A proliferação epidêmica de cursos de Medicina traz o risco
violento da má-formação, afinal, não temos tamanha disponibilidade de mão de
obra com formação pedagógica para ensinar – não basta ser médico.
A formação do médico é um processo caro, extenso – o curso
tem o dobro de horas das graduações habituais – e exige um intenso treinamento,
para que o profissional esteja qualificado para lidar com um elemento único,
que é a vida humana.
Segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), cinco
pessoas morrem, por minuto, em todo mundo, por erro médico. No Brasil, conforme
pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), seriam quase 55 mil
mortes por ano. Isto sem falarmos das sequelas.
Esses dados tendem a ser maiores, caso a formação seja
flexibilizada e a expansão – necessária, sem dúvidas – aconteça sem mecanismos
regulatórios. Entre elas, a falta de dimensionamento entre vagas e capacidade
de inserção.
Para treinarmos bem os alunos, é fundamental que tenhamos
espaços de formação à disposição, o que inclui rede básica, unidades especializadas
e estrutura hospitalar.
Embora tenhamos avançado no deslocamento e inserção do
treinamento de todas as áreas da saúde na comunidade, desde as séries iniciais,
não tivemos igual expansão na rede hospitalar, obrigando os internos a viver um
verdadeiro safári, em algumas faculdades do país, em busca de vagas, boa parte delas
sem preceptoria ou preceptoria parcial e improvisada.
Não temos determinação de rol de procedimentos, número de
repetições, desempenho nas atividades. A tendência é de agravamento desse
déficit e competição canibal por vagas. E sequer estou falando das questões
éticas com o paciente como parte ativa da formação profissional em saúde.
Os cursos de saúde da Universidade Estadual de Feira de
Santana (Uefs) sempre tiveram o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) como unidade
de referência. O fato de termos implantado programas de Residência Médica,
desde 1992, contribuiu para que um ambiente acadêmico permeasse o hospital.
Ao criarmos o Curso de Medicina, ele se tornou um parceiro
natural e isso ajudou a qualificar o desempenho dos alunos. Acho, no entanto,
que precisamos avançar nesse processo de ensino-aprendizagem.
Quando encerrei a Coordenação do Curso, em 2010, após formar
a primeira turma, deixamos um projeto de ambulatório (concretizado em 2022) e a
sinalização de um Hospital Universitário. Desde então, escrevi vários artigos alertando
para sua importância.
Um Hospital Universitário serviria para atender a população
da região em que a Uefs está instalada e garantiria um salto de qualidade
incomparável para a formação da mão de obra em saúde, um setor que se apresenta
como demanda vital para o futuro.
É sempre diferente a dimensão do ensino quando temos um
hospital vocacionado para esse fim. Ele permitiria, inclusive, a ampliação de
vagas em uma universidade pública. Como sempre digo aos alunos, “precisamos de
médicos que sejam maximamente eficientes e minimamente invasivos à integridade
física, econômica e afetiva dos pacientes”.
Por isso, é fundamental aproveitarmos a janela de
oportunidade que é ter um Governo do Estado com ligações locais, a fim de que
esse avanço seja concretizado.