Nestes
tempos de ausência de profundidade e instantaneidade o Ministro Barroso corre o
risco de deixar como legado de sua biografia, um acerto, uma distorção, um
erro, estabelecidas por suas falas. De longe, ao menos, o ministro se parece
com aquilo que desejamos de um juiz da Corte: oratória ( já li discurso de
formatura com ótima construção de texto), formação intelectual, jurídica, além
da aparente elegância da boa educação. Apesar de discordar frontalmente dos “ argumentos que me deram conforto moral, jurídico e político para
defender a causa” do terrorista
Cesare Battisti, reconheço no ministro esse diferencial.
O
acerto é sua opinião sobre Gilmar Mendes que traduziu o que todo o Brasil pensa
sobre ele. Vale a pena relembrar: “Você é uma pessoa horrível. Uma
mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia. V. Exa. aqui fazer um
comício, cheio de ofensas, grosserias. V. Exa. não consegue articular um
argumento. Já ofendeu a presidente, já ofendeu o ministro Fux, agora chegou a
mim. A vida para V. Exa. é ofender as pessoas. Não tem nenhuma ideia. Nenhuma.
Só ofende as pessoas. Qual é sua ideia? Qual é sua proposta? Nenhuma! É bílis,
ódio, mau sentimento, mal secreto, uma coisa horrível. V. Exa. nos envergonha,
V. Exa é uma desonra para o tribunal. Uma desonra para todos nós. Um
temperamento agressivo, grosseiro, rude. É péssimo isso. V. Exa. sozinho
desmoraliza o Tribunal. É muito penoso para todos nós termos que conviver com
V. Exa. aqui. Não tem ideia, não tem patriotismo, está sempre atrás de algum
interesse que não o da Justiça.” A elegância de Barroso é o contraste mais
perfeito ao que há de disforme em Gilmar.
A
distorção é a frase: “eleição não se ganha, se toma”. A frase foi retirada de
contexto, sendo uma injustiça com ele. O ministro se referia a uma
fala que ouviu do senador Mecias de Jesus, de Roraima. Já foi desmentida, mas
vez ou outra volta circular para os que gostam de apontar culpas no STF.
O erro, foi o: “Perdeu mané, não amola”
dita a manifestantes bolsonaristas que protestaram na visita de seis ministros
do STF em um evento particular em Nova York. A viagem foi inoportuna pelo
momento e inadequada porque é um erro ministros aceitarem convites provados de
pouca transparência. Já a frase tende a grudar na biografia do ministro como
uma âncora. Juízes, ainda mais do STF, devem ter equilíbrio, sendo sua
obrigação maior do que a nossa que somos cidadãos comuns. Por outro lado, a
frase usada por bandidos para render suas vítimas, foi de uma infelicidade total.
Por mais que não gostemos, os 58 milhões de brasileiros que votaram em
Bolsonaro, em sua absoluta maioria, são cidadão honrados e não podem ser
atirados em uma vala comum, nem tripudiados, por um ministro do STF. Circulam
informações que o ministro teria dito aos colegas do Tribunal que estaria arrependido,
mas sabe-se disso apenas por aquelas convenientes notinhas que circulam nas
colunas. É confortável errar em público e sugerir arrependimento no privado.
O ministro se não quiser que essa seja sua
herança deveria vir a público e pedir desculpas aos que ofendeu. Mostraria elegância,
humildade diante do erro, respeito a liturgia do cargo. Ainda está em tempo,
ministro!