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  • Feira de Santana, sbado, 31 de janeiro de 2026

Cultura

‘O sertão: somos muitos’ é o tema da primeira exposição individual do feirense Juraci Dória em Pernambuco

Ísis Moraes - 22 de Janeiro de 2026 | 08h 38

A mostra está em cartaz na Galeria Marco Zero, em Recife

‘O sertão: somos muitos’ é o tema da primeira exposição individual do feirense Juraci Dória em Pernambuco
Fotos: Divulgação

Palco de questões universais da existência, onde o homem trava sua constante peleja contra o tempo, o medo, a dor, a seca, a solidão, a incerteza, a morte, o mistério e o divino, buscando encontrar seu reflexo na paisagem, enraizar sua identidade e apaziguar, no amor e na alegria, a sua alma, numa verdadeira jornada de autoconhecimento, o sertão transcende seu espaço geográfico e, a exemplo do que sentenciou Guimarães Rosa, se apresenta como o próprio mundo.

Complexo e total, nele, todos os dilemas humanos se manifestam. Sua aparente aridez é lugar de constantes contradições e transformações. Nada é apenas o que parece. A vastidão espinhosa e amarronzada não é vazia de sentido nem passível de imutabilidade. De repente, tudo renasce. Ao menor sinal de chuva, o verde se impõe.

Quem vive o sertão sabe o valor da espera, conhece as forças que regem a vida e sabe a profundidade de si mesmo. O sertão é território de infinita reflexão. Jamais morre. Jamais se esgota. Renasce a cada olhar. Ressurge sempre outro, mas sempre o mesmo, em sua essência. Pleno de possibilidades. Vasto de grandezas que não apagam suas particularidades. Sempre múltiplo e diverso, porque “o sertão: somos muitos”, como, magistralmente, o redefine o artista plástico e arquiteto feirense Juraci Dória, em sua nova exposição individual, cujo vernissage acontece na noite desta quarta-feira (21), na Galeria Marco Zero, em Recife, capital pernambucana.

As seis décadas de percurso artístico de Juraci Dórea são a prova de que o sertão é mesmo inesgotável, porque um microcosmo do mundo; porque, dele, brotam belezas dispostas a invadir todos os olhares, os sensíveis e os embrutecidos; porque reflexo da alma de todo aquele que nasce nele e não o abandona simbolicamente. Ser sertanejo não se afasta do que se entende como viver.

Em função disso, o artista atravessa o tempo revisitando e ressignificando o seu chão, mas sempre com ineditismo, sempre com o raro encanto que salta aos olhos de quem vê pela primeira vez. O sertão é ele mesmo e o público que se reconhece nas suas cenas, sempre tão locais, sempre tão brasileiras, sempre tão universais.

O fazer artístico de Juraci é sua própria vida a dialogar com as nossas. “É um exercício que não se desenlaça desse viver no sertão. Um sertão que é de muitos tempos, que se expande e que se guarda em muitos de nós”, observa a curadora da mostra, Galciani Neves.

Celebrada em instituições e eventos nacionais e internacionais, como as bienais de Veneza, São Paulo e Havana, o artista feirense desenvolve uma pesquisa na qual o sertão é o protagonista. Seja qual for o suporte utilizado, a tradução dessa paisagem é sempre magistral, pela carga identitária, pela força imagética, pela naturalidade com que se apresenta, pelas marcas que grava em nossas almas.

O sertão que brota de suas telas; dos artefatos talhados a mão, em madeira e couro; das esculturas que lançam suas estacas aos ares, plantadas nos pastos, em meio ao “nada”, para que se integrem à natureza e pereçam ao tempo e instiguem os viventes ou não os surpreenda, talvez, porque parte de seus cotidianos, cravam suas farpas na nossa memória e sensibilidade, irremediavelmente.

Ninguém passa incólume pelo sertão de Juraci. Não importa se os olhos daqueles que veem suas obras são nacionais ou estrangeiros, letrados ou versados no caminhar de uma vida simples e puramente cotidiana. O seu sertão atrai e cativa, porque, de algum modo, ele espelha o que somos. Nós, com nossas alegrias e dores, nos reconhecemos naquilo que brota de suas mãos.

TORRÃO NATAL – A obra de Juraci, é preciso destacar, nunca vislumbrou os holofotes do mercado. O artista caminhou, muitas vezes, na direção contrária. Não abandonou sua terra natal em busca de reconhecimento. Não dobrou sua linguagem aos “ismos” impositivos dos grandes centros urbanos. “Eu escolhi ficar aqui, em Feira de Santana, longe dos centros onde as decisões da arte acontecem. E não me ressinto”, afirma o artista.

Ele preferiu trilhar o íngreme caminho que escolheu, como um vaqueiro que doma a selva de espinhos da Caatinga, tangendo o gado e entoando aboios ancestrais. “Seus modos de circular no sistema da arte, seus dispositivos de produção, os critérios que inventa ora para driblar os ditames já muito esvaziados da arte, ora para corrompê-los com linguagem, apresentam-se numa intensa complexidade poética, tecida por muitos componentes. Dentre eles, podemos ressaltar: Juraci afirma a potência da arte como instância disruptiva, educadora e política, em seus sentidos mais amplos”, destaca Galciani Neves.

De acordo com a curadora, “isso está presente em cada tomada de decisão e em todos os instantes que vislumbra seu público e suas parcerias de trabalho – a terra, seus habitantes, as matérias-primas, as relações socioculturais e ambientais que impregnam o lugar”.

Ela lembra, ainda, que, “sem intencionalidade de defender esse ou aquele suporte ou preferir uma técnica específica, Juraci destaca o gesto do corpo-autor, ao lidar com as materialidades e seus contextos de origem, como uma ação aberta ao sertão. Esse fazer, por sua vez, ocorre graças a um pensamento biocêntrico, ou seja, o artista estrutura conscientemente suas práticas pela ideia de que a vida, este imenso conjunto de relações e conexões, é que está no centro de tudo, e, por isso, é preciso olhar e respeitar tudo o que vive e faz perpetuar a continuidade da existência”.

Ainda conforme Galciani, Juraci opta por prescindir dos anglicismos que dominam o mercado artístico contemporâneo, mergulhando na experimentação. “Recria linguagens e técnicas, adaptando-as aos seus processos e intencionalidades, e remolda conceitos sobre o que pode ser compreendido como arte. Incansável nessa labuta, reinventa-se no sertão, com o sertão e a partir do sertão”, pondera.

No entendimento da curadora, “todo esse compêndio de experiências contribui para que a obra se espraie com muitas possibilidades de leitura. Tendo isso em mente, é importante ressaltar que a trajetória artística de Juraci sempre o colocou diante de muitos desafios em relação ao seu vocabulário e aos procedimentos de criação que emprega. Ou seja, para além de toda fortuna crítica disponível sobre o artista e das participações em mostras como Bienal Internacional de São Paulo (1987 e 2021), Bienal de Veneza (1988), Bienal de Havana (1989), Projeto Terra (Université Paris 8, França, 1999), Bienal da Bahia (2014), e outras tantas individuais e coletivas dentro e fora do Brasil, o próprio processo de Juraci dinamiza e transcende alguns termos comumente empregados para categorizar trabalhos, como por exemplo, landart, site specific, work in progress, arte povera, happening. É com profunda dedicação em interligar contexto e fazer artístico que Juraci cria noções muito próprias sobre arte, que, ao mesmo tempo, estão enraizadas em seu território, e constitui terrenos de experimentação multidisciplinar – arte, meio ambiente, cultura”.

Essa trajetória, diz a pesquisadora, “teve início nos anos 1950, quando Juraci já se interessava em desenhar os personagens do sertão: o vaqueiro, o gado, o cavalo. Tangendo a boiada, incrementado pela roupa de couro, tendo os bichos como seus aliados, o vaqueiro surgiu em desenhos em bico de pena e ecoline, tal como um Dom Quixote do interior”.

Nas fases posteriores, criou peças inspiradas nas típicas malas de madeira usadas pelos sertanejos; os artefatos que remetiam o Ciclo do Couro; os brasões, os contornos de boi e seus chifres; as aclamadas esculturas de couro cru instaladas a céu aberto. “O trabalho seria uma recriação. Com couro e madeira reaproveitados, disponíveis na região, a escultura seria construída coletivamente. E ficaria ‘no tempo’, ao ar livre, convivendo com os passarinhos, que ali fariam ninhos; com a vegetação, que avançaria sobre sua superfície; com os moradores dos arredores que, provavelmente, com toda liberdade a desfariam, tempos depois, para reutilizar os materiais. O tempo é construtor desses trabalhos. Além disso, estavam em seus pressupostos: que o público reconhecesse os materiais da obra de arte, que as modificações que ali se dessem não seriam compreendidas como depredação, que o trabalho e seus processos não trouxessem danos à paisagem e que houvesse em todas e possíveis instâncias da obra uma conexão com o lugar. Assim, aconteceu, arte com senso de coletividade e porosa ao tempo e ao lugar”, ressalta Galciani Neves.

Mais adiante, o sertão ressurge colorido e vibrante, em telas repletas de personagens vestidos tipicamente, bandeirolas, barracas, garrafas de cachaça, frutas, serpentes e tantos outros signos que remetem não somente às antigas feiras livres e às feiras de gado, elementos que remontam à origem de Feira de Santana, mas também ao imaginário popular e suas singulares manifestações folclóricas.

Juraci também evocou um sertão forte e sóbrio, retratado em branco e preto, por vezes doloroso, marcado pela ferida narcísica que a Guerra de Canudos abriu no sertão nordestino; pela seca; pela fome; pela pobreza; mas, sobretudo, pela resistência da gente sertaneja, que, assim como a terra, tem a imensa capacidade de se reinventar e não deixar morrer sua alegria e beleza. “Em paralelo, Juraci realizava exposições embaixo de árvores, nas paredes externas das casas. Defronte à casa de Edwirgens, mulher que, segundo o artista, tudo sabia sobre a localidade de Saco Fundo (Bahia), toda a gente ia se juntando. Cada pessoa chegava com o que tinha: com o olhar desconfiado, com o pote de água vinda da cacimba, com vontade de conversa, com as cabeças de gado sobreviventes, com o cansaço da lida, com as encomendas de ex-votos para vender na feira. Debaixo do sol, pinturas iam sendo penduradas, apareciam varas de madeira, pedaços de couro de boi, e mãos, muitas mãos construíam a cena”, lembra a curadora.

Artista que lança gestos no mundo, abrindo os trabalhos para que o tempo e a natureza também sejam agentes nesse fazer, como pontua Galciani Neves, Juraci “entrecruza tempos de criação, amalgamando passados que transitam e se atualizam livremente no presente, por meio de seus arquivos, anotações e projetos. Vivencia os contextos (o sertão é vasto e muda o tempo todo) e abre novas frentes de trabalho”.

Os procedimentos que empreendeu durante a produção de muitos de seus trabalhos ressurgem revitalizados e recontextualizados em outros projetos. Como aponta a pesquisadora, Juraci segue se dedicando a andanças sertão adentro. “Não há guias, nem horizonte. Ao contrário do que se pensa, a mata do sertão é verde e densa. E Juraci vai se orientando pelo rastro do boi, por pequenos galhos e pedras que deixa ao longo de seu percurso. Assim, encontra lugares para realizar pequenas intervenções: uma composição com pedra e um tronco de árvore, um pedaço de couro que leva consigo passa a descansar sobre uma cerca. A ação tende ao mínimo, acontece ali e é registrada. O que se passará depois é construção do tempo e dos bichos”, explica, salientando que o artista utilizou os mais diversos materiais para compor sua obra, ao longo de sua carreira.

Tudo o que Juraci produziu, ressalta Galciani, “nos chama a ver a indissociabilidade entre sujeito e terra por meio da arte”. E isto, conforme a curadora, não é uma mera intenção, mas a condição para que ele produza. “Para Juraci, no sertão, embora a vida seja de difícil manutenção, como dizem os de fora, há uma capacidade que o sertanejo tem de sobreviver a tudo e uma solidariedade comunitária visível, que muito o emocionam. A arte para Juraci é um exercício que não se desenlaça desse viver no sertão. Um sertão que é de muitos tempos, que se expande e que se guarda em muitos de nós”, assinala.

A EXPOSIÇÃO – A primeira mostra individual de Juraci Dórea em Pernambuco marca o início do programa artístico da Galeria Marco Zero em 2026. De acordo com a curadoria do evento, a exposição apresenta uma perspectiva robusta da obra do artista, com mais de 100 trabalhos, entre inéditos e obras realizadas nas décadas de 1970 e 1980, em fotografias, desenhos, esculturas e pinturas.

A Galeria salienta que a região investigada pelo artista, “em sua pluralidade, destacando sua cultura, natureza e seu povo, como no ‘Projeto Terra’, iniciado em 1982 e ainda em execução”, estará presente na exposição. “Registros dessa série, assim como de importantes criações de Juraci, estarão em exibição na mostra”, diz a organização.

A Galeria Marco Zero está localizada na Avenida Domingos Ferreira, 3.393, Boa Viagem. A mostra fica aberta visitação pública de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h. Aos sábados, o espaço funciona das 10h às 17h.



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