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César Oliveira

Das necessidades do humano

08 de Janeiro de 2024 | 14h 41
Das necessidades do humano
De todas as emoções a mais necessária, talvez, seja a sensação de que algo, ou alguém, nos é imprescindível. Como uma especiaria, sentença escrita em pergaminho, essencial, que não se desfaça mesmo exposto aos ventos das erosões milenares, ao açoite do desimportante, da fragilidade, da banalidade, que teima em diluir, em esgarçar, as permanências.
A voraz necessidade de um amigo que reme a mesma nau dos insensatos; que proclame heresias, se necessário, em sua defesa; que lhe exija estar à altura. Ou a absoluta necessidade de um amor insubstituível - não destes seriais que repetimos boca em boca, na carne, a cada partida do anterior- cujo nome não pudesse ser dito em vão, e não fosse um palavrão obsceno e condenável a ser inscrito num ritual de martírio e gozo.

A precisão de um amor vivido como quem vai erigir um monumento irrepetível, sem lápide, ou exílio; um amor cujas juras são altares, cujos louvores são cantos sagrados, cujas comunhões são abalos sísmicos, cuja partida- todo amor sofre de partir um dia que a vida é arrebatamento, glória e miséria- é amputação indelével.
Temos a precisão de uma lealdade, um princípio, um valor, uma crença, uma escolha, que seja como o fio das três deusas que tecem o destino, como aceiro que nos baliza, e da qual, nada, nem a morte, nem a alma, nem a salvação, nem as dores das condenações, nos apartará.
Em tempos de rasura, sou apenas falta.


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