os grandes equipamentos fazem contraste com os carrinhos de mão repletos de verduras. Os fios dos postes constituem uma alegoria de desordem, ligações nem sempre regulares, e uma torre de babel elétrica. Alguns fios já estão quase a altura das cabeças. Custa crer que tudo isso vai mudar e que tamanha intervenção esteja sendo feita sem que o comércio dê a menor bola.
Quando chego quase ao fim da rua encontro o único sinal que algo mudou. No meio da rua, sem carro, três garotos e um adulto jogam um bobinho, cada um exibindo sua falta de intimidade com a bola, mas deixando transparecer uma tremenda alegria pelo campo inaugurado.
Talvez seja apenas isso. A vida segue, independente do que esteja acontecendo.