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Wellington Freire

A linguagem da guerra total

Wellington Freire - 30 de Janeiro de 2026 | 15h 21
A linguagem da guerra total
Foto>: Reprodução

A mais recente troca de declarações entre Estados Unidos e Irã, marcada por ultimatos, advertências de “guerra total” e imagens de frotas navais em deslocamento, revela menos sobre uma decisão militar iminente e mais sobre uma transformação profunda no modo como os conflitos contemporâneos são conduzidos. Antes que os mísseis falem, é a linguagem que já entrou em guerra. E, nesse processo, a ameaça deixa de ser um instrumento da política para se tornar o seu substituto.

Ao afirmar que “o tempo está se esgotando” e prometer um ataque “muito pior” caso Teerã não aceite um novo acordo, o presidente dos Estados Unidos abandona deliberadamente o vocabulário clássico da diplomacia coercitiva e adota uma retórica de ultimato final. A resposta iraniana, por sua vez, não opera no registro da dissuasão gradual: “qualquer ação militar será considerada o início de uma guerra”, com retaliação “imediata, abrangente e sem precedentes”. Não há, aqui, espaço para escaladas controladas, concessões parciais ou ambiguidades estratégicas. O conflito é apresentado como absoluto desde o primeiro enunciado.

Esse tipo de linguagem não é um excesso ocasional nem simples retórica eleitoral. Trata-se de um processo de securitização extrema, no qual o adversário deixa de ser um oponente político e passa a encarnar uma ameaça existencial. Quando isso ocorre, a política, entendida como campo da negociação, da reversibilidade e do cálculo racional, é, progressivamente, esvaziada. A exceção se normaliza. A ameaça constante passa a ocupar o lugar do debate, da diplomacia e da mediação.

Os sinais desse deslocamento são evidentes. O envio de uma frota naval americana “por precaução” ilustra com clareza essa lógica. Não se trata apenas de um movimento militar, mas de um gesto simbólico cuidadosamente publicizado. A frota existe tanto para navegar quanto para ser vista, comentada e transformada em mensagem política. A força deixa de ser silenciosa; ela precisa ser exibida, antecipada, narrada. A ameaça, aqui, vale mais do que o uso efetivo da força.

O mesmo ocorre com a recente entrega de milhares de drones ao Exército iraniano. Esses sistemas, cada vez mais centrais nos conflitos contemporâneos, funcionam menos como armas imediatas e mais como sinais estratégicos. São instrumentos de comunicação política: demonstram capacidade, disposição e alcance, mesmo quando permanecem no solo. O armamento se converte em linguagem, e a linguagem em mecanismo de pressão contínua.

Talvez o aspecto mais revelador desse processo seja o fato de que os ataques passam a ser narrados antes de acontecerem. Trump relembra bombardeios passados e anuncia destruições futuras com riqueza de detalhes. Autoridades iranianas descrevem respostas “sem precedentes” e “abrangentes” sem que um único disparo tenha ocorrido. A guerra é antecipada no discurso, ensaiada simbolicamente, como se sua verbalização já fosse parte do conflito. O anúncio se torna quase tão importante quanto a ação.

Nesse ambiente, a ameaça perde seu caráter excepcional. Historicamente, a retórica de destruição total era reservada a momentos extremos, nos quais todas as alternativas haviam se esgotado. Hoje, ela se transforma em linguagem ordinária da política externa. A repetição contínua de advertências apocalípticas produz um efeito paradoxal: quanto mais se ameaça, menos espaço resta para recuar. Cada declaração pública cria compromissos simbólicos difíceis de desfazer sem custos internos severos.

É nesse contexto que o apelo russo por “moderação” ganha relevância analítica. Ao alertar para o risco de “desestabilização do sistema de segurança em toda a região”, Moscou não atua como mediadora moral, mas como defensora de uma lógica quase anacrônica: a da ordem internacional como sistema administrável, baseado em contenção e previsibilidade. Enquanto Washington e Teerã operam no registro da ameaça absoluta, a Rússia tenta reinscrever o conflito na gramática da estabilidade estratégica.

O problema central é que, quando a ameaça substitui a política, o conflito tende a se tornar autorreferente. A linguagem da guerra passa a produzir suas próprias condições de possibilidade. Frotas, drones e ultimatos deixam de ser meios para alcançar um acordo e passam a funcionar como fins em si mesmos, alimentando uma espiral discursiva da qual é cada vez mais difícil escapar.

A guerra entre Estados Unidos e Irã pode ou não ocorrer. Mas um dado já se impõe com clareza inquietante: a guerra ainda não começou, porém a linguagem da guerra total já venceu. E, uma vez naturalizada, essa linguagem costuma gerar exatamente o tipo de caos que todos afirmam querer evitar.



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