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Wellington Freire

Por que exércitos modernos têm dificuldade em vencer guerras simples

Wellington Freire - 10 de Fevereiro de 2026 | 17h 34
Por que exércitos modernos têm dificuldade em vencer guerras simples
Foto: FDI

Os grandes exércitos do mundo contemporâneo são produtos de uma longa tradição histórica que associa vitória militar à superioridade técnica, à disciplina organizacional e à capacidade de impor uma derrota decisiva ao inimigo no campo de batalha. Essa concepção, herdada do chamado modo ocidental de guerrear, pressupõe que a guerra seja um instrumento racional a serviço de objetivos políticos claramente definidos e que seu desfecho se dê pela aniquilação, ou ao menos pela neutralização, da força armada adversária. O problema surge quando esse modelo é empregado contra inimigos que se recusam a jogar segundo tais regras.

A atual guerra em Gaza ilustra com rara nitidez essa dissonância estrutural. De um lado, as Forças de Defesa de Israel (FDI), um dos exércitos mais tecnologicamente sofisticados do planeta, dotado de superioridade aérea, inteligência em tempo real, poder de fogo preciso e uma cadeia de comando altamente profissionalizada. Do outro, os combatentes do Hamas, organizados segundo princípios clássicos da guerra irregular: fragmentação, mobilidade, ocultação no terreno humano e recusa sistemática ao combate decisivo.

Não se trata, portanto, de uma assimetria meramente material, mas de um choque entre concepções incompatíveis de guerra. O Hamas não busca derrotar militarmente Israel no sentido clausewitziano do termo. Seu objetivo não é a conquista de terreno, a destruição das forças inimigas ou a imposição de uma capitulação formal. Sua estratégia repousa na sobrevivência, no desgaste prolongado e na capacidade de transformar o tempo em arma política. Cada dia adicional de combate, cada operação inconclusiva, cada baixa civil amplificada no plano simbólico representa, para a lógica da guerra irregular, um ganho estratégico.

Esse padrão não é novo. Ele se insere numa linhagem histórica que remonta às guerras tribais, às insurgências coloniais e às lutas de libertação nacional do século XX. Exércitos regulares, moldados para vencer batalhas, tendem a fracassar quando confrontados com inimigos que não oferecem batalhas. A busca obsessiva pela decisão, núcleo duro da tradição militar ocidental, torna-se um fardo quando o adversário faz da evasão e da fluidez o seu princípio operacional fundamental.

O caso iraniano aprofunda essa lógica em escala regional. Desde a Revolução de 1979, o Irã desenvolveu um sofisticado sistema de projeção de poder indireto baseado em milícias, forças paramilitares e atores não estatais aliados. Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque, Houthis no Iêmen e o próprio Hamas em Gaza integram um ecossistema estratégico que permite a Teerã confrontar adversários muito mais poderosos sem jamais recorrer a um embate convencional direto. Trata-se de uma arquitetura de guerra irregular deliberadamente pensada para neutralizar as vantagens tecnológicas do inimigo e diluir a responsabilidade política do confronto.

Nesse modelo, a simplicidade é uma virtude. Túneis, foguetes artesanais, células autônomas e comando descentralizado mostram-se capazes de desorganizar sistemas militares cuja eficácia depende da integração perfeita entre informação, logística e poder de fogo. Quanto mais complexo o aparato bélico, maior sua vulnerabilidade a inimigos que operam fora de seus parâmetros normativos.

A dificuldade dos exércitos modernos em vencer guerras “simples” decorre, assim, menos de falhas táticas do que de um erro conceitual. Não se pode derrotar decisivamente um inimigo que não reconhece a validade da decisão. Em guerras desse tipo, sobreviver já é vencer; persistir é impor derrota moral e política ao adversário. Gaza, como tantas outras antes dela, não é apenas um campo de batalha, é um lembrete incômodo de que a história militar não premia necessariamente os mais fortes, mas os mais adaptáveis.

Ao leitor interessado em aprofundar o debate, remeto a: Hanson, Davis. Porque o Ocidente Venceu: mortandade e cultura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.



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