O mundo precisa rever a estratégia de enfrentamento à
Covid, trocando as ações pontuais por uma estratégia de longo prazo. Não
podemos continuar sendo enganados por nossas esperanças de uma solução rápida e
objetiva.
No começo da pandemia, escrevi, incansavelmente, sobre
testagem maciça, para distanciamento controlado, mas foi chover no molhado.
Agora, temos essa tragédia indescritível. E, por mais que soe doloroso,
precisamos entender as lições que o vírus - vindo da China - nos dá. Ferozmente,
ele venceu todas as previsões: é um país tropical, a densidade urbana é baixa,
a imunidade de rebanho será atingida!
O vírus nos desmentiu e castigou nossa soberba de forma letal
e implacável. Nós é que não entendemos os alertas. Os eugenistas, que defendiam
a imunidade de rebanho natural - imortalizada na célebre, e canalha, frase do "morra
quem tiver de morrer" -, foram desmoralizados por Manaus e Suécia, que
demonstraram não ser possível.
Defendemos remédios ineficazes e, como em um ensaio sobre a
cegueira, nos dividimos, desestimulando o distanciamento e o uso de máscara e
vacinas, de forma criminosa. Tudo o que o vírus podia desejar.
Todos os prazos de controle foram vencidos. E emendamos uma
segunda e, depois, uma terceira onda. E quando todos apostavam no seu
crepúsculo, ele levantou-se na Índia, de forma feroz e aterradora.
A cada surto incontrolado, o vírus lança novas cepas, mais
resistentes, mais contagiosas e com mais chances de escapes das vacinas. Apesar
de nossa expertise, que já reduziu a mortalidade em UTI em 20%, tivemos 200 mil
mortos em quatro meses, enquanto, em 2020, foram necessários nove meses para
atingirmos o mesmo número. Acho que o vírus está sendo bastante loquaz no que
está nos dizendo.
Considerando que o mundo tem 8 bilhões de pessoas e que
apenas 1 bilhão está vacinado, dá para termos uma ideia do tempo necessário
para que a imunidade de rebanho pela vacina seja atingida e o risco que
corremos por essa assimetria vacinal. Novas ondas, por outras cepas, não
são improváveis.
É por isso que acho que precisamos vencer essa ilusão do
curto prazo e modificarmos nossa consciência sobre a pandemia. Ela irá durar,
será longa. E o tempo de seu controle é uma incerteza. Assim, temos de pensar
em uma guerra arrastada e fazermos um planejamento de longo prazo - eu diria
que até o fim de 2022, ao menos -, para não ficarmos criando falsas
expectativas e fazendo remendos, todos os dias.
Precisamos preparar uma estratégia longa e global: de saúde
pública; de suporte de insumos, com fábricas de material, fábricas de vacinas
independentes; de planejamento de apoio à economia e aos desassistidos; de
mobilidade; dentre outras; mas diferente do que estamos fazendo, com tudo
focado no curto prazo, como se ela fosse acabar amanhã.
Como disse Churchill, isso não é fim, não é nem mesmo o
começo do fim, mas apenas o fim do começo.