O preço pago por aqueles que acreditam ser maiores que os limites
Os mortos continuam governando os vivos. Alguns deles exercem esse governo de forma silenciosa. Outros, porém, retornam continuamente sob a forma de advertência. Talvez nenhum conceito da Antiguidade tenha atravessado os séculos com tanta vitalidade quanto a hybris. A palavra grega costuma ser traduzida de maneira simplificada como orgulho, arrogância ou desmedida. Todas essas traduções estão corretas. E todas são insuficientes.
A hybris é algo mais profundo. É a ilusão de que os limites deixaram de existir. É o instante em que um homem passa a acreditar que sua força o coloca acima da condição humana. É a embriaguez produzida pelo sucesso. É a intoxicação da vitória. É a recusa em aceitar que até mesmo os mais poderosos permanecem sujeitos à derrota, à velhice, ao acaso e à morte. Talvez porque tenham sido uma civilização fascinada pela excelência. Ou talvez porque compreendessem que toda busca pela grandeza traz consigo a possibilidade da destruição. Por essa razão, a literatura grega está repleta de homens extraordinários arruinados justamente por suas maiores virtudes.
Aquiles é o exemplo mais conhecido. Sua força física é incomparável. Sua coragem parece ilimitada. Sua reputação aterroriza inimigos antes mesmo do combate começar. Contudo, aquilo que o torna extraordinário é também aquilo que o conduz ao desastre. Aquiles não aceita limites. Não aceita a autoridade de Agamêmnon. Não aceita a condição de simples mortal. Não aceita sequer a prudência. Quando retorna ao combate após a morte de Pátroclo, sua fúria adquire proporções quase divinas. O guerreiro já não luta para vencer. Luta para destruir. Luta para humilhar. Luta para afirmar sua superioridade sobre homens e deuses. O resultado é inevitável. A glória chega. Mas a morte também.
Na verdade, a tragédia grega inteira pode ser lida como uma vasta meditação sobre esse mesmo tema. Édipo acredita poder escapar da profecia. Agamêmnon acredita que a vitória militar o autoriza a tudo. Ajax acredita que sua honra foi ferida de maneira intolerável. Creonte acredita que sua autoridade está acima das leis não escritas. Todos caem. Não por serem fracos. Caem porque se tornaram excessivamente fortes. Há uma diferença importante. O fracasso raramente nasce da insuficiência. Frequentemente nasce do excesso.
Os gregos possuíam uma palavra para o limite que deveria conter esse impulso destrutivo: métron. O homem virtuoso era aquele capaz de reconhecer a própria medida. Aquele que compreendia a distância que separa mortais e deuses .Aquele que sabia interromper o avanço antes do precipício. A hybris começa exatamente quando o métron desaparece. Quando isso acontece, a queda torna-se apenas uma questão de tempo.
É curioso perceber como essa antiga categoria moral continua viva em nosso mundo. Mudaram os cenários. Mudaram as armas. Mudaram os discursos. Mas a estrutura profunda permanece a mesma. Impérios sucumbem frequentemente não por falta de poder, mas por excesso dele. Governantes deixam de distinguir prudência de covardia. Empresários passam a acreditar que o sucesso financeiro os torna infalíveis. Intelectuais confundem erudição com sabedoria. Generais passam a enxergar a guerra como problema técnico facilmente solucionável. Em todos esses casos encontramos a mesma lógica. A crença de que a realidade pode ser dobrada à vontade humana.
A história, porém, possui um estranho senso de humor .Ela costuma reservar suas maiores humilhações justamente para aqueles que se imaginam invulneráveis. Napoleão entrou na Rússia convencido de que a Europa estava derrotada. Hitler acreditou que podia travar uma guerra contra metade do planeta simultaneamente.
Os arquitetos do Titanic declararam que haviam construído um navio impossível de afundar. Em cada um desses episódios percebe-se algo que os gregos reconheceriam imediatamente: a hybris. O excesso ou a perda da medida. A intoxicação produzida pela própria grandeza.
Talvez seja por isso que Virgílio tenha construído Enéias como o oposto de Aquiles. Enquanto o herói homérico avança impulsionado pelo desejo de glória, o fundador mítico de Roma parece permanentemente consciente de seus limites.
Ele hesita, reflete, duvida, sofre, carrega consigo uma característica que os heróis gregos frequentemente desprezavam: a contenção. A grande inovação virgiliana talvez resida justamente Não por acaso, Enéias sobrevive. Aquiles torna-se uma lenda. Enéias torna-se fundador. Um conquista a imortalidade da memória. O outro constrói uma cidade destinada a governar o mundo.
Talvez essa seja a grande lição que os antigos tentaram transmitir. A queda raramente começa no campo de batalha. Ela começa muito antes. Começa no instante em que um homem deixa de reconhecer a própria condição. Começa quando a prudência passa a parecer fraqueza. Começa quando a moderação é confundida com mediocridade. Começa quando alguém olha para si mesmo e já não enxerga limites. Nesse momento, a tragédia já começou.
Os gregos sabiam disso. Por essa razão transformaram a hybris em uma das palavras mais importantes de sua civilização. Ela não era apenas uma categoria moral. Era um aviso. Uma advertência dirigida a todas as épocas. Inclusive à nossa. Porque os séculos passam. Os impérios desaparecem. As cidades tornam-se ruínas. Mas a velha tentação de acreditar-se maior que os limites continua tão viva quanto nos dias em que Aquiles caminhava pelas planícies de Troia.