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César Oliveira

Setembro não é longe demais

04 de Setembro de 2023 | 20h 01
Setembro não é longe demais

Eu sei e vocês sentem nas estações da alma que é setembro, embora haja flores- com sabor de vindima- no entanto, que desobedecem ao calendário, florescem como desejo aleatório, e lançam seu perfume por uma vida inteira. As folhas do Outono que forravam o chão, cedendo ao frio do inverno- nessa longa preparação de desacontecer à nossa imagem e semelhança- foram expatriadas.  E nas manhãs de minha aldeia e textura de meus sentidos, a neblina não cobrirá mais o sono dos que se tardaram amando.

Há, pressentimos todos, depois do longo e opaco outono, do úmido inverno que inundou os ossos, urgências de flores. Há extrema urgência de flores. Precisamos semeá-las em cada despedida para que lembremos que não é partir que afasta, mas não deixar cativo o lugar da volta. Todo banimento é descuido!

Precisamos de flores, pois, setembro, sempre foi longe demais.

Necessitamos das leiras dos olhos alheios para semearmos lírios, jasmins, girassóis com gosto de sol, açucenas lilases, madressilvas curativas, que descobrimos ao esmiuçar o íntimo e as coivaras, como a ternura mais derradeira antes de nossos abismos.  E rosas. Vermelhas. Rosas despretensiosas, rosas de pele fina e dorso sensível, rosas cupido, rosas amantes, rosas amores.

Carecemos de mãos de jardineira, replantando os frutos das amendoeiras, pois, novas chuvas virão. As ruas de minha alma- as existentes e as inventadas- e a Getúlio Vargas, de minha cidade, irão florir seus flamboyants e a vida se iluminará do fogo de outro sol.

Precisamos retomar a simplicidade de um rabisco na areia, um graveto que vira ninho, um lápis de cor que enfeita de azul quente, a existência. Por isso, agora, que em algum lugar o mundo dorme exausto de existir, escrevo como se fosse minha primeira carta de alfabetizado, o primeiro toque, só para avisar que Setembro não é longe demais e que é preciso que se dê, urgentemente, por inaugurada, a primavera, em nosso peito e nos corações, para que se possam semear, ou dar posse, às últimas esperanças de amor.



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