Em uma eleição
em que muitas aberrações foram cometidas um dos momentos mais melancólicos para
mim foi o voto da ministra Carmem Lúcia, do STF, a respeito da proibição de
exibição de um documentário da Brasil Paralelo sobre o atentado a Bolsonaro. A
votação estava empatada em três votos a três( Benedito Gonçalves, Lewandowski,
Alexandre Moraes, a favor), no TSE, e a ministra foi decisiva. O pequeno, lamentável
momento, será sempre uma mancha na biografia da ministra. Indelével, como seu
voto.
Ele se torna
pior porque a ministra reconhece que existe jurisprudência no STF, seguindo a
Constituição, “impedindo qualquer tipo de censura”, mas ainda assim de forma
abismal vota para censurar. É inacreditável. Segue a transcrição.
“Este é um caso
que em sede de liminar [decisão provisória] é extremamente grave, porque de
fato temos uma jurisprudência do STF, na esteira da Constituição, no sentido do
impedimento de qualquer forma de censura. E medidas como essas, mesmo em face
de liminar, precisam ser tomadas como se fossem algo que pode ser um veneno ou
um remédio. E neste caso, portanto, como se trata de liminar, e sem nenhum
comprometimento quanto à inteireza de manutenção no exame que se seguirá, vou
acompanhar, com todos os cuidados, o relator, incluindo a parte da alínea C
[trecho que manda adiar estreia do documentário] da decisão que é a que me
preocupa enormemente”.
Aí, com uma
decisão Frankstein, com duas cabeças, a ministra diz: “não se pode permitir a
volta de censura sob qualquer argumento no Brasil”. Aí aceita um argumento para
votar a favor. A ministra não ouvir a própria voz é estarrecedor. Passamos a
ter censura a depender do interesse, a Constituição circunstancial. Violada por
aqueles que a deviam defender.
Quando a
ditadura foi votar o AI-5 o coronel Jarbas Passarinho, após objeção inicial,
disse: "Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de
consciência." Longe desse texto comparar o terrível coronel com a boa
pessoa que parece ser a ministra Carmem Lúcia. O que me deixa perplexo é que ao ocupar um cargo que exige estatura e respeito a Constituição a ministra tenha
aceitado fazer censura prévia, algo que pensávamos extinto com a ditadura, mas
que foi ressuscitado pelo Ministro Alexandre de Moraes e endossado pela
ministra.
Triste dia.