A mais recente troca de declarações entre Estados Unidos e
Irã, marcada por ultimatos, advertências de “guerra total” e imagens de frotas
navais em deslocamento, revela menos sobre uma decisão militar iminente e mais
sobre uma transformação profunda no modo como os conflitos contemporâneos são
conduzidos. Antes que os mísseis falem, é a linguagem que já entrou em guerra.
E, nesse processo, a ameaça deixa de ser um instrumento da política para se
tornar o seu substituto.
Ao afirmar que “o tempo está se esgotando” e prometer um
ataque “muito pior” caso Teerã não aceite um novo acordo, o presidente dos
Estados Unidos abandona deliberadamente o vocabulário clássico da diplomacia
coercitiva e adota uma retórica de ultimato final. A resposta iraniana, por sua
vez, não opera no registro da dissuasão gradual: “qualquer ação militar será
considerada o início de uma guerra”, com retaliação “imediata, abrangente e sem
precedentes”. Não há, aqui, espaço para escaladas controladas, concessões
parciais ou ambiguidades estratégicas. O conflito é apresentado como absoluto
desde o primeiro enunciado.
Esse tipo de linguagem não é um excesso ocasional nem
simples retórica eleitoral. Trata-se de um processo de securitização extrema,
no qual o adversário deixa de ser um oponente político e passa a encarnar uma
ameaça existencial. Quando isso ocorre, a política, entendida como campo da
negociação, da reversibilidade e do cálculo racional, é, progressivamente,
esvaziada. A exceção se normaliza. A ameaça constante passa a ocupar o lugar do
debate, da diplomacia e da mediação.
Os sinais desse deslocamento são evidentes. O envio de uma
frota naval americana “por precaução” ilustra com clareza essa lógica. Não se
trata apenas de um movimento militar, mas de um gesto simbólico cuidadosamente
publicizado. A frota existe tanto para navegar quanto para ser vista, comentada
e transformada em mensagem política. A força deixa de ser silenciosa; ela
precisa ser exibida, antecipada, narrada. A ameaça, aqui, vale mais do que o
uso efetivo da força.
O mesmo ocorre com a recente entrega de milhares de drones
ao Exército iraniano. Esses sistemas, cada vez mais centrais nos conflitos
contemporâneos, funcionam menos como armas imediatas e mais como sinais
estratégicos. São instrumentos de comunicação política: demonstram capacidade,
disposição e alcance, mesmo quando permanecem no solo. O armamento se converte
em linguagem, e a linguagem em mecanismo de pressão contínua.
Talvez o aspecto mais revelador desse processo seja o fato
de que os ataques passam a ser narrados antes de acontecerem. Trump relembra
bombardeios passados e anuncia destruições futuras com riqueza de detalhes.
Autoridades iranianas descrevem respostas “sem precedentes” e “abrangentes” sem
que um único disparo tenha ocorrido. A guerra é antecipada no discurso,
ensaiada simbolicamente, como se sua verbalização já fosse parte do conflito. O
anúncio se torna quase tão importante quanto a ação.
Nesse ambiente, a ameaça perde seu caráter excepcional.
Historicamente, a retórica de destruição total era reservada a momentos
extremos, nos quais todas as alternativas haviam se esgotado. Hoje, ela se
transforma em linguagem ordinária da política externa. A repetição contínua de
advertências apocalípticas produz um efeito paradoxal: quanto mais se ameaça,
menos espaço resta para recuar. Cada declaração pública cria compromissos
simbólicos difíceis de desfazer sem custos internos severos.
É nesse contexto que o apelo russo por “moderação” ganha
relevância analítica. Ao alertar para o risco de “desestabilização do sistema
de segurança em toda a região”, Moscou não atua como mediadora moral, mas como
defensora de uma lógica quase anacrônica: a da ordem internacional como sistema
administrável, baseado em contenção e previsibilidade. Enquanto Washington e
Teerã operam no registro da ameaça absoluta, a Rússia tenta reinscrever o
conflito na gramática da estabilidade estratégica.
O problema central é que, quando a ameaça substitui a
política, o conflito tende a se tornar autorreferente. A linguagem da guerra
passa a produzir suas próprias condições de possibilidade. Frotas, drones e
ultimatos deixam de ser meios para alcançar um acordo e passam a funcionar como
fins em si mesmos, alimentando uma espiral discursiva da qual é cada vez mais
difícil escapar.
A guerra entre Estados Unidos e Irã pode ou não ocorrer. Mas
um dado já se impõe com clareza inquietante: a guerra ainda não começou, porém
a linguagem da guerra total já venceu. E, uma vez naturalizada, essa linguagem
costuma gerar exatamente o tipo de caos que todos afirmam querer evitar.