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  • Feira de Santana, sexta, 19 de junho de 2026

César Oliveira

Amanhã vencem os boletos, e são altos

César Oliveira - 19 de Junho de 2026 | 08h 20
Amanhã vencem os boletos, e são altos
jacques Wagner, líder de Lula no Senado- Carta Capital

Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Este é um dos inícios de romance mais perfeitos da literatura mundial, escrito por Leon Tolstoi em Anna Karenina. Chega a parecer heresia tomar emprestado começo tão magistral para tratar de algo tão degradante quanto a corrupção que devasta o sistema público do Brasil. No entanto, a analogia se impõe diante do abismo que separa a realidade dos gabinetes e a das ruas.

Enquanto a Polícia Federal aponta que um apartamento de R$ 2,5 milhões,  R$ 3,5 milhões em espécie, voos em jatinhos e show internacional,  podem ter sido repassados pelo Banco Master ao senador Jacques Wagner, líder de Lula no Senado,  o brasileiro comum conhece o peso sufocante que um  código de barras exerce sobre a sua existência. Para quem luta diariamente para manter suas contas em dia, o boleto não é apenas uma obrigação financeira, mas um gatilho de ansiedade crônica e persistente. É o medo real da humilhação, da linha de corte, do nome sujo e da escolha cruel entre qual direito básico sacrificar no mês. Esse trabalhador é obrigado a pagar duas vezes por tudo: financia o Estado através de impostos e, diante do colapso dos serviços públicos de saúde, transporte, educação e segurança, vê-se forçado a gastar o que não tem para garantir o mínimo de dignidade e proteção para sua família. O boleto do cidadão comum, é quem dá o ritmo do seu desespero e adoece o seu cotidiano.

Enquanto isso, nos bastidores da Operação Compliance, a palavra "boleto" sofre uma metamorfose perversa,  vestida com a pressa do luxo. Ao apurar as relações do senador Jaques Wagner com o Banco Master, a PF revelou que o enteado do parlamentar, Eduardo Mendonça Sodré Martins, teria cobrado Augusto Lima — ex-sócio de Vorcaro e articulador dos negócios do banco com o governo da Bahia — para apressar uma transferência de R$ 3,5 milhões da PKL One Participações para a BN Financeira Ltda.  Em setembro de 2025, a pressão pelo dinheiro veio em tom de escárnio: “Amanhã vencem os boletos, e são altos”.

A urgência alegada para acelerar a propina apropria-se do mesmo termo que tira o sono de milhões de brasileiros, mas aqui serve apenas para custear estilos de vida nababescos e enriquecimentos ilícitos. No fim, a ironia desenha-se de forma cruel na crônica política nacional: todos os pagadores honestos de boletos se parecem ; já os desonestos, cada um  paga à sua, bilionária e privilegiada maneira.



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