O humano possui uma solidão intransponível, afinal, não
existe outro igual. Cada um é um exemplar que começa e acaba em si e mesmo o
que lega a um filho não é todo ele. Gênese e extinção são nossa dança
biológica.
Em temporada de seca o risco, na roça, não é a escassez no
pasto, a terra ressentida do cio da chuva, mas o fogo acidental que instala
incêndios. Para evitar a tragédia os donos fazem aceiros temporários nas
margens das propriedades, criando a fronteira de um chão com o outro, para
proteger o que quase não resta.
Agimos igual diante do dessemelhante, pois a sobrevivência
nos impôs estratégias. Uma, do confronto; outra, da coabitação. Dessa escolha
deriva o tamanho do aceiro que cavamos, o ressentimento, ações, contra o
diferente-todos os outros. Somos trincheiras incomunicáveis, vazadas por
grandes incursões do amor, ativismo emocional, esses cavalos de Troia da
natureza para vencer nossa beligerância e garantir a continuidade. Ou, pelo
menos, a Rita Hayworth e o doce de tomate de minha mãe.
Todo amor é uma falha na guerra de aniquilamento. O baile
dos lábios, um no outro, é o berçário cósmico que nos faz estrela. Assim, o
amor poreja como quem rega uma veia já seca, mas a sobrevivência é uma feira
livre, afinal, saímos de 3 bilhões, em 1960, para 8 bilhões de pessoas, em
2024. Essa explosão gera conflito e
descartabilidade. É a lei da oferta e
procura.
Por outro lado, toda coabitação é uma trapaça hormonal, ou
contenção da lei, fé, cultura. A falta
de tréguas e o desnudamento virtual do indivíduo com suas mazelas imperdoáveis
estão produzindo um progressivo crescimento da estratégia do confronto em
detrimento da convivência.
O ódio tem engordado suas fileiras de seguidores visíveis-e,
sobretudo, anônimos- que empunham suas redes sociais como lanças ancestrais-
primitivas, mas mortíferas. Cada vez
mais o outro é uma ameaça de incêndio a ser cancelado. A nossa incomunicabilidade, seja a mínima- do
bom dia na padaria- ou a máxima- da agressão ou morte por motivo fútil- está
erguendo fronteiras até entre os próximos.
Vivemos o que chamo de era do outrofobia. A supremacia do
indivíduo. Nela, o bestial consome em seu forno crematório as relações,
valores, tolerância ao diverso. Essa reação é aniquiladora- traz sofrimento
emocional, ocupa divãs, tarjas-pretas, suicídios- pois nada mais somos que um
atávico bando ancestral.
Ao dilapidarmos o
tête-a-tête estabelecemos um inventário de solidão que causa desagregação
sistemática. Somos o que escolhemos, mas escolhemos cada vez menos o que somos.
Sabemos que o isolamento deforma; a desconfiança entorpece;
a incerteza castiga. A outrofobia é o
aceiro permanente que estamos edificando como um exílio da intimidade, fatal
para o que quase não resta. E que apaga o cio da vida, o milagre que só o outro
gera em nós. É hora de resistir.