Não cabe mais nenhuma dúvida que o sonho da noite de verão do governo
passado era que a “balbúrdia” de 8/1 terminasse em um golpe militar. Sob o ato físico das invasões houve uma anterior “ sensibilização conjuntural” que teve em Bolsonaro seu grande líder retórico- e mais alguns ministros, incluindo
os casernosos- com falas de ódio contra o Supremo, ataques às urnas eletrônicas e ao processo
eleitoral, sedição de militares e polícias. Um sinal inequívoco foi a tentativa de
explosão de um caminhão com combustível no aeroporto de Brasília. Já vimos, no
passado, com um Puma no Riocentro e a ideia
de explodir um gasoduto que resultou na expulsão de um capitão do Exército.
Além das ações diretas, houveram muitas vivandeiras que escolherem a
omissão , mais um festival de incompetência- ou conveniência- como o do General
Gonçalves Dias, do GSI, que havia sido informado sobre a chegada de vários ônibus
ao DF e nada fez , o que resultou em sua demissão posterior, do governo Lula.
Aliás, como disse o ex-ministro, do STF, Marco Aurélio: “Foi um acontecimento
extravagante, a partir da falha do Estado.” O poder falhou ( federal e estadual).
Houve sim, a criação de um infame ambiente de golpe, embora o plano
tenha falhado em vários pontos- de data a cooptação das Forças Armadas. Como já
se sabe, em julho de 2022, uma reunião entre os chefes da pasta de Defesa do
Brasil e dos EUA sinalizou aos militares brasileiros que eles não teriam o respaldo dos EUA, caso optassem pela aventura golpista. Outras
visitas foram feitas, Senadores Americanos se manifestaram, além da
OTAN, entre muitos outros, que acabaram consolidando a informação de que o
golpe teria um preço muito caro internacionalmente. O resultado pode ser
definido na clara fala do atual Ministro da Defesa, José Mucio: não houve golpe
porque o Exército não quis!
É certo que não se pode negar o esforço do STF e do TSE em legitimar o processo eleitoral
via urna eletrônica, mas salvar a democracia é um papel que não lhe cabe. Também não valida os desmandos jurídicos, a intencional e aberrante anulação eleitoral das condenações de Lula- pelo projeto de poder sustentado pela corrupção que comandou- a autorização de censura
( “ só essa vez”, no vergonhoso voto de Carmem Lúcia), a violação completa do ordenamento jurídico, as arbitrariedades do processo conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, que vai carregar para sempre em
sua biografia e na do STF a morte de um manifestante na cadeia, por problemas de saúde, apesar de ter
sua liberdade recomendada pela PGR. O cadáver dessa
vítima é indissociável desse inquérito dos atos antidemocráticos. E ele tem
autor. Da mesma forma como a destruição física que ocorreu em Brasília e o 8/1
tem mentores ideológicos. Aliás, o STF, continua rugindo alto contra
manifestantes banais e rugindo baixo contra os grandes líderes dessa acintosa tentativa de romper nossa democracia.
É preciso que o país nunca mais permita aventuras desse tipo, mas que
isso não seja a desculpa para autorizarmos o vale-tudo institucional em nome
das boas intenções. Afinal, como sabemos, o inferno está cheio delas!